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Das brigas com o irmão ao sonho no UFC: Bate-Estaca está a um passo de ser a melhor do mundo

10 de Maio de 2017

Desde criança, Jéssica Andrade tinha uma certeza: a de que ela faria de tudo para ser a melhor do mundo na carreira que escolhesse. Mas a menina nascida em um sítio em Umuarama, no Paraná, não imaginava naquela época que sua profissão envolveria trocar golpes com outra mulher em uma jaula.

Antes de se tornar a "Bate-Estaca", apelido que também é um movimento do jiu-jítsu, Jéssica sonhava em representar o Brasil usando chuteiras e correndo atrás da bola. A inspiração era Marta Vieira da Silva, atacante da seleção brasileira de futebol feminino.

"Ela dizia: 'Ah, mãe. Um dia eu vou ser igualzinha a Marta, a senhora vai ver'. Ela gostava de futebol, jogava bastante", conta a mãe, dona Neuza.

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E foi com esse pensamento que a menina cresceu. Uma criança "vergonhosa", que gostava de andar à cavalo, e às vezes precisava sair correndo para fugir das vacas que a perseguiam quando saía para buscar leite. Brigas? Só com o irmão mais velho, mas a mãe garante que era coisa de criança. "Começava a brincar e dali a pouco estava brigando". Mas talvez tenha sido isso que plantou a semente da luta na cabeça da garota.

"Desde pequena eu brincava com o meu irmão de lutinha, de botar para baixo, de finalizar. Isso me deu um ânimo. Nunca tive medo de tomar porrada na cara, então o MMA me fez uma pessoa mais forte", diz a lutadora.

O treino de artes marciais só começou no final da adolescência, quando Jéssica descobriu o jiu-jítsu. Menos de um ano depois, ela já estava no cage fazendo sua primeira luta de MMA e foi então que veio a certeza: o MMA seria a sua vida dali para frente.

Para isso, Jéssica saiu do sítio na Zona Rural de Umuarama e se mudou para a porção urbanda da cidade. Depois de algumas vitórias, veio o convite para se mudar para o Rio de Janeiro, e a partir daí começou um trabalho de moldá-la para chegar ao topo.

"O primeiro treino dela foi horrível, meu Deus!", relembra Gilliard "Paraná". "Se você falava para ela bater com a direita, ela batia com a esquerda. Se você falava para ela chutar, ela dava um pulo. Mas eu vi muita força de vontade e muita força física. Às vezes você tem um atleta que é muito técnico, mas não é corajoso. A Jéssica sempre teve muito coração, é muito obediente, tem muita garra e vontade de vencer. Foram as coisas que enxerguei nela nos primeiros treinos".

A primeira luta internacional foi na Rússia, e então veio o convite para estrear no UFC. Jéssica foi chamada para medir forças com Liz Carmouche, que havia desafiado a campeã Ronda Rousey em sua luta anterior. A brasileira foi derrotada por nocaute técnico no segundo round, mas, com seu jeito humilde, aponta o lado positivo no revés.



"Mesmo não tendo vencido, a honra de ter sido a primeira brasileira a ter pisado no octógono do UFC não tem preço. Vou ficar para sempre na história. Fui a segunda brasileira contratada. A primeira foi a Amanda Nunes, que hoje é a primeira brasileira campeã. Hoje eu sou a segunda brasileira contratada, a primeira a lutar, e serei também a segunda brasileira a ganhar o cinturão, se Deus quiser. Estou trabalhando e batalhando muito para isso".

Desde então, foram sete vitórias em nove combates, e uma mudança de categoria. Estreando no Ultimate como peso-galo, Jéssica percebeu que era muito menor que suas oponentes. Se por um lado as adversárias secavam mais para chegar aos 61kg, por outro elas chegavam mais pesadas na hora do combate.

Foi assim que a atleta de 1,57m decidiu mudar para o peso-palha (52kg), onde venceu três seguidas e se classificou para batalhar pelo cinturão. Para muitos, isso indica o auge de um lutador, mas o Mestre Paraná garante que a pupila ainda não atingiu seu potencial completo.

"A Jéssica ainda é uma atleta em evolução. Ela não está no seu ápice de conhecimento. Ela está no meio do caminho: não é iniciante, mas também não é avançado. O melhor da Jéssica Andrade vocês ainda vão ver. Ela está disputando o cinturão, mas está disputando sendo uma atleta que ainda está aprendendo. Esperem que tem coisa muito melhor para vir ainda".

Se no octógono toda essa evolução está visível, Jéssica mantém um aspecto da vida pessoal bem reservado. Esposa da desafiante, Fernanda Gomes revela que a companheira não abre mão de ajudar quem precisar - independentemente se for alguma parceira da academia ou um morador de rua.

"Ela é um exemplo de mulher, e não cansa de surpreender a mim. Tem esse lado da Jéssica que as pessoas não conhecem. Tem dias em que a gente está andando e ela vê alguém precisando, daí para o carro, desce e vai ajudar. Isso é muito bonito, e é da essência dela. Ela sempre foi assim", diz.

"Em entrevistas ela não gosta de comentar, mas ela é muito caridosa. Todo mês ela faz duas compras no mercado para os atletas da academia, ela sempre ajuda as pessoas na rua, ela sempre se dispõe a comprar um lanche, e isso é muito bonito".

Independente do resultado do combate de sábado (13), no UFC 211, Jéssica garante que seu legado no esporte vai muito além da conquista de um cinturão. A marca que quer deixar no mundo é a de que é importante ajudar quem precisa. O bom e velho "fazer o bem sem olhar a quem".

"Acho que meu legado é continuar sendo a mesma pessoa de sempre, e ajudar todo mundo", disse. "Às vezes as pessoas não querem ajudar um fulano que nem conhecem que está na rua, mas a gente tem que ajudar a todos, não só as pessoas próximas. Acho que é por isso que sou tão abençoada. Eu falei para a minha mãe: 'um dia eu vou ficar muito rica, mas muito rica mesmo, mas eu vou ser a rica mais pobre do mundo porque eu vou querer ajudar todo mundo'. Hoje eu estou começando a melhorar a minha vida financeira, mas continuo ajudando todo mundo. E acho que meu legado vai ser esse. Ser a mesma pessoa sempre, não importa onde esteja, e querer sempre o bem da outra".

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