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Blog Por Trás do Octógono, por Marcelo Alonso

28 de Maio de 2018

A ANSIEDADE EM DEFINIR O MAIOR DE TODOS OS TEMPOS - 10/08/2018

O aumento da competitividade no MMA tem reduzido cada vez mais os longos reinados no esporte. No último final de semana, por exemplo, vimos o fim da invencibilidade do lutador mais dominante da história do UFC. Logo depois de bater o recorde de Anderson Silva (10 defesas de título), Demetrious Johnson perdeu seu cinturão para Henry Cejudo, quando tentava a 12ª defesa.

Com o aumento no nível dos atletas, que chegam ao esporte cada dia mais completos, tudo leva a crer que os longos reinados serão cada vez mais raros. A exceção de Jon Jones - que se conseguir vencer a batalha interna com seus demônios, tem tudo para bater todos os recordes e se transformar no maior lutador da história - será cada vez mais difícil para os atletas da nova geração baterem os recordes de Demetrious Johnson, Anderson Silva, GSP e Fedor Emelianenko.

Mas tem me chamado a atenção ultimamente a ansiedade dos fãs, e muitos jornalistas, em criarem novos “maiores de todos os tempos” a toque de caixa, desrespeitando legados e negligenciando a história. Na semana em que Stipe Miocic enfrentaria Daniel Cormier defendendo sua invencibilidade de seis lutas e o legado, conquistado na luta anterior, de peso-pesado com maior número de defesas de cinturão (3), muita gente já nem aceitava mais compará-lo a Fedor Emelianenko, sob o argumento simplista de que o russo, em seus 10 anos de domínio absoluto (31 vitórias), teria enfrentado oponentes inferiores. Realmente avaliar a história de um lutador pelo peso de seus adversários no cartel sem entender o que cada um destes oponentes representava no momento da luta, apaga qualquer currículo. A negligência histórica acabou sendo impedida por Daniel Cormier, que nocauteou Miocic no primeiro round. Mas já na semana seguinte, era ele quem disputava o título entre os maiores da história do UFC, mesmo com suas duas derrotas para Jon Jones, em enquetes da mídia norte-americana. Detalhe: Anderson Silva, com 10 defesas de cinturão, não figurava entre os quatro.

Nada melhor que o distanciamento histórico para nos ajudar a entender o peso de um legado. Algo que não é transmitido de um para outro apenas com uma vitória, como ocorria no filme “Highlander”, no qual todo o poder do derrotado era repassado a quem o derrotou. Cabem aqui dois exemplos práticos. Chris Weidman passou a ser o melhor peso-médio de todos os tempos porque venceu Anderson duas vezes? Não, pois perdeu para Rockhold, três lutas mais tarde, e não chegou nem perto de atingir o recorde de 10 defesas de cinturão do brasileiro. Werdum virou o maior pesado de todos os tempos porque venceu Fedor e depois foi campeão do UFC? Obviamente não. E estes são apenas dois casos que exemplificam bem a importância de respeitarmos o distanciamento histórico para definir o ingresso, ou não, de um campeão no panteão dos maiores de todos os tempos.

Nesta semana foi a vez dos ansiosos atuarem no peso-galo. Poucos dias após a vitória de Dillashaw sobre Garbrandt, não faltaram debates e enquetes pela internet questionando se TJ Dillashaw já seria o maior peso-galo de todos os tempos. Muita gente, talvez esquecendo a história de Dominick Cruz e Renan Barão, avaliou que sim. Vale lembrar que apesar da decadência que vive em sua carreira, Barão ficou 9 anos invicto (32 lutas sem perder e defendeu o cinturão peso-galo do UFC 3 vezes). E Dominick Cruz, que passou 8 anos invicto (13 lutas sem perder e defendeu seu cinturão 3 vezes). Isso sem falar na importância da sua contribuição na evolução do esporte, com seu estilo de andar e cortar ângulos que impactou as gerações subsequentes, destaque especial para seus oponentes diretos, Garbrandt e Dillashaw.

Com todo respeito ao novo campeão, mas ele está invicto há dois anos e, desde que estreou no UFC, alternou uma derrota a cada quatro vitórias. Começou sendo nocauteado por John Dodson na final do TUF 14 em 2011; depois engatou quatro vitórias consecutivas, até perder para Raphael Assunção em 2013. Na sequência, mais quatro vitórias, sendo duas delas impressionantes nocautes sobre Renan Barão (que vinha sendo apontado por Dana White como maior peso-por-peso do UFC), até sofrer sua terceira derrota, perdendo o cinturão para Dominick Cruz, em 2016. De lá para cá, TJ não só conseguiu mais 4 vitórias, como também mostrou uma evolução impressionante em todas as áreas. Hoje seria favorito claro numa revanche contra Dominick Cruz. Mas caso vença (depois de ter vencido Barão duas vezes) já poderá ser o maior galo da história? Acredito que neste ponto as enquetes passem a ser válidas, mas no meu julgamento o legado sempre terá mais peso até que o confronto direto. Aqui vale ilustrar novamente aqueles exemplos de Weidman (e Anderson) e Werdum (e Fedor).

É natural que os fãs no afã de valorizar as conquistas de seus ídolos queiram coroá-los a toque de caixa, mas cabe a nós jornalistas termos a responsabilidade de valorizar a história deste esporte, cruzando fatores históricos, numéricos e entendendo o momento de cada conquista. Se não tivermos esta preocupação, gênios como Anderson Silva, Jon Jones, Demetrious Johnson, GSP, José Aldo e Fedor Emelianenko estarão em constante risco de terem seus legados negligenciados. E não existe nada mais importante num esporte que a sua história.

CEJUDO ENCABEÇA MÊS DE REVOLUÇÕES NO UFC - 06/08/2018

Definitivamente as últimas quatro semanas foram de fortes emoções para os fãs do UFC. Pra ser sincero não lembro de ver tantos fatos históricos ocorrendo num espaço tão curto de tempo. Na primeira semana de julho, o campeão meio-pesado, Daniel Cormier, surpreendeu o mundo ao vencer o peso pesado mais dominante da história (Stipe Miocic), se transformando no primeiro lutador a unificar os cinturões das categorias “mais pesadas” do UFC; na sequência, vimos Brock Lesnar e Anderson Silva sendo liberados pela USADA para voltarem ao UFC; depois vimos o campeão do povo, José Aldo, voltando a ter uma exibição de gala e emocionando o mundo ao nocautear Jeremy Stephens; em seguida, foi agendada a tão sonhada luta entre Conor McGregor e Khabib Nurmagomedov para outubro em Nova York.

Mas a maior de todas as surpresas aconteceu no último sábado no UFC 227, com o campeão mais dominante da história do UFC, Demetrious Johnson, sendo destronado, em sua 12ª defesa de cinturão, por Henry Cejudo, que passou a ser o primeiro campeão olímpico detentor de um cinturão do UFC. E as novidades não pararam por aí. Já na primeira entrevista como campeão, ainda no octógono, Cejudo fez questão de deixar claro para o UFC que, em seu reinado, estaria aberto a fazer super lutas, desafiando imediatamente o campeão dos galos (que seria o vencedor da última luta da noite entre, TJ Dillashaw e Cody Garbrandt). Obviamente Dana White deve ter adorado a atitude do novo campeão, afinal, há pelo menos dois anos, Demetrious Johnson vinha se negando a aceitar esta hipótese

Ao ser perguntado pela imprensa logo após o evento sobre a possibilidade de uma superluta entre Dillashaw e Cejudo, Dana White deixou claro que não pretende banalizar as super lutas, que são um recurso utilizado em casos onde os campeões já varreram suas respectivas divisões. Como Amanda Nunes (galos) e Cris Cyborg (pena) ou Cormier (meio-pesado) e Miocic (pesado), por exemplo. Obviamente não é o caso.

A categoria dos galos está renovada e Dillashaw tem vários “problemas” em seus calcanhares. Dominick Cruz, que já o venceu, é o primeiro do ranking; Marlon Moraes (#4) também seria um senhor desafio para o campeão. Sem falar numa possível trilogia com Raphael Assunção (#3) ou até uma revanche com John Dodson (#7), que o nocauteou em sua estréia no UFC.

Entre os moscas, uma revanche contra Joseph Benavidez (#3), que também já o venceu, seria uma possibilidade para o novo campeão, mas nada faria mais sentido, esportivamente falando, do que uma revanche imediata. Não só pelo fato de Demetrious Johnson ser o campeão mais dominante da história do UFC, único a defender seu cinturão 11 vezes, mas principalmente pelo fato de a luta ter sido absolutamente parelha (com dois rounds claros para cada um), sendo definida em um último round bastante controverso

No meu VAR, confirmei o 5º round para DJ

Durante a transmissão, comentando ao vivo no Combate, achei o round definitivo muito parelho. Mas acabei pontuando 10 x 9 para Johnson pela quantidade de chutes aplicados pelo campeão. Em favor de Cejudo pesaram uma queda não estabilizada no último minuto e um “flash down”, que me pareceu em consequência de um cruzado aplicado pelo desafiante. Na hora confesso que fiquei na dúvida se DJ havia escorregado, mas sem ter como ver o replay (ocorreu no meio do round), computei como golpe conectado.

Em lutas muito parelhas assim, sempre lembro de uma conversa com o respeitado juiz da Comissão Atlética Brasileira, Guilherme Bravo, que tem sido constantemente convidado por Big John e Herb Dean para eventos nos EUA. "Toda ação tem um valor, nem que seja 1 centavo. No final de cada round, o juiz tem que contabilizar as moedas no pote de cada lutador e definir quem venceu o round”, costuma dizer Guilherme, que deve lançar um livro em breve explicando dúvidas importantes da complexa arbitragem de MMA.

Ao chegar em casa, às 3h da matina ainda adrenalizado, peguei novamente os  “potes e as moedas” e fui rever o 5º round com a ajuda do VAR. Ao rever quatro vezes o lance que computei como flash down, cheguei a conclusão que DJ escorregou. Também reanalisei a contundência da queda de Cejudo, bem como os oito chutes aplicados por Johnson no último round. Desta vez, mais claramente, vi a vitória de Johnson nesta que já está sendo considerada a melhor luta da categoria na história do UFC. Há de se ressaltar o exemplo do ex-campeão a todos os lutadores. Numa luta tão parelha, onde caberia contestação, DJ não só aceitou a derrota, como aplaudiu e ainda parabenizou o novo campeão.

Trilogia inevitável

Durante a coletiva de imprensa logo após o evento, Demetrious revelou que machucou o pé e o joelho durante a luta, mas não usou isso como desculpa. Também não falou em revanche imediata. Com um faturamento de US$ 430 mil neste UFC 227, DJ deixou claro que quer um tempo para a família. Outra tacada genial, afinal, ele, que já varreu a divisão, sabe melhor que ninguém que a trilogia, seja imediata ou não, é um caminho natural e não tardará a voltar a mesa de negociações.  

A verdade é que a vitória de Henry Cejudo foi excelente em todos os aspectos para o show. Além de abrir um leque maior de possibilidades, inclusive de intercâmbio de categorias, traz novos ares para divulgação do esporte junto à mídia, uma vez que Cejudo é conhecido nacionalmente por ser o medalhista olímpico mais jovem da história dos EUA, além de ser um descendente de imigrantes mexicanos. Um prato cheio para a mídia americana antipática a Trump e contrária a construção do muro entre os dois países.

Cejudo pode ser importante também para ajudar o UFC em seu projeto de expansão em países de língua hispânica, como México, Argentina e Chile. Além de espanhol e inglês, o novo campeão dos moscas fala português fluente e tem uma história próxima com o Brasil. Num momento de entressafra, e sem campeões, nas categorias masculinos o "Mexicano Xente Boa" ainda poderia ser um excelente coringa em cards nacionais.

A CATARSE DE ALDO E O FUTURO DOS PENAS E LEVES - 31/07/2018

Definitivamente ser ídolo no Brasil não é tarefa para amadores. Após o belo nocaute aplicado por José Aldo no duríssimo Jeremy Stephens, 4º do ranking dos penas e que só havia sido nocauteado uma vez em 42 lutas, me impressionei com a quantidade de fãs, e até jornalistas, questionando nas mídias sociais a explosão de emoção do brasileiro no último sábado, inclusive associando o choro a uma insegurança do lutador, que estaria assim demonstrando aos oponentes que ele próprio duvidava de sua capacidade. Ora bolas. Emoção não precisa de legenda. Não se discute nem se explica, mas em se tratando de José Aldo vale uma reflexão simples, se colocando em seu lugar.

Um primeiro passo para entender a catarse de Aldo é tentar compreender a complexidade do MMA. Os poucos seres humanos que tem a coragem de pisar em um Octógono para praticar o esporte individual mais complexo e traumático que existe têm emoções, histórias, traumas, contusões. E, além do oponente, têm que lidar com todas elas, em doses maiores ou menores, cada vez que vão garantir seu sustento.

Se coloque no lugar de um garoto que nasceu numa família muito pobre na periferia de Manaus, com um pai alcoólatra e que tem tudo para dar errado, mas encontra seu caminho através das artes marciais. Apesar de todos os ‘nãos’ da vida, você consegue por intermédio de seu talento, e do apoio do seu mestre, não só se transformar em campeão mundial, como ficar invicto por quase 10 anos sendo o único lutador de sua divisão a conseguir sete defesas de cinturão no UFC. Sua história de superação passa a ser um exemplo tão fora da curva que acaba virando filme. Até que, no ano em que o filme sobre a sua vida chega aos cinemas, você sofre uma derrota por nocaute em 13 segundos e seu mundo vira de cabeça para baixo.

A primeira decepção ocorre quando, apesar de todo o seu histórico, você não consegue o direito à revanche. Para piorar, alguns jornalistas estrangeiros atacam seu legado afirmando que você só conseguiu ficar invicto por tanto tempo porque a agência antidopagem (USADA) não existia no esporte durante o seu reinado. Mas você não se abala, continua treinando e responde vencendo o número dois da divisão pela segunda vez (Frankie Edgar), ganhando o cinturão interino. Até que, logo após a vitória, quando você está certo que conseguiria a revanche, descobre que o homem que o derrotou subiu de categoria e tem outros planos.

Sem vislumbrar a chance de fazer a luta que dava sentido a sua carreira, Aldo perde a motivação de continuar treinando MMA e decide migrar para o boxe, chegando até a falar em aposentadoria do MMA. E é neste momento de total desmotivação que ele enfrentou o novo fenômeno Max Holloway no Rio de Janeiro, sendo nocauteado diante de sua torcida. Um trauma difícil de cicatrizar. Seis meses depois, Frankie Edgar, que enfrentaria Holloway, se contunde, e Aldo, que lutaria com Ricardo Lamas, é convidado a substituí-lo, perdendo por nocaute novamente.

Imagine o que se passa na cabeça de um campeão com a história de Aldo após sofrer dois nocautes seguidos. Depois de toda história de superação de sua vida. O receio de decepcionar os amigos, a filha, parceiros de treinos, a pressão de ter sua história e de sua equipe resumida ao doping caso fosse nocauteado por Jeremy Stephens. Definitivamente, quando se tem um legado e uma história como a de Aldo, a responsabilidade é gigante. Para aumentar a pressão em seus ombros, o evento do último sábado estava sendo transmitido pela Globo para todo o país. Quantas pessoas com uma história como a dele estavam ali esperando mais um exemplo de superação?

Imagine os fantasmas que não vieram à tona quando ele recebeu aqueles primeiros golpes de Stephens e tonteou. Talvez neste momento tenha lembrado da voz do pai no leito de morte, como no filme. Não sei o quê, mas definitivamente algo o fez morder o protetor e partir para cima do americano iniciando aquela virada espetacular, que terminou naquele gancho à lá Rocky Balboa. Um nocaute que representou a volta por cima do campeão, uma resposta a todos aqueles que duvidaram de sua história. Nada mais natural do que a Aldo se emocionar e fazer milhares chorarem com ele. Uma emoção que, por toda sua história, não deveria precisar de legenda.

O futuro de Aldo nas mãos dos médicos do campeão

Os próximos passos da divisão dependem diretamente da saúde do campeão, Max Holloway. Dana White teria dito que os exames do havaiano não detectaram nenhum problema e que ele já teria plenas condições de voltar a treinar estando apto a defender seu cinturão antes do final do ano. Apesar do otimismo do cartola, vale aguardar o posicionamento oficial do médico do campeão. Um caso de concussão, no qual o atleta ficou por mais de uma semana com sequelas claras, talvez leve os profissionais a terem uma postura mais conservadora no sentido de preservá-lo de qualquer risco, o afastando dos treinos nos próximos três meses. Dana já disse que não pensa em criar um cinturão interino, mas se Holloway só voltar em 2019, é difícil imaginar esta categoria parada por tanto tempo. Com ou sem cinturão, faria todo sentido uma luta entre o nº 1, Brian Ortega, e o nº 2, José Aldo. Um confronto de gerações com grande potencial de vendas de pay per view.

Caso Holloway volte antes do final do ano, o brasileiro teria que torcer para Ortega numa disputa com o havaiano, pois uma trilogia com Holloway não faria sentido, pelo menos a curto prazo. Mesmo em caso de vitória de Ortega, Aldo teria que vencer mais uma luta, provavelmente com o vencedor do combate entre Renato Moicano e Cub Swanson no próximo sábado. De qualquer maneira, tendo em vista o histórico de Holloway nos últimos dois eventos, valeria José Aldo ficar em forma caso o UFC precise substituí-lo em cima da hora.        

Ferguson e Poirier na cola de McGregor

A vitória de Poirier sobre Alvarez também ajudou a clarear a divisão dos leves, que na realidade se complicou a partir da contusão de Tony Ferguson (1º do ranking), considerado pelo próprio Khabib Nurmagomedov como seu mais difícil oponente. Como só deve voltar em 2019, Tony deixa o caminho aberto para o ex-campeão Conor McGregor, que acaba de ter seus problemas com a justiça norte-americana resolvidos, já estando apto a enfrentar o russo antes do final do ano.

Mas em se tratando de McGregor e do altíssimo grau de complexidade de sua negociação com o UFC, principalmente após ganhar 100 milhões de dólares na luta de boxe com Mayweather, as chances de Poirier conseguir sua sonhada chance antes do fim do ano são altas. Vindo de vitórias sobre dois ex-campeões da divisão (Alvarez e Pettis), Poirier tem feito jus ao 3º lugar no ranking da divisão, merecendo sua chance caso o 1º (Tony Ferguson) e o 2º (McGregor) não estejam aptos a enfrentarem o campeão. Levando em conta o fator timing, uma outra possibilidade, caso a luta entre Conor e Khabib seja confirmada para o últimos meses do ano, seria Tony Ferguson voltar em 2019 enfrentando Poirier numa eliminatória para decidir o próximo desafiante ao cinturão dos leves. Independente do que ficar decidido uma coisa é certa. Seja nos leves ou nos penas, os próximos combates devem figurar entre os maiores clássicos da história do evento.

TRÊS LIÇÕES DISTINTAS PARA O 3X0 NA ALEMANHA - 23/07/2018

Sinceramente não lembro de, nos últimos anos, ter terminado uma transmissão do UFC tão decepcionado. Fazendo um paralelo com o futebol, este 3 x 0 na Alemanha teve um gosto bem parecido com aquele 7 x 1 para a Alemanha na Copa de 2014. Mas afinal de contas, seja nas vitórias ou nas derrotas, é a imprevisibilidade que faz do MMA um esporte tão apaixonante. E são as surpresas que alimentam nossos debates semanais aqui no blog. Na minha análise, as derrotas de Glover Teixeira, Mauricio Shogun e Vitor Miranda são motivadas por fatores distintos, tendo como ponto central duas questões: idade (milhagem) e nível dos treinamentos (zona de conforto).

Apesar de cronologicamente ser o mais novo dos três, Maurício Shogun (36) é certamente o que tem mais “quilometragem de ringue”. Mesmo só tendo feito sua estreia oficial em 2002 no Meca, Shogun já ajudava o irmão Ninja participando dos treinos de Vale-Tudo na Chute Boxe desde 1997. Ou seja, seu corpo carrega o resultado de 21 anos de batalhas. E em se tratando da Chute Boxe, nos tempos de Pride, podemos dizer, com tranquilidade, que as marcas de guerra no treino não são condizentes com um atleta de 36 anos e 35 lutas no currículo.

O fato é que, lidando com várias lesões recorrentes, Shogun vem tendo que optar há alguns anos entre treinar forte ou lutar, algo quase impossível de ser feito na atual conjuntura do MMA. Mas o fato é que o curitibano vinha conseguindo operar este milagre nos seus três últimos combates. Mesmo fazendo camps curtos na Kings MMA, na Califórnia, e estando longe de sua melhor forma, Mauricio garantiu vitórias em lutas duríssimas contra Rogério Minotouro (2015), Corey Anderson (2016) e Gian Villante (2017). Três oponentes que entraram no Octógono claramente respeitando a história do único lutador (meio-pesado) a conquistar cinturão do Pride e do UFC.

Mas as longas sessões de fisioterapia após a última luta levaram Shogun a fazer uma aposta arriscada quando teve sua luta marcada contra Oezdemir: abortar o camp na Califórnia, fazendo todo o treinamento em Maringá, com o suporte de Daniel Abul, faixa-preta de Rafael Cordeiro. Como vimos domingo, o ritmo de competição e o lastro de treinos acabou sendo o grande diferencial na luta. Tendo feito 11 combates no mesmo período em que Shogun fez três, Anthony Smith sabia que não tinha nada a perder se não respeitasse o brasileiro, como fizera com Rashad mês passado. Partiu pra briga e seu deu bem. Mais forte, mais preparado e mais veloz, Smith conseguiu um nocaute em apenas 1m29s, enterrando a chance de o brasileiro fazer uma próxima luta valendo cinturão contra Daniel Cormier.

Por falar no atual campeão dos meio-pesados e pesados, Daniel Cormier (39), ele e Shogun (36) são ótimos exemplos da diferença entre idade física e cronológica no MMA. O curitibano começou a treinar Vale-Tudo em 1997 e enfrentou todos os melhores de sua divisão entre 2002 e 2018. Já Cormier, além de ter feito muito menos lutas (23), entrou no MMA em 2009, ou seja, tem nove anos de carreira. No quesito milhagem há de se levar em consideração também o estilo do lutador. Enquanto Cormier tem um jogo baseado no wrestling, evitando golpes na cabeça e se preservando mais de concussões e contusões, Shogun, desde que começou a treinar, há 21 anos, sempre se espelhou no jogo do irmão Murilo Ninja, um estilo agressivo sempre objetivando o nocaute. Seu estilo de sempre lutar para matar ou morrer, obviamente afetou sua resistência aos golpes no decorrer da carreira.

Dito isso, há de se levar em consideração a realidade física de Shogun para decidir seus próximos passos. Se existe um lado positivo na derrota para Smith é ter mostrado que, na atual conjuntura, não há a menor condição de almejar uma luta com Cormier. Entretanto, por toda a sua história, Shogun tem plenas condições de ainda fazer boas lutas contra oponentes da parte inferior do ranking, abrilhantando cards nacionais e preservando intacto seu legado como um dos maiores lutadores peso por peso da história.  

A famigerada zona de conforto

Por suas últimas atuações, as derrotas de Shogun e Vitor Miranda eram aventadas por vários especialistas. Já a vitória de Glover sobre Corey Anderson era tida como uma das “quase unanimidades” deste card. Afinal de contas o brasileiro vinha mostrando há anos ser um dos maiores pesadelos dos wrestlers na divisão, exatamente pela capacidade de frustrar suas quedas, contra-atacando com sua direita pesada, como fez contra Patrick Cummins, Ryan Bader e Rashad Evans.

O fato de Corey Anderson ter sido nocauteado por Ovince Saint Preux e Jimi Manuwa em 2017, além de ter sido chamado a duas semana da luta para substituir Ilir Latifi contra Glover, só aumentavam o favoritismo do brasileiro. Talvez por isso a derrota de Glover tenha sido a maior decepção da noite, principalmente para ele mesmo, que chegou a reconhecer depois da luta: “Eu não posso continuar lutando assim”.

O brasileiro começou bloqueando três quedas, dando a impressão de que conseguiria impor seu plano tático, até sentir um jab e ser derrubado por Corey. Esta queda na metade do primeiro round pareceu mudar os rumos da luta. Anderson impôs seu ground and pound, o brasileiro cansou e o voltou para segundo e terceiro rounds irreconhecível. Percebendo o cansaço e a lentidão do mineiro, Corey capitalizou e passou a ser melhor até na luta em pé, terminando o duelo com uma vitória unânime nos três rounds.

Já vi alguns colegas analisando a derrota de Glover pelo viés da queda de rendimento natural de seus 39 anos e até pelo desgaste decorrente das graves concussões que sofreu nos nocautes para Anthony Johnson (2016) e Alexander Gustafsson (2017). Apesar de concordar que sua resistência aos golpes diminuiu, tenho uma visão diferente no caso Glover e levo em consideração novamente o fato de sua idade física não ser condizente com a cronológica. Acredito que Glover esteja muito mais para o exemplo de Cormier do que para Shogun. Afinal, o mineiro começou tarde no MMA. Fez sua primeira luta em 2002, mas passou a treinar de verdade em 2004, há 14 anos. De lá para cá, só sofreu cinco derrotas (três na decisão e duas por nocaute). Tirando os treinos contra parceiros como Pedro Rizzo e Chuck Liddell, Glover sempre bateu muito mais que apanhou. Dito isso, sinceramente, acredito que seu caso é simplesmente sair da zona de conforto, deixar de se preparar treinando com alunos em sua academia em Danbury, Connecticut, e buscar treinos onde seja posto a prova e levado ao limite numa grande equipe. Exatamente como continuam fazendo outros veteranos como Daniel Cormier (na AKA) e Yoel Romero (na ATT), de 41 anos.

Chego a esta conclusão comparando as atuações do mineiro entre 2012 e 2016, quando alternava seus camps entre ATT e Rizzo/RVT. Neste período Glover fez 10 lutas, vencendo oito, enfileirando os maiores da categoria até perder para o campeão Jon Jones por decisão. Depois ainda nocauteou Patrick Cummins, Rashad e OSP, até que resolveu abrir sua academia em Connecticut. Desde então é clara a queda de rendimento de Glover em seus combates. Primeiro velocidade, gás e punch. E na última luta até a excelente defesa de quedas foi neutralizada.  

Só depende de Glover perceber o que deve melhorar para virar o jogo. Sua humildade, simpatia e excelente caráter fazem dele um atleta bem vindo em qualquer grande equipe. Caso não queira treinar na ATT, que vá para a Kings MMA de Rafael Cordeiro ou venha para o Rio treinar com seu grande amigo Pedro Rizzo. O fato é que hoje o peso meio-pesado é uma das poucas categorias onde os brasileiros não têm apresentado peças de reposição. E diante desta entressafra seria muito bom voltar a ter o melhor Glover colocando o Brasil nas cabeças desta divisão, que em março, com a aposentadoria de Cormier, voltará a ficar sem um campeão linear.  

Entendendo o novo Vitor Miranda

Ao contrário de Shogun e Glover, a derrota de Vitor Miranda não pode ser creditada à falta de treinos de qualidade, contusões ou quilometragem.

Até por reconhecer o bom nível de sparrings que ele encontra na Team Nogueira e o excelente trabalho do preparador físico Rodrigo Babi, não conseguia ver um trocador mediano, como Abu Azaitar, vencendo um dos melhores strikers do Brasil. Um cara que tinha no currículo 32 lutas de kickboxing lutando entre pesos pesados, tendo inclusive vencido dois GP’s internacionais com três nocautes na mesma noite.    

Nem mesmo julgando friamente suas últimas lutas (derrotas para Marvin Vettori e Chris Camozzi), conseguia vê-lo em desvantagem, exatamente pelas características do oponente. Um peso meio-médio extremamente agressivo, que se jogava aberto para cima dos adversários e que ainda não tinha quase nenhuma experiência na luta de solo. No papel parecia um encaixe perfeito para o Cro Cop brasileiro. Pelo menos até a luta começar e o meu parceiro de transmissão, Luciano Andrade, me ajudar a entender que aquele não era o mesmo Vitor Miranda que eu me acostumei a ver lutar. Lento e previsível, Vitor esteve sempre um passo atrás do anfitrião. E mesmo na luta de solo, onde tinha clara superioridade, o brasileiro, já mostrando bastante cansaço, perdeu montadas, katagatames e deixou a chance da vitória escapar, perdendo os três rounds.

Se o brasileiro tivesse começado bem a luta e caísse no decorrer dos rounds, até poderíamos aventar a possibilidade de ele ter sido afetado pela desidratação brusca para bater o peso, mas Miranda já começou bem mais lento e seu ritmo só decaiu no decorrer dos rounds. Uma repetição do que ocorrera contra Vettori e Camozzi.

Acompanho Vitor da beira do ringue desde os tempos do kickboxing em 2003. Começou no MMA, de verdade, em 2007. Tanto no MMA como no kickboxing seu jogo sempre foi baseado na velocidade e potência dos golpes.

Apesar de ter muitas lutas, Vitor nunca foi nocauteado no MMA, por isso mantém um de seus pontos fortes intactos: a capacidade de absorção de golpes acima da média. Por outro lado, a julgar por suas últimas três lutas, há de se reconhecer que sua idade cronológica (39 anos) começa a impactar, sim, em seus maiores ativos: velocidade, potência dos golpes e cardio. Caso consiga manter o emprego após três derrotas consecutivas no UFC, certamente continuará sendo incentivado pelos treinadores Vander Valverde e Davi Ramos a investir nas quedas e finalizações. Uma mudança de estilo condizente com seu novo momento e com a realidade do esporte na atualidade.

O fato é que, independentemente dos motivos distintos que levaram a queda de rendimento destes grandes nomes do Brasil no UFC, é sempre importante lembrar que este esporte não é feito só de campeões. Mesmo que não lutem mais pelo título, grandes ícones do esporte como Shogun, Glover e Vitor continuam tendo plenas condições de fazer ótimas lutas com oponentes que façam sentido para que continuem abrilhantando os cards do UFC.

SHOGUN, GLOVER E MIRANDA: POR QUE OS BRASILEIROS SÃO FAVORITOS NO UFC HAMBURGO - 20/07/2018

Uma semana depois do retorno vitorioso de Junior Cigano no UFC Boise, que teve três brasileiros no card (Raoni Barcelos e Jenifer Maia estrearam neste evento), coincidentemente mais três brasileiros foram escalados para o UFC do próximo domingo, em Hamburgo, na Alemanha.

Fazendo as três lutas principais do card, mesmo não estando na melhor fase de suas carreiras, os veteranos Maurício Shogun (36 anos), Glover Teixeira (38 anos) e Vitor Miranda (39 anos) sobem ao octógono alemão como favoritos. Explico porquê no texto abaixo.

Um estreante para levantar o Cro Cop brasileiro

Com 39 anos e vindo de duas derrotas seguidas na decisão dos juízes (Chris Camozzi e Marvin Vettori), Vitor Miranda recebeu do UFC uma chance de ouro para se reabilitar e manter o emprego no maior evento do mundo, o estreante e campeão alemão de muay thai, Abu Azaitar. Extremamente agressivo, o local tem sete das suas 13 vitórias definidas por nocaute. Seu ponto forte é o overhand de direita, mas ele possui grandes brechas defensivas, aplicando os golpes muito abertos e sem se preocupar em controlar a distância. Outro ponto favorável ao brasileiro é a envergadura. Abu tem apenas 1,77m, tanto que costumava lutar entre os meio-médios.

Já o brasileiro é originalmente um peso-pesado (1,87m) que desceu duas divisões após perder a final do TUF Brasil 3 para Cara de Sapato (que fez o mesmo). Ao contrário do alemão, Miranda tem um kickboxing extremamente alinhado e técnico, marcado por excelente controle posicional e boa variação de chutes (na cabeça e no corpo), característica que aliás rendeu muitos nocautes ao lutador de Joinville e o apelido de Cro Cop brasileiro, principalmente depois de passar uma temporada com Mirko na Croácia. Se usar sua experiência para esfriar o ímpeto do lutador local, muito popular na Alemanha, Miranda tem tudo para sair com a vitória.

De cinturão a leitoa com cachaça

Terceiro do ranking dos meio-pesados, Glover Teixeira deveria inicialmente enfrentar o quarto, Ilir Latifi, uma luta que, no papel, tinha tudo para definir o próximo desafiante ao cinturão de Cormier. Mas muitas águas rolaram. Primeiro Ilir Latifi se contundiu e Corey Anderson (9º) entrou em seu lugar; depois Oezdemir (2º) saiu da luta com Shogun para enfrentar Gustafsson (1º) no UFC 227 em agosto; para terminar, Cormier venceu Miocic, unificou as duas categorias e apontou Shogun (8º) como única luta que lhe interessa para fazer sua última defesa de cinturão. Diante da mudança total do panorama da divisão, a luta que poderia carimbar o title-shot para Glover acabou virando mais um desafio para manter o mineiro no topo da divisão e, como ele gosta de dizer, garantir mais alguns meses de férias saboreando sua leitoa com cachaça.

Corey Anderson é um wrestler clássico que, apesar da melhora em pé, não tem poder de nocaute e costuma vencer suas lutas na decisão com uma tática bastante previsível, derrubando o oponente e impondo seu ground and pound. Contra strikers com poder de nocautear e frustrar suas quedas, porém, Corey costuma se complicar, como vimos nas lutas contra Ovince St-Preux e Jimi Manuwa (ambos o nocautearam).

Como Glover tem as mãos pesadíssimas e uma das melhores defesas de queda da divisão, no papel, entra com amplo favoritismo. Principalmente se conseguir conter seu conhecido ímpeto pelo nocaute nos primeiros minutos, o que poderia facilitar as quedas de Corey e mudar os rumos da luta. Em condições normais de temperatura e pressão, Glover frustra as tentativas de queda do americano e aplica um nocaute antes do terceiro round.

Uma vitória para chegar a Cormier

Oitavo do ranking dos médios, Shogun acaba de ter seu nome citado por Daniel Cormier como oponente ideal para sua última defesa de cinturão nos meio-pesados. Para carimbar este desafio, porém, o brasileiro precisa vencer bem no domingo, convencendo Dana White a “comprar” a sugestão do campeão.

Ao contrário de Glover, que está cinco posições à frente de Shogun no ranking, os fatos conspiram em favor do curitibano, que estava Inicialmente escalado para protagonizar este card de domingo contra o duríssimo Volkan Oezdemir (2º do ranking), franco favorito. O suíço vinha de uma derrota para o campeão Cormier e foi empurrado para enfrentar o primeiro do ranking Alexander Gustafsson no UFC 227, dia 4 de agosto em Los Angeles. Quem, teoricamente, saiu ganhando nessa dança de cadeiras foi Shogun, que enfrentará Anthony Smith.

O americano acaba de subir dos médios, tendo estreado na nova divisão com um belo nocaute sobre o ex-campeão dos meio-pesados Rashad Evans. Mesmo não estando ranqueado vale notar que Smith é um lutador perigoso que, não por acaso, tem sido apontado como favorito nas bolsas de apostas. Com uma envergadura privilegiada para a divisão, 1,93m, e apenas 29 anos, o “Lionheart” (coração de leão) tem 42 lutas de MMA (29 vitórias e 13 derrotas) e apesar de não ser muito técnico na trocação é extremamente agressivo, buscando sempre o nocaute no infighting, mas normalmente deixando brechas na defesa. E foi aproveitando estas brechas defensivas do americano que os brasileiros Thiago Marreta e Cezar Mutante conseguiram vencê-lo. Aliás, suas únicas duas derrotas em sete lutas no UFC.

Apesar de seu queixo não apresentar a mesma resistência dos tempos do Pride, Shogun é mais técnico e melhor kickboxer que o americano. Os dois se equivalem no wrestling ofensivo e defensivo, mas caso a luta vá para o chão, o brasileiro, faixa-preta de Nino Schembri, também é superior. A única área onde o norte-americano leva franca vantagem é no quesito ritmo de competição. Enquanto Anthony Smith fez 11 lutas entre 2015 e 2018, o brasileiro fez apenas três combates, nos quais venceu Rogério Minotouro (2015) e Corey Anderson (2016) em decisões apertadas, e Gian Villante (2017) num nocaute no 3º round.

Shogun e os tempos de “um Pride por dia”

Um outro fator que deve ser considerado num combate de MMA é a milhagem do atleta. Ou seja, o tempo que seu corpo está sendo submetido aos impactos do esporte mais duro que existe. Neste particular, Shogun talvez seja o melhor exemplo de profissional ainda em atividade de que idade cronológica ou número de lutas no currículo não tenha nada a ver com o tempo de “atividade real” do lutador.

Mesmo tendo sete lutas a mais que o brasileiro (42 x 35), Smith começou sua carreira em 2008. Já Shogun, sete anos mais velho, começou a treinar Vale-Tudo em 1997 no auge da equipe Chute Boxe quando se dizia em Curitiba que os treinos na sede da Mario Tourinho equivaliam a um Pride por dia. Eu acompanhei estes tempos de perto e assino embaixo. Ou seja, quando estreou no Vale-Tudo no Meca 7 em 2002, o corpo de Shogun já contabilizava os impactos de mais horas de luta que a maioria dos profissionais em atividade na época. De lá para cá fez 12 lutas no Pride e 17 no UFC, enfrentando os oponentes mais duros de sua divisão em mais de 16 anos de carreira intercalados por dezenas de cirurgias e concussões, que fazem parte da rotina de um striker como ele.

Mas se por um lado o fator "milhagem" poderia favorecer ao norte-americano, por outro o fator “psicológico curricular” favorece o brasileiro. Um bom exemplo é Gian Villante, último adversário de Shogun, que antes da luta revelou ter o curitibano como um de seus ídolos no esporte. Sabe-se lá o que é olhar do outro lado do Octógono e ver alguém que venceu o torneio de meios-pesados mais difícil da história (Pride GP 2005) enfileirando Quinton Jackson, Minotouro, Overeem e Arona; e que nocauteou Coleman, Chuck Liddell e Lyoto Machida, sendo o único homem a ter o cinturão dos meio-pesados do Pride e do UFC? Esta é a pressão que Smith terá que lidar no próximo domingo.

Avisado da luta há duas semanas, o norte-americano não tem nada a perder se for derrotado por uma lenda do esporte. Já se vencer, poderá colocar no currículo dois ex-campeões do UFC (Rashad e Shogun) em menos de dois meses, o que certamente valorizará seu passe e o colocará no Top 10 da divisão. No caso de Shogun, o resultado de domingo será ainda mais importante. Caso perca, terá que começar a pensar seriamente em pendurar as luvas. Caso vença, poderá ter pela frente a luta mais importante de sua carreira, um combate de despedida que certamente lhe renderia participações no pay-per-view e um dos melhores salários de sua vida. Uma nova realidade que lhe obrigaria a sair da zona de conforto, ao lado da família em Maringá, tendo que se mudar, ao menos por alguns meses, para Los Angeles para um intensivão com toda a estrutura de treinos que o mestre Rafael Cordeiro pode lhe proporcionar na Kings MMA. Esta, aliás, seria a única maneira de ser competitivo contra Daniel Cormier, terminando sua história com um show como tantos que protagonizou em sua brilhante carreira.

RAONI: UMA BELA ESTREIA APÓS 27 ANOS DE DEDICAÇÃO - 18/07/2018

Como é bom ver um brasileiro estreando no UFC mostrando versatilidade e capacidade de mudar a estratégia tática de uma luta. Foi o que fez Raoni Barcelos em sua estréia contra o duríssimo Kurt Holobaugh no último sábado. Percebendo que o caldo estava engrossando em pé, o filho de Laerte Barcelos não exitou em usar seu wrestling para levar o oponente para o chão e mudar os rumos do combate. Com três quedas espetaculares, Raoni conseguiu surpreender e cansar Kurt com seu ground and pound e acabou finalmente conseguindo encaixar o uppercut, que ensaiava desde o início, nocauteando o americano no 2º round e ainda faturando um merecidíssimo bônus de 50 mil pela Luta da Noite, logo na estreia.

Não haveria maneira mais justa para coroar a estreia, no maior evento do mundo, de um lutador que se dedica desde os quatro anos de idade a ser um lutador completo.

Acompanho Raoni desde os oito anos de idade, quando competiu e venceu o brasileiro de jiu-jítsu de crianças em 1996 com sobras. Muito bom em pé, ele derrubou e finalizou rápido todos os seus oponentes. Para compreender sua superioridade técnica, fui entrevistar seu mestre, o qual descobri ser seu pai, Laerte Barcelos. Orgulhoso, Laerte me revelou que o garoto começou no jiu-jítsu aos quatro e no wrestling aos cinco. Aquela história de dedicação em família chamou minha atenção, tanto que usei a foto do pai levantando o braço do filho campeão em destaque abrindo a reportagem daquela primeira edição da Tatame em formato revista em 1996. Curiosamente, na mesma edição publicávamos a primeira matéria que fiz com Vitor Belfort aos 17 anos. O garoto acabara de se mudar para Los Angeles com o mestre Carlson, que apostava na estreia vitoriosa do Fenômeno no MMA.

Levando em conta que Vitor acabou de declarar sua aposentadoria após 21 anos de carreira, temos uma noção exata do tempo que Raoni dedicou aos treinos para se transformar num lutador completo.

No adulto continuou se destacando no jiu-jítsu, se sagrando campeão mundial nas faixas azul e roxa, até chegar a faixa-preta. No wrestling, não tardou a integrar a seleção brasileira, conquistando o campeonato brasileiro cinco vezes e o sul-americano, duas. Com o chão e a parte de quedas em dia, só faltava adicionar a trocação para começar no MMA. Raoni então passou a treinar na Nova União, e com a ajuda de Pedro Rizzo, Glover Teixeira e André Pederneiras, mostrou enorme facilidade também no aprendizado do kickboxing. Resultado: em menos de um ano recebeu o aval do pai e head coach para estrear no Shooto, aos 25 anos de idade. O garoto gostou tanto, que fez quatro lutas de MMA em 2012 e logo se sagrou campeão do evento. E depois de dois nocautes impressionantes no Web Fight, Raoni foi levado ao evento americano RFA com menos de dois anos de carreira. Em três anos lutando no evento americano, o brasileiro conseguiu o cinturão dos penas ao vencer cinco de seis lutas.

Diante de seu histórico de quase 27 anos dedicados à luta e da excelente estreia, não é nenhuma precipitação dizer que Raoni, com apenas 31 anos, tem tudo para ser uma das maiores promessas do MMA nacional no UFC. Basta não ter pressa e queimar etapas. Até porque o garoto do bairro de Marechal Hermes tem condições de lutar tanto nos galos quanto nos penas.

E vale lembrar que a categoria dos penas é hoje, sem dúvidas, uma das mais difíceis do UFC. Para conseguir chegar ao title shot, o brasileiro teria pela frente nomes do calibre de Chad Mendes (#7), Mirsad Bektic (#8), Zumbi Coreano (#9), Alexander Volkanovski (#11), Jeremy Stephens (#4), Brian Ortega (#1), Frankie Edgar (#3), Zabit Magomedsharipov (#14), além do campeão, Max Holloway, e os compatriotas Renato Moicano (#10) e José Aldo (#2), que além de tudo é seu companheiro de treinos e amigo pessoal.

Já se conseguir que a organização o permita descer para os galos, a chance de chegar às cabeças também existem. De qualquer maneira, vale lembrar que esta é uma divisão encabeçada por TJ Dillashaw (campeão), Cody Garbrandt (#1) e Dominick Cruz (#2). Logo abaixo deles, Raoni teria que passar por um exército de seis brasileiros composto por Raphael Assunção (#3), Marlon Moraes (#4), John Lineker (#6), Pedro Munhoz (#9), Thomas Almeida (#13) e Douglas Silva (#15).

Independentemente da decisão de sua equipe e do UFC, seja nos galos ou penas, o importante é que o MMA brasileiro recebeu, além de um reforço de peso, um exemplo para as novas gerações de que para chegar com autoridade hoje no UFC é importante começar a treinar o quanto antes, sempre buscando a excelência nas três áreas do combate. Quanto mais cedo começar e quanto mais especialidades aprender, mais chances o lutador tem de surpreender o oponente e se destacar no maior evento de MMA do mundo.

CORMIER E A CONSAGRAÇÃO DOS “ROLIÇOS” - 10/07/2018

Desde que nos entendemos por gente, seja assistindo filmes ou jogando em videogames de luta, aprendemos que os mais temidos, sejam heróis ou vilões, têm em comum aquele estereótipo musculoso, alto e com cara de mau. Pois no último sábado o MMA mostrou ao mundo que a realidade pode ser bem diferente. Com sua barriguinha saliente, seus meros 1,80m de altura e um sorriso bonachão, o desafiante Daniel Cormier atropelou o grandalhão Stipe Miocic ainda no 1º round e faturou o cinturão dos pesados do UFC, carimbando seu nome entre os maiores de todos os tempos ao lado de outro roliço, de 1,82m, o russo Fedor Emelianenko, único peso pesado na história a ficar 10 anos invicto.   

Se no futebol Nelson Rodrigues costumava atribuir as grandes surpresas ao “Sobrenatural de Almeida”, no MMA podemos dizer que a imprevisibilidade tem sido regida pela competência tática dos lutadores. Enquanto as casas de apostas davam 65% x 35% em favor de Miocic, apontando Cormier como zebra absoluta, e muitos jornalistas (me incluo neste grupo) já debatiam se seria justo Miocic roubar de Fedor Emelianenko o título de maior peso pesado da história, após vencer Cormier, eis que o atleta da AKA, com sua altura de peso médio e aquela barriguinha saliente, cala o mundo das lutas com uma atuação brilhante.

A hipótese da vitória tática de Cormier era tida como realidade para boa parte dos analistas do esporte, que por todo seu histórico, cogitavam o êxito da tática de impor seu wrestling e usar o ground and pound por cinco rounds, para se consagrar na decisão. O que ninguém esperava é que Cormier levasse vantagem exatamente onde o campeão tinha um dos seus pontos mais fortes, o clinch, definindo a luta com um nocaute no 1º round. Com a vitória, Cormier somou 14 lutas e 14 vitórias entre os pesos pesados e se tornou o 2º lutador a ter dois cinturões do UFC ao mesmo tempo (McGregor foi o primeiro).

Aos 39 anos de idade, DC também entrou no seleto grupo dos maiores da história do UFC, junto com GSP, Anderson Silva, Demetrious Johnson, José Aldo e, de quebra, ainda protegeu o reinado de outro gordinho casca-grossa, o russo Fedor Emelianenko. O fato é que mesmo tendo ficado 10 anos invicto no MMA, Fedor corria o risco real de perder o posto de maior peso pesado de todos os tempos. Pelo menos na opinião de muitos fãs e jornalistas, caso Miocic conseguisse sua 4ª defesa de cinturão vencendo Cormier. Com a vitória sobre Miocic, Cormier se juntou ao russo para mostrar que, pelo menos nos esportes de combate, estética não tem nada a ver com competência.   

As últimas duas lutas de Cormier

Com seu nome carimbado entre os melhores da história do esporte e o emprego de comentarista do UFC na TV americana garantido, Cormier já reiterou que pretende fazer mais duas lutas e cumprir a promessa de se aposentar aos 40 anos. Então quais seriam as melhores opções para o campeão?

Reza a lenda que Jon Jones deverá resolver seus problemas com a USADA e voltar ao octógono até meados de 2019. Se estas previsões otimistas se confirmarem, ninguém duvida que o terceiro combate com seu único algoz no MMA seria a melhor opção para sua luta de aposentadoria.

Antes de enfrentar Jones, porém, Cormier quer naturalmente botar seu cinturão em jogo contra outro lutador que garanta ótimos dividendos com pay-per-view. E neste quesito ninguém supera Brock Lesnar, que já havia acordado com Dana White uma possível volta para o UFC.

Não foi por acaso que o novo campeão já aproveitou a entrevista pós-luta para promover o confronto desafiando o gigante na platéia. E talvez por ainda estar no “modo marmelo”, Lesnar protagonizou uma cena de pastelão em pleno octógono, com um empurrão totalmente fora de compasso, que deixou até o campeão constrangido. Cormier, que sempre foi fã do WWE, não sabia se ria, se retribuía ou tentava contracenar com Brock. Que a vaia dos fãs sirva para Lesnar relembrar que o entretenimento que os públicos do UFC e WWE buscam é totalmente distinto.

Cheguei a comentar em meu Twitter que a luta entre Brock e Cormier seria o main event dos sonhos para o evento de aniversário de 25 anos do UFC em Nova York, em novembro. Ato falho. Lesnar voltou a ser testado pela USADA no dia 3 de julho. Como para voltar a lutar no UFC precisa passar por seis meses de testes, isto significa que ele só poderia voltar ao UFC em janeiro. Já ciente disso, Cormier cogitou abrir a possibilidade de fazer sua próxima luta defendendo seu título nos meio-pesados, inclusive já sugerindo uma lenda que o interessaria: Mauricio Shogun

Os próximos desafios de Adesanya e Borrachinha

Israel Adesanya e Paulo Borrachinha podem ser considerados os outros grandes destaques do final de semana. Fazendo a luta principal do TUF 27 Finale contra o oitavo do ranking, Brad Tavares, o nigeriano sobrou, conquistou sua 14ª vitória em 14 lutas no MMA e mostrou aos céticos que as comparações com Anderson Silva e Jon Jones não são mera tietagem. Ao contrario da luta com Marvin Vettori (sua 2ª no UFC), Israel mostrou um ótimo preparo físico, melhora na defesa de quedas e até se arriscou no chão. Com a vitória, Adesanya deve ganhar um lugar entre os Top 10 de uma das divisões mais disputadas do MMA. O mesmo deve ocorrer com Paulo Borrachinha, que mais uma vez justificou a aposta do UFC, nocauteando Uriah Hall, que estava uma posição a sua frente no ranking, como 10º colocado.

Curiosamente, Adesanya pediu Borrachinha após a luta; já o brasileiro preferiu apostar mais alto, desafiando o 3º do ranking, Chris Weidman, para uma “eliminatória pelo cinturão”. Sinceramente, não acredito que o UFC queime dois atletas, com tanto potencial de marketing e renovação da categoria, os colocando para se enfrentarem neste momento, como pediu o nigeriano. Já o pedido do brasileiro (enfrentar Weidman) poderia fazer sentido caso o UFC confirme Jacaré (#5) x David Branch (#6) para outubro, uma vez que o campeão Whittaker já foi confirmado como treinador da próxima edição do TUF (28) contra Kelvin Gastelum, que lutará pela cinta após o programa.

A única certeza é que tanto Borrachinha quanto Adesanya, a partir de agora, serão testados de verdade em seus pontos teoricamente mais fracos: wrestling defensivo e jogo de solo. Afinal de contas, olhando para cima no ranking, as opções são: Yoel Romero, David Branch, Ronaldo Jacaré, Luke Rockhold e Derek Brunson.

A LUTA QUE VALE UM POSTO NO PANTEÃO DO MMA E A CONCUSSÃO DE HOLLOWAY - 05/07/2018

Eventos numerados do UFC costumam ter aquele ingrediente a mais para atrair os fãs, normalmente com um ou mais cinturões em disputa. Pelo menos este era o plano inicial para o UFC 226, neste sábado, em Las Vegas. Um card fechado com todo carinho para abrilhantar a International Fight Week. Miocic e Holloway colocando seus cinturões em jogo contra Cormier e Ortega, respectivamente. Para completar lutas de tirar o fôlego como Francis Ngannou x Derrick Lewis, Anthony Pettis x Michael Chiesa, e ainda três brasileiros abrindo o show, Paulo Borrachinha (contra Uriah Hall), Gilbert Burns (Dan Hooker) e Raphael Assunção (Rob Font).

Misturando a ansiedade para assistir esta penca de grandes lutas, sábado, com a da Copa do Mundo na sexta, onde o Brasil enfrenta a Bélgica nas quartas de final, e está pronta a “fórmula mágica da ansiedade”. Um prato cheio para uma noite de quarta para quinta mal dormida. E foi no meio da madrugada, passeando insone pelo meu Twitter, que vi o jornalista Ariel Helwani soltar a informação de que Max Holloway não colocaria mais seu cinturão em jogo contra Brian Ortega, por conta de uma concussão sofrida nos treinos.

Como todo fã torci inicialmente para que a notícia não se confirmasse. Entrei no pesadelo de Mick Maynard tentando casar Zabit, Aldo, Stephens, Chad Mendes (todos em camp) contra o desafiante, mas tendo em vista a proximidade da luta desencanei (não bateriam o peso) e acabei pegando no sono. E nada melhor que uma noite bem dormida para nos fazer ver o copo pelo lado cheio.

Confesso que, cobrindo este esporte desde os tempos do Vale-Tudo, não imaginava ver uma luta tão importante ser cancelada por uma decisão médica, tomada única e exclusivamente para preservar a saúde de um atleta. Ponto para o esporte.

Mesmo com três cinturões em jogo, confesso que não trocaria um ingresso do UFC 226 por um do 227. Principalmente pelo peso desta luta de Stipe Miocic x Daniel Cormier. Um confronto que valerá muito mais do que um cinturão, definirá mais um integrante do luxuoso panteão dos melhores da história do evento ao lado de Anderson Silva, GSP, Jon Jones, José Aldo e Demetrious Johnson.

De um lado, o recordista em defesas na categoria, Stipe Miocic, do outro, o campeão dos meio-pesados, Daniel Cormier, que tentará ser o primeiro lutador a ter o cinturão dos meio-pesados e pesados ao mesmo tempo. Depois de limpar a divisão nocauteando em sequência Mark Hunt, Andrei Arlovski, Fabricio Werdum, Alistair Overeem e Junior Cigano, Miocic acabou de vez com a chamada maldição dos pesados (nunca um peso-pesado defendeu o cinturão por mais de duas vezes no UFC) ao vencer o temido Francis Ngannou, em janeiro de 2018, numa guerra de cinco rounds. Depois de vencer todos os melhores ranqueados, Miocic aceitou ser treinador do TUF 27, ao lado do campeão dos meio-pesados, Daniel Cormier. Como de praxe, ficou acordado que colocaria seu cinturão em jogo contra o campeão da divisão de baixo.

Teoricamente, Miocic não teria muito a ganhar, mas vale lembrar que  antes de se consagrar entre os meio-pesados, DC começou a lutar MMA entre os pesados, onde enfileirou 13 oponentes e nunca perdeu. Cormier venceu nomes como Frank Mir, Roy Nelson, Josh Barnett e Antônio Pezão, e só decidiu descer de categoria para não lutar com o companheiro de equipe na AKA Cain Velásquez. Entre os meio-pesados, DC também mostrou sua força enfileirando Anthony Johnson (duas vezes), Dan Henderson, Anderson Silva, Alexander Gustafsson e Volkan Oezdemir. A única pedra no sapato de Cormier, como todos sabem, é o maior de todos os tempos: Jon Jones. Como perder para Jones não é demérito para ninguém, DC tem currículo e história suficientes para fazer esta luta valer o ingresso.

Ciente do excelente nível físico e técnico de um wrestler que já ficou em 4º lugar nas Olimpíadas, Miocic chega para esta luta, segundo seu próprio treinador, em melhor forma que na anterior (contra Ngannou). O campeão sabe que, apesar da vantagem de 13 centímetros, não terá vida fácil. Cormier já mostrou, arremessando oponentes bem mais pesados, como Josh Barnett e Roy Nelson, que tamanho não é problema para ele. Poder de nocaute também não lhe assusta, como mostrou em suas duas lutas contra Anthony Johnson e na última contra Volkan Oezdemir.

Apesar de não ser um wrestler tão condecorado quanto DC, Miocic já foi da primeira divisão nacional nos EUA e mostrou que combina seu bom wrestling defensivo com muita habilidade na movimentação de pernas acima da média para a divisão, boxeando bem tanto andando para frente quanto para trás. Caso consiga derrubar, dificilmente DC conseguirá manter o oponente no solo e definir a luta no ground and pound. A melhor opção para Cormier é usar sua velocidade e movimentação de cabeça, que costuma confundir strikers, para encurtar e buscar a luta na grade. E o atleta da AKA já provou que faz isso muito bem contra oponentes com maior envergadura que Miocic, como Gustafsson e Jones.

Curiosamente, o diferencial de Stipe nesta luta pode ser exatamente o fato de seus golpes atingirem maior poder de nocaute quando conectados na curta distância, o que se torna especialmente perigoso para DC pelo fato de o descendentes de croatas ter uma habilidade especial para acertar queixos quando contragolpeia andando para trás, como vimos ele fazer com Werdum em Curitiba.

O fato é que, se vencer, Miocic bate mais um recorde e confirma o posto de maior pesado da história do UFC, passando a rivalizar com a história de Fedor Emelianenko, considerado o maior peso pesado de todos os tempos. Já Cormier, se conseguir vencer Miocic, definitivamente pode se aposentar aos 40 anos, como prometeu, certo de que também terá seu lugar assegurado no panteão dos maiores do esporte. Quem sabe lá ele finalmente se entenda com Jon Jones.     

A concussão de Wanderlei a duas horas da vitória sobre Arona

Obviamente os fãs ansiosos em assistirem este grande clássico entre dois ícones da nova geração dos pesos-penas não ficaram felizes com a decisão médica de tirar Holloway da disputa com Ortega, mas para aqueles que torcem pela evolução do esporte, esta foi uma decisão a ser comemorada. Afinal, Holloway já vinha dando sinais de ter sofrido uma concussão em entrevistas ao ponto de sua equipe avisar sobre o fato ao evento. Episódios como este mostram que o esporte está chegando num patamar de profissionalismo no qual a saúde do atleta está acima de qualquer interesse e isso não tem preço para uma modalidade tão nova como o MMA.

Vale lembrar que até bem pouco tempo, na era Pride (entre 1997 e 2007), nem se usava o termo concussão, até porque era natural que os atletas fizessem sparring sem proteção quase todos os dias da semana. Em meu livro “Por Trás do Octógono” revelei uma história curiosa que sempre foi um segredo guardado a sete chaves pela equipe Chute Boxe, ocorrido no dia 31 de dezembro de 2005, no Pride Shockwave.

Naquela noite, Wanderlei Silva teria a oportunidade de devolver a derrota que sofrera quatro meses antes para o arquirrival Ricardo Arona na semifinal do Pride GP dos meio-pesados. Graças à rivalidade entre Chute Boxe e BTT, esta era considerada por muitos como a luta mais importante da história da equipe, afinal, se Wanderlei perdesse novamente, entregaria seu cinturão e o título de Mr. Pride para o maior rival. O clima no vestiário era de tensão total. Dividindo o vestiário com a equipe Chute Boxe, estava o bad boy Charles Bennett, vulgo Krazy Horse, que na primeira luta da noite havia vencido o discípulo de Sakuraba, Ken Kaneco. Em atitude de flagrante desrespeito, o peso-leve americano gritava efusivamente, atrapalhando a concentração dos outros que ainda lutariam.

Como a equipe de filmagem do Pride estava no vestiário, acompanhando o aquecimento de Wanderlei, os líderes da equipe, Rudimar e Rafael, perceberam que seria uma boa oportunidade para colocar mais um atleta no Pride. Incentivado pelos mestres, Cristiano Marcello, treinador de jiu-jítsu da equipe, e que ajudara Sakuraba e Kaneco na preparação no camp dos japoneses em Curitiba, aproveitou a barulheira do americano e iniciou uma discussão. O clima esquentou e o pessoal da produção imediatamente ligou a câmera. Um vídeo que hoje pode ser visto no Youtube, e termina com o brasileiro apagando Krazy Horse com um triângulo. A filmagem termina com o americano sendo acordado pelo líder da Chute Boxe, Rudimar Fedrigo, com Wanderlei ao seu lado.

Mas, na verdade, este vídeo foi editado. A história não havia acabado aí. Ao recobrar a consciência, Bennett levanta e decide acertar um cruzado no queixo de Wanderlei Silva, que o chutava pedindo que levantasse e fosse para o seu lugar. O cruzado do peso leve pegou no interruptor e nocauteou o protagonista da luta principal da noite a menos de duas horas da luta mais importante de sua vida. Enquanto membros da equipe “pediam delicadamente” que os funcionários do Pride apagassem o vídeo, o que seria fundamental para que esta história permanecesse em segredo por 12 anos, Wanderlei recobrou a consciência sem saber ao certo o que havia acontecido.

Em tempos em que a concussão “era coisa de Nutella” e a rivalidade raiz estava acima de tudo, nem se cogitou o cancelamento da luta. Os mestres Rafael Cordeiro e Rudimar explicaram tudo o que havia ocorrido para um, ainda grogue, Wanderlei. E conhecendo seu psicológico diferenciado, sabiam que aquele acidente só serviria para atiçar ainda mais o Cachorro Louco. Dito e feito. Menos de duas horas depois, Wanderlei subiu no ringue e venceu a revanche contra Arona em mais uma guerra de 20 minutos.

Uma história que poderia ter acabado mal para o curitibano e que certamente não ocorreria no estágio atual do esporte. O fato é que quando o UFC opta por acatar uma decisão médica, cancelando o co-main event que valia cinturão, no show mais importante do ano, dá um exemplo para muitos outros esportes profissionais.

A IMPORTANCIA DE CONTAR A HISTÓRIA DE RORION NOS CINEMAS - 30/06/2018

Depois de "Mais forte que o mundo - a história de José Aldo", outro brasileiro terá sua trajetória vitoriosa mostrada nos cinemas: Rorion Gracie, filho mais velho de Hélio Gracie e criador do UFC. Ao ver a notícia nas mídias sociais, mandei um e-mail para Rorion, que me confirmou no dia seguinte: “É oficial! Conseguimos, campeão! Estou muito feliz que esta historia será contada, pois além de mais uma homenagem aos grandes Mestres Carlos e Hélio Gracie, é uma lembrança de que, com visão e persistência, nada é impossível!". O projeto é financiado pela IMG – empresa que comprou o UFC da Zuffa – e pela Mandalay Sports Media (MSM).

O filme chega num ótimo momento, pois certamente ajudará a esclarecer pontos históricos importantes. O fato é que desde que Rorion vendeu sua parte no UFC, em 1995, para Semaphore Entertainment Group (SEG), que promoveu o evento até 2000, quando o show foi comprado pela Zuffa (de Dana White e os irmãos Fertitta), sua participação na história da criação do UFC foi diminuindo aos olhos de fãs e até da mídia. Mês passado, após Art Davie ser indicado ao Hall da Fama, vi jornalistas em mídias sociais e fãs em fóruns americanos afirmando que o brasileiro seria uma espécie de coadjuvante na criação do UFC. Definitivamente, este filme colocará os pingos nos is.

AFINAL QUEM É O PAI DO UFC?

Sem dúvida alguma, Art Davie é um personagem fundamental na criação do UFC e merece todas as honrarias, bem como a justíssima indicação para o Hall da Fama. Mas comparar a importância destes dois personagens chega a ser uma desonestidade intelectual. O UFC 1 nada mais é que o resultado final de uma longa saga iniciada pelos irmãos Carlos e Hélio Gracie nos anos 20. Criadores e idealizadores da maior dinastia de lutadores que se tem noticia, os irmãos Gracie transformaram o jiu-jítsu que lhes foi ensinado pelo japonês Mitsuyo Maeda em filosofia de vida e passaram a ter como maior objetivo de vida perpetuar a demonstrar a eficiência daquela arte. Rorion foi o único membro em 3 gerações da família que conseguiu perceber que era chegada a hora de levar a história e filosofia Gracie para uma plataforma de marketing global e não poderia haver lugar melhor para isso que Hollywood, em Los Angeles.

O filme deve mostrar a saga do brasileiro, ressaltando, principalmente, seus 15 anos de batalha até conseguir emplacar o show (1978 a 1993). A história é riquíssima. Estou curioso para ver o que será cortado pelo roteirista para encaixá-la em formato de um longa metragem.

Recém-formado em direito e com duas filhas, Rorion abandonou o diploma e a família e literalmente arregaçou as mangas em busca de seu objetivo em Los Angeles. Antes de começar a dar aulas, fritou hambúrgueres, pintou paredes e fez muitas faxinas. Numa destas faxinas, Rorion conheceu um produtor de Hollywood que gostou de seu tipo latino e o levou para fazer participações em filmes e séries.

Com o básico garantido com bicos, Rorion começou a dar aulas de jiu-jítsu num tatame em sua garagem. Para atrair alunos, usava o mesmo expediente que seu tio (Carlos) e seu pai (Hélio) nos jornais brasileiros na época em que se mudaram de Belém para o Rio nos anos 20: colocar anúncios em jornais convidando lutadores de qualquer modalidade para testarem o Gracie Jiu-Jitsu. Gigantes do basquete, wrestling, karatê e diversas outras modalidades esportivas apareciam para se testar e acabavam dando os três tapinhas e virando alunos. O marketing boca a boca foi aumentando a lista de inscritos nas aulas.

Foi quando Rorion teve a ideia de filmar os desafios e fazer uma fita com lutas compiladas a qual denominou “Gracie Jiu-Jitsu in Action”. Neste vídeo, juntou seus desafios com oponentes de diversas modalidades nos EUA, com lutas reais que aconteciam naquela época no Brasil, como Rickson x Zulu 1 e 2, Rickson x Hugo na praia do Pepê, os 3 desafios do Maracanãzinho (Jiu-Jitsu x Muay Thai) e os 3 do Grajaú (Jiu-Jitsu x Luta Livre). Na abertura do vídeo, uma narração em off com a voz de Rorion resumindo a história de 70 anos de luta de sua família no Brasil, enquanto um leão persegue uma gazela na savana africana até derrubá-la e pegar seu pescoço. Ou seja, antes de assistir dezenas de desafios reais definidos pelo jiu-jítsu no chão, o espectador já tinha em mente a ideia de que uma luta de verdade se vence no chão, fixada por um excelente marqueteiro, o próprio rei das selvas. As vendas da “Gracie Jiu-Jitsu in Action” numa revista de artes marciais ajudaram Rorion a complementar sua renda e atraíram a atenção de figurões de Hollywood. Resultado: de figurante, o Gracie passou a coreografar filmes de luta, como “Máquina Mortífera” e filmes de Chuck Norris. 

Graças a toda esta projeção, já em 1989 conseguiu chegar ao conhecido jornalista Pat Jordan, que publicou uma matéria na badalada revista Playboy contando a história de Rorion e sua família e revelando que o brasileiro oferecia US$ 100 mil, dinheiro que ele não tinha, para quem conseguisse vencê-lo numa luta sem regras. Aquela reportagem catapultou o nome Gracie para um outro patamar. E foi este público qualificado que acabou aumentando de 20 para 150 a lista de espera para aulas em sua garagem, encorajando-o a abrir sua primeira academia. Um destes novos alunos era um marqueteiro que havia lido a matéria na Playboy e decidiu conhecer a arte daquele brasileiro, Art Davie. Ou seja, Davie entra na história em outubro de 1989.

A partir deste ponto os dois desenvolvem uma grande amizade. Percebendo o enorme potencial de venda do “Gracie in Action”, Davie sugere a Rorion uma reunião em Nova York com um especialista em eventos pay-per-view, Bob Meyrowitz. Na reunião, o empresário se encantou com a ideia de um “Mortal Kombat” de verdade, com lutadores de vários estilos se enfrentando, e deu “ok” para colocarem o show no ar. Só deixou claro que não bancaria a produção.

De volta a Los Angeles, Rorion reuniu 95 alunos em sua academia, explicou a situação e, literalmente, rodou a sacolinha, arrecadando quase US$ 200 mil. Entre os alunos que abriram a carteira estava o badalado diretor de cinema John Milius (de “Conan, o Bárbaro” e “Apocalypse Now”), que sugeriu a ideia do octógono, exatamente para evitar que os lutadores pudessem fugir pelas cordas como nos ringues. 

Tudo definido, dinheiro levantado, Art Davie arregaçou as mangas na busca de lutadores de várias modalidades enquanto Rorion surpreendeu a todos com uma aposta arriscada, mas que teria um peso enorme no resultado final. Num momento em que seu irmão Rickson estava no ápice de sua carreira, sendo disparado o nº1 da família, o filho mais velho de Hélio Gracie convida Royce, bem mais franzino e que não estava nem entre os 5 melhores lutadores na hierarquia da família para representar o Gracie Jiu Jitsu. Sua justificativa: Rickson era muito forte fisicamente e a vitória da técnica do jiu-jítsu, o mais importante objetivo daquele torneio, acabaria ficando em segundo plano.

A decisão na época gerou grita até dentro da família, mas a história mostrou que Rorion mais uma vez acertou em cheio. Mesmo sendo o menor do torneio, Royce precisou de menos de 5 minutos para finalizar seus três oponentes e faturar os 50 mil dólares de prêmio. Esperava-se inicialmente uma venda de 40 mil pacotes de pay-per-view no UFC 1, mas foram vendidos 86 mil. Mas apesar de ter superado todas as expectativas com a arrecadação de 1,3 milhão de dólares, a maior emoção de Rorion na noite deste UFC 1 foi poder entregar um troféu no centro do octógono ao seu pai, Hélio, que, junto com seu tio Carlos, havia começado toda aquela história há mais de 80 anos.

O impacto gerado pelas 11 vitórias de Royce nos UFC´s 1,2 e 4 é considerado até hoje a maior revolução das artes marciais. Nada melhor que um livro ou um filme para reestabelecer a importância de cada personagem numa história tão complexa e rica.

Da mesma maneira que o mundo das lutas tem que reconhecer a importância de Dana White como o homem que transformou um desafio entre estilos no esporte que mais cresce no mundo, tendo transformado um show falido comprado em 2000 por 2 milhões de dólares num evento de sucesso vendido em 2016 por 4.2 bilhões, há de se reconhecer também que, sem Rorion Gracie, esta história nem teria começado. E nada melhor que Hollywood para botar os pingos nos is.

5 LIÇÕES DA COPA PARA O MMA (E VICE-VERSA)

Chegamos à terceira semana do maior evento esportivo do planeta. E, ao que tudo indica, esta 21ª Copa do Mundo, na Rússia, tem tudo para ser uma das mais competitivas destes 88 anos em que o evento é realizado. Como o país do futebol é também o país do MMA, no ano em que a Copa do Mundo das lutas completa 25 primaveras, listei cinco lições que podemos aprender com o primo mais velho.

1. A tecnologia é bem-vinda

Nem Cristiano Ronaldo, nem Messi, nem Neymar. Após três semanas de Copa do Mundo, quem está roubando a cena na Rússia é o VAR (video assistant referee). E apesar da resistência dos puristas, não há como negar os benefícios gigantes dos árbitros de vídeos. Se no UFC o recurso já vinha sendo usado por diversas comissões atléticas, desde 2016, e trazendo ótimos resultados, o mesmo tem que ser dito deste primeiro teste na Copa do Mundo da Rússia. Salvo raras exceções, a tecnologia ajudou muito aos árbitros. A influência positiva nesta Copa é tão grande que já começa a ficar difícil imaginar o esporte sem ele.

E me refiro não só ao futebol. Curiosamente, senti isso na pele no último sábado, quando comentava ao vivo no Combate a 2ª edição do evento de Kickboxing SKAUS, organizado por José Aldo e Emerson Falcão. Na luta co-principal do evento, um atleta foi nocauteado com uma joelhada legal, mas simulou que o golpe teria sido nos “países baixos”. Decisão dificílima de ser tomada pelo juiz no ângulo em que estava. E a maior prova disso é que eu e meu colega narrador, André Azevedo, só tivemos certeza do que havia acontecido na reprise, e em câmera lenta, quando o golpe se mostrou absolutamente legal, o que obviamente acarretaria o fim da luta por nocaute. Mas infelizmente nas regras do kickboxing o juiz ainda não pode usar o recurso de vídeo e a luta continuou, provocando a revolta da torcida e do próprio promotor do evento, José Aldo, um conhecido aficionado por futebol que não perde um jogo da Copa. Para sorte do juiz, o atleta prejudicado acabou vencendo por pontos, mas poderia ter se desconcentrado e até perdido por nocaute.

Mario Yamasaki uma vez me confessou que há muito tempo, de maneira não oficial, ele e outros juízes do UFC já aguardavam a reprise do telão para tirar dúvidas. Para o bem do esporte, a utilização oficial do equipamento de vídeo foi autorizada no final de 2016. Infelizmente não são todas as comissões que seguem as chamadas regras novas, mas certamente esta Copa do Mundo de futebol, e lutas como Mousasi x Weidman e Poirier x Alvarez  - definidas após o árbitro usar o recurso do replay - exercerão uma pressão positiva para que o MMA, assim como o futebol, evolua no sentido de evitar ao máximo as injustiças.

2. A importância da tática

Outra semelhança curiosa entre campos e octógonos, que esta Copa do Mundo tem mostrado, é o crescimento da performance dos pequenos. Com a melhoria nos métodos de preparação física, cada vez mais a inteligência dos treinadores está fazendo a diferença, permitindo, por intermédio do esquema tático, que muitas vezes “times pequenos” surpreendam os favoritos. Quem diria que equipes sem tradição como Islândia, Austrália e Costa Rica dariam tanto trabalho para gigantes do esporte como Argentina, França e Brasil.

No MMA também tem sido cada vez mais comum ver treinadores complicando favoritos com esquemas táticos bem montados. Está aí o exemplo de Rafael dos Anjos e Colby Covington. O brasileiro era considerado mais completo em pé, no chão e ainda tinha um bom wrestling defensivo, o que teoricamente impediria as quedas de Colby e o obrigaria a lutar em pé. Como vimos na prática, não foi bem o que aconteceu.

O fato é que a evolução de ambos os esportes têm mostrado cada vez mais que a tática e uma boa preparação física podem fazer a diferença. Apesar de talento e a criatividade continuarem sendo o fiel da balança.        

3. Concussões

Este é um problema que causa muita preocupação a ambas as modalidades. Não é à toa que os árbitros da Copa foram orientados pela FIFA a pararem a partida por até três minutos em casos de concussões. Só nas duas primeiras semanas de Copa foram dois casos: um marroquino e um peruano. No caso do peruano Jefferson Farfán, o jogador não lembrava sequer onde estava. Seguindo o protocolo da FIFA, ele foi afastado dos treinos por sete dias. No UFC, todos os atletas com suspeita de concussão em seus combates passam por uma bateria de exames no cérebro e recebem uma suspensão definida pelas comissões atléticas de acordo com o resultado do exame.

A Encefalopatia Traumática Crônica (ETC) é uma doença que preocupa não só ao futebol e ao MMA, mas a todos os esportes onde ocorrem choques na região da cabeça, como o boxe, futebol americano e automobilismo. Graças a estudos iniciados a partir do cérebro de jogadores de futebol americano e boxe, pesquisadores descobriram que, ao contrário do que se imaginava, eles não haviam morrido em consequência de Alzheimer ou demência pugilística. Eram na realidade vítimas da ETC. Estas descobertas nos EUA motivaram um médico da USP a pedir autorização à família de Luís Bellini para estudar o cérebro do capitão da primeira seleção brasileira campeã na Copa do Mundo de futebol (em 1958, na Suécia), que havia falecido em 2014 aos 83 anos com diagnóstico inicial de Alzheimer. Mais um caso confirmado de ETC.

Não é a toa que, mesmo sendo o MMA um esporte relativamente novo, cuja primeira geração acaba de se aposentar, o UFC tem investido pesado em estudos sobre a doença. No ano passado, destinou 1 milhão de dólares para a pesquisa. Entidades do Boxe e do Futebol Americano têm feito o mesmo.

Que iniciativas como esta sejam seguidas por todas as modalidades, cujos choques são inerentes a sua natureza. Afinal de contas, a ciência é a melhor maneira de combater a ETC, garantindo um futuro saudável aos esportistas, que são os protagonistas do show.    

4. Antagonismo faz parte do jogo

Na entrada dos jogadores em campo, quando as duas seleções ficam perfiladas lado a lado no túnel que dá acesso ao campo, não pude deixar de observar a maneira fria que se tratam. Mesmo em casos como Portugal e Espanha, onde jogadores de ambos os lados jogam juntos no mesmo clube, ali lado a lado, no máximo trocam um cumprimento ou um aceno.

Achei curioso observar isso diante de alguns excessos de demonstração de carinho ocorridos ultimamente no UFC. Deixando bem claro que não estou aqui fazendo uma ode aos trash talkers. Acho muito legal o fair play e o respeito marcial entre os lutadores, mas tudo tem sua hora. No momento do combate e nas pesagens, o antagonismo é um ingrediente importante para o fã que, afinal, está ali para ver dois atletas buscando a todo custo uma vitória por nocaute ou finalização.

Mesmo não tendo uma natureza tão “antagônica” quanto o MMA, o futebol tem nos mostrado que é importante, sim, um clima de disputa. Não é à toa que no MMA excessos de afagos e até abraços no início de rounds, como vimos entre Yancy Medeiros e Donald Cerrone ou Darren Till e Stephen Thompson, chegam a ser vaiados na arena. Obviamente existem casos extremos onde amigos ou companheiros de treino acabam tendo que lutar, mas vale a mensagem dos primos mais velhos dos campos.

5. De Vira-Latas a Pitbulls raivosos

Em 1950, quando o Brasil não tinha nenhum título mundial e perdeu a final da Copa para o Uruguai em pleno Maracanã, o genial Nelson Rodrigues cunhou pela primeira vez a expressão complexo de Vira-Latas para definir a baixa autoestima do nosso povo, tão acostumado com placares adversos. Se tivesse a possibilidade de reviver 68 anos depois daquela fatídica derrota, Nelson certamente teria uma surpresa: os vira-latas se transformaram em Pitbulls ferozes. Não só no futebol, mas no MMA também.

O fato é que, se em 50 não tínhamos nenhum caneco, hoje o Brasil é a maior potência do futebol, único país com cinco títulos mundiais. O lado ruim de se ter um currículo desses é que nossa torcida desaprendeu que ganhar e perder fazem parte do jogo e passou a reagir com agressividade crescente contra os ídolos em casos de resultados adversos. Situação semelhante acontece no MMA, esporte criado por nós e que durante muito tempo teve o Brasil como maior potência, mas hoje é dominado pelos EUA.      

Me atentei ao fato após a derrota de Rafael dos Anjos para Colby Covington na disputa do cinturão interino dos meio-médios do UFC, há três semanas. “Amarelão”, “Se aposenta”, “Você devia ter vergonha de carregar a bandeira do Brasil” foram alguns dos posts mais leves dos pitbulls das mídias sociais. Nem parecia que a luta tinha ido para a decisão e que o brasileiro havia sido neutralizado por uma tática de anti-jogo do americano. Anderson Silva, José Aldo, Junior dos Santos e Renan Barão já haviam passado por situação semelhante quando perderam seus cinturões, passando de heróis venerados a vilões odiados da noite para o dia.

Duas semanas depois da derrota de Dos Anjos, quando o Brasil empatou com a Suíça na estreia da copa, foi a vez de Neymar sentir a ira dos cães raivosos da internet. Uma pressão absolutamente desproporcional, ainda mais levando em conta que o jogador estava fazendo sua primeira partida completa após 90 dias fora de combate, se recuperando de uma operação no tornozelo. Só Deus sabe à base de quantos anti-inflamatórios estava para conseguir se recuperar em tempo recorde e realizar seu sonho (e nosso) de conquistar a sexta copa para o país.

Longe de sua melhor forma e ciente de toda sua responsabilidade, Neymar voltou a mostrar descontrole no segundo jogo, xingou juiz, adversários, levou cartão amarelo e, por muito pouco, não foi expulso. No último minuto, finalmente conseguiu desencantar marcando um gol, desabando em prantos no final da partida contra a Costa Rica. Após o jogo, mesmo tendo feito o gol, Neymar voltou a ser atacado nas mídias sociais. Ronaldo Fenômeno, que também sentiu pressão semelhante na copa de 1998, tanto que chegou a ter uma convulsão antes da final, entrou em campo e passou os últimos dias aconselhando o camisa 10 da seleção a tentar se desconectar das pressões negativas das mídias sociais e fazer o que sabe.

Nós latinos sabemos como ninguém que paixões não combinam com pragmatismo e bom senso. Faz parte do nosso DNA de torcedores querer vencer a qualquer custo, mas há que se ter um mínimo de razoabilidade.

O futebol foi criado pelos ingleses (que só têm um título mundial), mas a principal potência da modalidade é indiscutivelmente o Brasil, país que conquistou 1/4 das 20 Copas do Mundo. Já no MMA, nós que criamos o esporte, fizemos 13 campeões do UFC em 25 anos e dominamos a Era Pride, apesar de hoje os americanos serem indiscutivelmente a maior potência. É sabido que hoje vivemos uma entressafra motivada pela grave crise econômica do país, e mesmo assim temos dois cinturões femininos e brasileiros entre os tops de todas as divisões.

Se fizermos um paralelo com o futebol, onde o Brasil passou por uma entressafra de 24 anos sem conquistar uma copa (curiosamente o tempo de existência do UFC), até chegarmos ao penta com a geração de Romário (94) e Ronaldo (2002), fica claro que o cenário no MMA deverá mudar assim que nossa economia voltar aos trilhos e voltarmos a ter eventos e equipes fortes.  

O fato é que o Brasil é hoje uma potência em ambos os esportes e, independente de crises e entressafras, se manterá por muito tempo entre os maiores celeiros produtores de jogadores e lutadores. Diante disso é passada a hora de a nossa torcida entender que não somos mais vira-latas nem muito menos pitbulls. Temos que aprender a torcer de verdade canalizando energia positiva para apoiar nossos guerreiros nos campos e octógonos e, em caso de derrota, entender que assim como no jogo da vida, não dá pra se ganhar sempre.

MINOTAURO, O DOCUMENTÁRIO - 20/06/2018

Atropelado por um caminhão, o garoto de 11 anos tem o pulmão perfurado pelas costelas levando a um quadro de hemorragia interna. Após alguns dias em coma, o menino, que também teve parte da perna dilacerada, se recupera e surpreende os médicos ao voltar a andar normalmente. Praticando judô, boxe e jiu-jítsu, ele descobre sua vocação para as artes marciais e acaba se transformando em campeão mundial peso-pesado de MMA em quatro organizações diferentes (WEF, Rings, PRIDE e UFC). Isso tudo, tendo que superar adversidades decorrentes de um total de 22 cirurgias pelo corpo em seus 16 anos de carreira. Definitivamente a história de Rodrigo Minotauro Nogueira é um roteiro de filme, que certamente faria o “Rocky Balboa” de Sylvester Stallone parecer um garoto mimado. Não é à toa que o diretor Fernando Serzedelo, assim que conheceu Rodrigo em 2007, tentou convencê-lo a levar seu relato para as telonas. Mas Minotauro preferiu as tintas reais de um documentário. O resultado, o Canal Combate tem mostrado em sua programação, desde a semana passada.

Produzido pela produtora Hungry Man, de Serzedelo, em parceria com o Combate e o UFC, o documentário de 70 minutos traz para o público a história deste grande ídolo do MMA nacional. De relatos familiares exclusivos, como seu pai chorando ao reler uma carta que Rogério manda ao irmão gêmeo quando este acorda do coma no hospital, passando por seu surgimento no cenário do Vale-Tudo, num momento em que a autoestima do jiu-jítsu vinha em baixa após as vitórias dos grandalhões do wrestling; até chegar a vários momentos marcantes da carreira do baiano, como as lutas contra Bob Sapp, Coleman, Cro Cop e Randy Couture.

O filme mostra ainda Rodrigo revelando pela primeira vez publicamente um segredo que só os mais próximos sabiam: lutou cego do olho direito por toda a carreira devido a uma tesourada dada pelo irmão numa brincadeira durante a infância.

Além de familiares, parceiros de treino e oponentes, o documentário traz depoimentos marcantes de Big John McCarthy e Glória Maria relembrando sua cobertura do Pride em 2003, que iniciou a virada do esporte no Brasil. Outro ponto alto do filme são os bastidores da recuperação emergencial para participar da estreia do UFC no Rio e sua inesperada vitória sobre Brendan Schaub.

Documentário imperdível. Sendo fã de MMA ou não, é difícil não se emocionar com o exemplo de superação deste grande ícone do esporte brasileiro.    

Robocop Baiano

Foi cobrindo um brasileiro de jiu-jítsu na Ilha do Governador em 1998, tempos em que o pódio era dominado por equipes cariocas, que estranhei quando vi aquele baiano sendo campeão na faixa-marrom entre os super pesados. Afinal, como um estado sem nenhuma tradição no jiu-jítsu poderia fazer um campeão, ainda mais vencendo na final um atleta da Carlson Gracie, a maior potência do esporte na época? Aproveitei um evento de Vale-Tudo em Salvador, no mês seguinte, para buscar a resposta pessoalmente. Liguei para o Guilherme Assad (aluno de De La Riva) e fui à sua academia entrevistar seu aluno, o primeira campeão brasileiro baiano, Rodrigo Minotauro. Após algumas fotos na academia, partimos para tomar um açaí na beira da praia. A entrevista já estava quase terminando, sem nenhuma informação especial que justificasse algum espaço além de uma nota em minha coluna (cervical), quando naqueles 40 graus do verão de Salvador, Rodrigo resolveu tirar a camisa, deixando à mostra as marcas horríveis do atropelamento que sofreu na infância. Neste dia aprendi que assim como o lutador, o jornalista também tem que contar com a sorte. Com mais meia hora de papo a nota cresceu e virou uma reportagem de página dupla intitulada “O Robocop Baiano”. Mesmo tendo me garantido que ainda “não era a hora de lutar Vale-Tudo”, Minotauro me inspirou com sua história a apostar alto: “Torcemos para que a hora chegue logo, pois, até agora Rodrigo mostrou todos os quesitos para ser campeão também no Vale-Tudo: tem um bom boxe, espírito guerreiro, boa guarda e, o principal, estrela. Ao que tudo indica está chegando a hora de Minotauro retribuir nos ringues o que fizeram com ele na infância, e passar com o caminhão em cima dos oponentes”.

E Rodrigo foi muito além da previsão otimista com a qual terminei aquela reportagem na Tatame #39, me proporcionando algumas das minhas maiores satisfações profissionais ao acompanhá-lo de perto em suas maiores conquistas.

Dois anos depois daquele açaí em Salvador, fui a Rome, nos Estados Unidos, vê-lo conquistar seu primeiro cinturão, no WEF, vencendo Jeremy Horn. Três anos depois, Minotauro venceria cinco oponentes e conquistaria o torneio de pesos-pesados mais disputado da época, o RINGS KOK, carimbando seu passaporte para o PRIDE. No maior evento do mundo, Minotauro conquistaria o cinturão dos pesos-pesados em 2001, após enfileirar Gary Goodridge, Mark Coleman e Heath Herring. Depois de sete anos no Pride, onde travou combates antológicos com Fedor, Bob Sapp, Henderson, Cro Cop e tantos outros, Rodrigo migrou para o UFC, onde se consagrou campeão entre os pesados, conquistando seu quarto título.

Não canso de dizer que uma das minhas maiores frustrações profissionais foi não poder compartilhar com mais brasileiros (além dos fãs de luta) o que vi Rodrigo Minotauro e Wanderlei Silva fazendo no Japão entre 2000 e 2007. Realmente uma pena que no auge da carreira destes dois ícones houvesse um preconceito tão grande por parte da grande mídia com relação ao MMA. Enquanto esta dupla levantava estádios com 100 mil japoneses para ouvir o hino brasileiro, os jornais daqui não davam nem nota de rodapé sobre os nocautes de Wanderlei e as finalizações de Minotauro. Como disse no documentário e não canso de repetir, a diferença de Minotauro e Wanderlei para os maiores ídolos do esporte brasileiro (como Guga, Ayrton Senna, Popó e Romário) é a transmissão ao vivo de seus feitos na TV.

Cansei de discutir com amigo e professores de faculdade que, por conta desta declaração, me achavam xiita. O excelente documentário “Minotauro” mostra que não sou tão maluco assim. Num país tão carente de exemplos, enquanto ainda não temos nossos ídolos homenageados com estátuas públicas, como os americanos fizeram com Rocky Balboa na Filadélfia, já seria bom demais ver este documentário exibido nos cinemas ou na programação da Globo.

A CONSAGRAÇÃO DE COLBY E O NOVO PANORAMA NOS MÉDIOS E MEIO-MÉDIOS - 11/06/2018

Desde aquela fatídica derrota de José Aldo para Conor McGregor em dezembro de 2015 que o fã brasileiro não ia dormir sentindo este gosto amargo de surpresa com decepção. É lugar comum dizer que no MMA, mais do que em qualquer outro esporte, derrotas inesperadas fazem parte do jogo. Mas perder duas vezes seguidas para um trash talker como Colby Covington, sendo que na segunda estava em jogo o cinturão interino dos meio-médios, uma categoria na qual o Brasil nunca teve um campeão... definitivamente não foi fácil digerir.

A verdade é que é duro elogiar um cara que chamou seu país de pântano e seus compatriotas de animais imundos, mas deixando as besteiradas mal ensaiadas por Colby de lado, temos que reconhecer, após vitórias indiscutíveis sobre nossos dois maiores representantes na divisão, que se o atleta da ATT continua na faixa-branca do trash talking, no octógono ele evoluiu muito e hoje é um ótimo lutador. Se luta com as regras debaixo do braço e faz lutas chatas, são outros quinhentos. O fato é que mesmo tendo limitações, aprendeu a entender o esporte, mostrando uma disciplina tática e um gás acima da média.

Com Demian usou seu wrestling para evitar o temido chão do faixa-preta brasileiro, já com Rafael seguiu à risca o plano tático já consagrado por tantos outros colegas vindos de sua modalidade para anular strikers perigosos. Assim como Velásquez (contra Cigano), Khabib (contra Edson Barboza) e Chris Weidman (contra Belfort), conseguiu impor seu jogo de abafa usando a isometria na grade para cansar a maior arma do trocador brasileiro. Rafael ainda conseguiu vencer dois rounds, mas no quinto e decisivo, já com os braços muito cansados, voltou a aceitar o jogo de grappling de Covington, que garantiu seu sonhado cinturão interino.

Colby surpreendeu até mesmo o patrão Dana White, que acreditava numa vitória do lutador brasileiro, mais completo e que acabara de vencer o ex-campeão Robbie Lawler. O fato é que com 10 lutas e 9 vitórias no UFC não há como negar ao novo campeão interino o direito ao title-shot contra o campeão linear, Tyron Woodley.

Aliás, os dois últimos finais de semana foram definitivos para as categorias dos meio-médios (até 77kg) e médios (até 84kg). Nos meio-médios, além de definir o campeão interino que enfrentará Woodley, os dois últimos eventos propiciaram ótimas opções de casamento de lutas para os próximos shows. Darren Till (#2) e Kamaru Usman (#6) poderiam se enfrentar para definir quem lutará com o vencedor de Woodley e Colby. Com a aproximação do UFC São Paulo em setembro, a organização também teria opções de confrontos interessantes como Rafael dos Anjos x Stephen Thompson (#3) ou Demian Maia (#7) x Santiago Ponzinibbio (#10).

E por falar em boas lutas, o ex-campeão Robbie Lawler (#5) já está em fase final de recuperação após uma contusão na derrota para Dos Anjos, e também proporcionaria belos casamentos contra Thompson, Demian ou Ponzinibbio. Ou seja, o matchmaker responsável pelos meio-médios do UFC, Sean Shelby, tem farto material para se divertir nas próximas semanas.

Romero e Whittaker

Já o responsável pelos casamentos na categoria dos médios, Mick Maynard, não teve um dos melhores finais de semanas de sua vida. Principalmente depois da pesagem na sexta, quando Yoel Romero não bateu o peso (por 90 gramas), colocando a luta principal do evento em xeque por quase 24h. Mas ao final, mesmo burlando as regras da balança e perdendo pela segunda vez consecutiva o direito de lutar pelo cinturão (na luta anterior poderia ter conquistado o interino ao vencer Rockhold), o “Soldado de Deus” aceitou lutar e fez mais uma guerra antológica com o campeão linear, Robert Whittaker.

Usando uma estratégia totalmente diferente da primeira luta, quando partiu pra cima buscando definir com quedas e ground and pound no 1º round, desta vez Romero adotou uma estratégia mais conservadora, esperando o campeão atacá-lo.

Parecendo antever a mudança de postura do cubano, Whittaker fez dois primeiros rounds primorosos, e com um volume impressionante de golpes retos e chutes, não deixou o cubano encontrar a distância para acertá-lo. Mesmo com o olho esquerdo totalmente fechado já no final do 1º round e voltando a levar a pior no 2º, Romero voltou a fazer jus à sua fama de terror do 3º round (nocauteou Lyoto, Weidman, Rockhold, Brunson, Markes e Kenedy neste round), e quase apagou Whittaker com seu cruzado.

O australiano se recuperou no 4º, mas voltou a comer o pão que o diabo amassou no 5º, quando Dan Miragliotta chegou perto de interromper o combate. Este 5º round foi um clássico 10x8, o que levaria a luta a terminar empatada. Como os juízes pontuaram 10x9 no 5o round, a luta terminou com a vitória do campeão, que manteve o cinturão de uma das categorias mais disputadas do UFC. Vale frisar que se na primeira luta Whittaker contundiu o joelho (graças a um pisão de Romero) no início do 1º round, nesta quebrou a mão direita também nos 5 minutos iniciais. E mesmo assim não deixou de atacar um minuto sequer. E foi graças a esta postura agressiva, sempre se antecipando aos ataques do cubano, que garantiu a vitória por pontos. A luta foi tão boa que, caso Romero tivesse batido o peso em suas duas últimas lutas, talvez pudesse pleitear uma trilogia. Mas diante de sua realidade atual, apostaria mais num castigo, com o UFC o levando a fazer uma luta entre os meio-pesados, quem sabe substituindo o contundido Luke Rockhold numa super luta contra Alexander Gustafsson.

Após o UFC Chicago, os horizontes da divisão dos médios finalmente clarearam para Mick Maynard. Mesmo ciente de que não poderá contar com o campeão tão cedo (devido à mão quebrada), sobram possibilidades de casamentos interessantes na divisão. Após a vitória sobre Jacaré no Brasil, tudo leva a crer que Gastelum (#3) seja o próximo a disputar a cinta, mas não estranharia se Rockhold (#2) ou Weidman (#3) - que já venceu Gastelum - furassem a fila.

Jacaré pede revanche contra Romero ou Gastelum

Após o evento, Ronaldo Jacaré (5º dos médios), o brasileiro mais bem colocado na divisão, usou as redes sociais para pedir as duas únicas lutas que, segundo ele, fariam sentido. As revanches contra Kelvin Gastelum e Yoel Romero. Pessoalmente, partindo do princípio que Gastelum talvez lute direto pelo título, acho mais fácil casarem uma inédita luta contra Chris Weidman, que está voltando de contusão. Outra possibilidade seria Jacaré enfrentar David Branch (#7), que está logo atrás dele no ranking, após nocautear Thiago Marreta (#14).

Na parte de baixo do ranking há mais quatro brasileiros. Lyoto (#9) ainda está sem oponente definido e poderia ser um excelente coringa para o UFC São Paulo, enfrentando Elias Theodorou (#14) ou Brad Tavares (#8). Paulo Borrachinha (#11) engrossa o exército brasuca no Top 15. Mas o mineiro já tem compromisso no UFC 226 (7 de julho) contra Uriah Hall (#10). Logo atrás de Borrachinha no ranking, Antônio Cara de Sapato (#12) também já tem sua próxima luta definida. Pega Derek Brunson (#6) no UFC 227 (4 de agosto), e se vencer, encostará em Jacaré no ranking desta que é uma das categorias mais disputadas do UFC.

Certamente sairá destas duas divisões recheadas de brasileiros algumas das melhores lutas do card do UFC São Paulo em setembro.

O QUE SERIA DO UFC SEM O TUF? - 05/06/2018

Na semana passada, logo após anunciar a ESPN como nova parceira de transmissão do UFC na TV americana, Dana White revelou aos fãs que a 28ª edição do TUF, que começou a ser gravada em maio em Las Vegas, pode ser a última do reality show. Uma decisão que já vinha sendo aguardada pelos fãs, em decorrência do desgaste natural do formato, após 13 anos de sucesso.

Mas para os mais saudosistas e que acompanharam a saga de Dana White e dos irmãos Fertitta para reverter o fracasso de um show que estava a um passo da falência em 2005, a decisão deixou, no mínimo, um aperto no peito e até um certo sentimento de gratidão por parte de todos aqueles que hoje vivem ou trabalham com MMA no mundo. Afinal de contas, é difícil mensurar o impacto para o esporte se a Zuffa não conseguisse emplacar o formato do reality show em 2005.

Para entender esta história, temos que voltar 18 anos no tempo, para a 28ª edição do UFC em novembro de 2000, quando o professor de boxe Dana White consegue levar seus amigos Lorenzo e Frank Fertitta para ver seu professor de jiu-jítsu John Lewis ser nocauteado por Jens Pulver.

Nos bastidores do evento, Dana convence os amigos milionários a diversificarem seus investimentos para além dos cassinos de Las Vegas, pagando 2 milhões de dólares pelo quase falido Ultimate Fighting Championship, na época gerido pela SEG, de Bob Meyrowitz. Dana ficaria responsável por gerir o evento, tendo 10%  de participação na sociedade, e os Fertitta ficariam com os outros 90%.

A Zuffa, empresa criada pelos três, assumiu o UFC oficialmente duas semanas antes do UFC 30. Logo nos primeiros meses, Lorenzo usou toda sua influência de ex-diretor da Comissão Atlética de Nevada para conseguir grandes avanços políticos para o evento, que logo passou a ser sancionado no estado. E foi a partir destas primeiras negociações que nasceram as regras unificadas, com categorias de peso, equipamentos padronizados, etc. Mudanças essenciais para que o esporte passasse a ser aceito em vários outros estados.

Dana imaginava que com o investimento e a influência dos Fertitta conseguiria melhorar os cards e as produções, aumentando naturalmente as vendas de pacotes pay-per-view. Só que nesta época o Pride vivia seus anos de glória, tendo a maioria das estrelas sob contrato. Dana ainda tentou um intercâmbio com os japoneses. Sem sucesso.

O jeito foi investir em cards estrelados por velhos ídolos, como Ken Shamrock, Carlos Newton e Tito Ortiz. Os números melhoraram, mas os investimentos continuavam muito superiores ao retorno. O fato é que em 20 edições realizadas entre maio de 2001 e fevereiro de 2005, a Zuffa já amargava um prejuízo de 44 milhões de dólares. Diante da crescente insatisfação dos irmãos, Dana chegou a sondar um empresário interessado em comprar o show por 6 milhões.

Mas os bens relacionados Fertittas resolveram segurar a venda, tentando uma última tacada, quando ouviram nas altas rodas de Las Vegas que os executivos da Spike TV andavam cansados das marmeladas do WWE e buscavam algo mais real para investir.

Convidaram o executivo da Spike TV, Brian Diamond, para a área VIP do UFC 48 e torceram para que os protagonistas da noite impressionassem o convidado. Foi aí que mais uma vez o jiu-jítsu, que catapultou o sucesso do esporte nas primeiras edições, com as finalizações de Royce Gracie, deu mais uma empurrãozinho ao UFC. A cena de Frank Mir quebrando o braço de Tim Sylvia em quatro pedaços, fez Diamond pular da cadeira tendo certeza de que o UFC era o que procurava. De posse do vídeo da luta, não teve trabalho algum para convencer os diretores da Spike TV a investirem no show.

O Cavalo de Tróia de Dana White

Logo na primeira reunião, os executivos de Spike TV e Zuffa concordaram que a transmissão do evento não seria suficiente para criar interesse nos telespectadores. Era preciso humanizar os atletas, mostrar que eram cidadãos comuns, que tinham dramas pessoais como qualquer um, só que ganhavam a vida lutando. Nascia assim a idéia do primeiro reality show de MMA, o The Ultimate Fighter.

Para empacotar o produto, Spike TV e Zuffa contrataram o produtor executivo do bem sucedido reality show Survivor (transmitido no Brasil pela Globo como “No Limite”). Craig Piligian formatou a primeira edição do show. Seriam 16 lutadores nas categorias médios e meio-pesados, que passariam 13 semanas numa casa convivendo entre si com um mínimo de mordomias. Os lutadores foram escolhidos após muitas entrevistas. Como treinadores, Dana escolheu os lutadores mais populares da época, Randy Couture e Chuck Liddell.

Os irmão Fertitta investiram na produção do programa 10 milhões de dólares. Era a cartada final no esporte, aquela que foi chamada por Dana de estratégia “Cavalo de Tróia”, na qual a Zuffa vendia um produto (reality show) que trazia outro escondido (um esporte). Dana e os Fertitta sabiam que se o reality show não desse certo, venderiam o UFC e certamente o esporte continuaria relegado a um público segmentado que não o levaria ao patamar que merecia estar.

A edição inicial foi ao ar em janeiro de 2005 e atraiu uma excelente audiência: 1,7 milhão de telespectadores. Sem telefone, televisão ou internet, os lutadores só saiam da casa para treinar numa academia próxima. Para incendiar o ambiente, cerveja à vontade na geladeira.

Aos poucos o público americano foi se identificando com os personagens. O carisma e humor de Forrest Griffin; a bipolaridade de Chris Leben (que bêbado chegou a urinar na cama de Jason Thacker); a simpatia do pequeno Kenny Florian; a ligação de Sam Hoger com a equipe adversária. Cada ingrediente foi muito bem explorado pelos editores, que ajudaram muito a alavancar os números da atração a cada semana.

Mas a cereja do bolo foi indiscutivelmente a grande final entre Forrest Griffin e Stephan Bonnar. Após 13 semanas de muita rivalidade, os dois nem se cumprimentaram no início do combate. E travaram uma luta insana com muita trocação e alternância de domínio por 3 rounds de 5 minutos.

Ao final do combate, quando o árbitro levantou a mão de Griffin, Bonnar desabou num misto de cansaço e tristeza pela derrota. Na mesma hora o vencedor esqueceu os desentendimentos e se abaixou para consolar o desafeto numa cena que fez toda a arena se levantar aplaudindo ambos de pé. Uma postura que mostrava ao telespectador que, apesar de toda aparente violência, aquele esporte maravilhoso tinha em seu DNA as artes marciais. Nem em seus melhores sonhos Dana White imaginaria um desfecho tão perfeito para consagrar o UFC. Sua alegria era tanta que ele subiu ao octógono e anunciou que Bonnar também ganharia um contrato, pois ambos mostraram que estavam dispostos a morrer dentro do octógono.

Na outra final, Diego Sanchez aplicou um nocaute técnico em Kenny Florian em outra luta antológica que consagrou aquela noite como a da grande virada do esporte. A final foi vista por 2,6 milhões de americanos com pico de 3,3 milhões. Grandes jornais publicaram suas primeiras páginas positivas sobre o MMA, que finalmente era legitimado como esporte convencional.

O impacto do TUF sobre o esporte já pôde ser sentido no primeiro evento depois da final do The Ultimate Fighter, o UFC 52, em abril de 2005, que chegou a marca de 280 mil vendas de pay-per-view. Dali em diante, os recordes passaram a ser batidos a cada nova geração de ídolos.

Plataforma de talentos

Aos poucos o TUF virou febre nos EUA e chegou a bater a audiência do basquete profissional e beisebol, se transformando na mais importante plataforma lançadora de talentos para o UFC e popularizando gerações de novos ídolos. Muitos deles chegando a se tornar campeões do evento, como Rashad Evans, Michael Bisping, TJ Dillashaw, Forrest Griffin, Carla Esparza e Matt Serra.

Em 13 anos de evento, a Zuffa buscou sempre diversificar os formatos. Houve edições confrontando atletas e treinadores de nações diferentes (Estados Unidos x Inglaterra e Canadá x Austrália). Outras realizados em países específicos (TUF China, TUF Brasil 1,2,3 e 4), ou regiões específicas (TUF América Latina 1,2 e 3). Tiveram ainda edições confrontando academias (Blackzilians x ATT) ou peneirando talentos para novas divisões femininas (TUF 20 - palhas, TUF 26 - moscas, TUF 28 - penas). Em suma, o TUF foi absolutamente essencial para que o UFC se firmasse como maior evento de MMA do mundo e também iniciasse sua popularização em outros continentes.

Aqui no Brasil, três das quatro edições brasileiras foram transmitidas pela Rede Globo (aos domingos após o “Fantástico”) e também tiveram papel fundamental na humanização e popularização do MMA nacionalmente. Apesar de não ter formado nenhum campeão do evento, o TUF Brasil foi fundamental para empregar dezenas de talentos do MMA nacional. Até hoje, 13 dos mais de 80 brasileiros empregados pelo UFC foram descobertos nas quatro edições do TUF Brasil. São eles Cezar Mutante, Sérgio Moraes e Francisco Massaranduba (TUF 1); Santiago Ponzinibbio, Léo Santos e Thiago Marreta (TUF 2); Paulo Borrachinha, Cara de Sapato, Vitor Miranda, Marcos Pezão e Warlley Alves (TUF 3) e Matheus Nicolau e Joaquim Silva (TUF 4).

O fato é que a revolução criada a partir do sucesso do TUF 1 é tão grande que a pergunta título deste texto só pode ser respondida com elucubrações. E se Dana White tivesse aceitado a proposta de 6 milhões daquele primeiro empresário? E se Brian Diamond, da Spike TV, não fosse ao UFC 48? Se o destino tivesse escolhido qualquer um destes caminhos, certamente o UFC não teria virado um excelente negócio permitindo a Zuffa comprar o Pride, iniciando a grande virada que fez de uma empresa quase falida, comprada a 2 milhões de dólares em 2005, ser vendida por 4,2 bilhões em 2016 para a WME IMG, neste que é considerado até hoje o maior valor pago por uma franquia na história.

Por isso, é sempre importante lembrar que toda esta história só foi possível graças a um bem sucedido reality show, que revolucionou a vida de tanta gente.

MICHAEL BISPING: QUANDO O TRABALHO DURO SUPERA O TALENTO - 02/06/2018



Nunca gostei dessas frases feitas de capa de livros de autoajuda, mas sem dúvida esta resume com perfeição a carreira de Michael Bisping. Aliás, a história do inglês daria um excelente roteiro de filme. Um exemplo para motivar não só lutadores, como profissionais de qualquer área. Comparar Bisping com Rocky Balboa seria até injusto devido à complexidade do MMA. Mas o fato é que o inglês, assim como o personagem de Stallone, soube como ninguém superar suas fraquezas com muito treino e resiliência.

Esta semana o ex-campeão dos médios do UFC anunciou sua aposentadoria aos 39 anos, com 14 deles de serviços prestados ao MMA e um invejável cartel de 39 lutas (30 vitórias e 9 derrotas).

Campeão inglês de kickboxing, Bisping fez a transição para o MMA em 2004. Muito inteligente, buscou entender a dinâmica do esporte, desenvolvendo defesas para os seus pontos fracos. Aprendeu o suficiente para se defender no chão com o faixa preta brasileiro Waldomiro Perez Junior (aluno de Marcelo Behring), se dedicou ao wrestling para aumentar seu arsenal de defesa de quedas com vistas a obrigar os oponentes a lutarem na sua única especialidade. E como mesmo em sua zona de conforto não tinha as mãos pesadas (chegou a ser apelidado de mãos de almofada), desenvolveu um jogo baseado em combinações e volume de golpes complementado com muita preparação física, o que lhe garantia um gás acima da média. 

A inteligência para vender lutas e fazer o chamado trash talking, bem como o “mental diferenciado”, também foram importantes para que Bisping caísse no gosto dos fãs e do patrão Dana White. Mesmo se aposentando como um lutador mediano, o fato é que venceu dois dos maiores pesos-médios da história (Anderson Silva e Luke Rockhold) e realizou o sonho de conquistar o cinturão do UFC num dos momentos de maior competitividade na categoria. Para completar, ainda terminou a carreira com dois recordes que certamente o levarão ao Hall da Fama: Lutador com mais lutas no UFC (29); lutador com maior número de vitórias (20).

A decisão de Bisping foi tomada no último domingo após assistir ao filme “Journeyman”, que fala de um lutador aposentado que apresenta traumas cerebrais severos. Como Bisping já tinha tido um deslocamento de retina no olho direito na luta com Belfort em 2014 e acabara de machucar o olho esquerdo lutando com Gastelum, decidiu que não valia mais correr riscos. “Já ganhei o cinturão, consegui dezenas de vitórias, conquistei tudo que sonhava e já estou quase com 40 anos. Este filme me ajudou a ver que é chegada a hora de parar”, anunciou em seu podcast.

Após o anúncio oficial, Bisping se emocionou com a quantidade de homenagens de colegas que recebeu nas mídias sociais. Dos campeões Daniel Cormier e Demetrious Johnson, passando por parceiros de treino como Rafael dos Anjos, pelo chefe Dana White e até rivais como Chris Weidman, todos fizeram questão de agradecer ao inglês por sua dedicação ao esporte, sempre enaltecendo seu exemplo de superação.

E não foi só em sua carreira de lutador que Bisping trabalhou duro. Vindo de uma família humilde, ele ralou em diversas áreas para ajudar em casa. Do chão de fábricas a matadouros. Também foi carteiro, instalador de carpete e DJ. Descobriu seu talento para a luta no kickboxing. Chegou a ser campeão meio-pesado inglês e depois migrou para o MMA, em 2004. No mesmo ano, fez cinco lutas e conquistou o cinturão do Cage Rage, nocauteando o respeitado Mark Epstein e ganhando o apelido de “Esperança Britânica”.

Em 2006, Michael conquistou uma vaga na terceira edição do reality show The Ultimate Fighter e se sagrou o primeiro estrangeiro campeão do evento, com três vitórias por nocaute técnico. Nesta edição do TUF, seu talento como trash talker caiu nas graças dos americanos. Tanto que três anos e sete lutas depois, lá estava ele enfrentando a lenda Dan Henderson como treinador da primeira edição do TUF a confrontar nações (Inglaterra x EUA). A rivalidade criada por Bisping na casa alavancou as vendas de pay-per-view e carimbou o sucesso do UFC 100. Para delírio dos fãs americanos, o vilão inglês seria nocauteado pelo, neste que foi o primeiro de muitos excelentes pay-per-views que o inglês ajudaria a vender.

O talento do trash talker seria explorado novamente no TUF 14 em 2011, quando voltou a divertir os fãs americanos se confrontando com o treinador Jason Miller. Desta vez venceu por nocaute técnico, ficando ainda mais popular nos EUA e chegando bem perto de disputar o cinturão contra Anderson Silva. Bastaria vencer Chael Sonnen no duelo de trash talkers. Mas Bisping acabou perdendo para o wrestler em decisão polêmica.

Na sequência, mostrou sua resiliência e deu a volta por cima vencendo Brian Stann. Mas quatro meses depois, em janeiro de 2013, sofreria o segundo nocaute da sua carreira, para Vitor Belfort. Pior que a derrota foi a lesão no olho direito causada pelo golpe do brasileiro, que deslocou sua retina. Bisping foi aconselhado por médicos a parar, mas nem cogitou a possibilidade.

Após quatro cirurgias no olho e duas derrotas em 2014 (Rockhold e Tim Kenedy), nem o mais fiel fã do inglês cogitaria que Bisping pudesse voltar a disputar o cinturão. Foi aí que destino entrou em cena duas vezes fazendo justiça ao trabalho duro do inglês, que com muito trash talk após vitórias burocráticas sobre CB Dolloway e Thales Leites, conseguiu convencer Dana a levar Anderson Silva para enfrentá-lo em Londres. Uma luta em que até seu filho Lucas apostava no brasileiro. Mais uma vez a “Esperança Inglesa” surpreenndeu e, após cinco rounds muito disputados, foi declarado vencedor diante do maior médio da história.

A vitória sobre o brasileiro acabou catapultando o inglês para a luta da sua vida. Quando faltava 17 dias da revanche entre Luke Rockhold pelo cinturão dos médios, Chris Weidman se contundiu e Bisping não titubeou ao convite de Dana White.

Finalmente realizando seu sonho de lutar pelo cinturão, Michael Bisping pela primeira vez se sentiu no papel de mocinho do filme. Graças à arrogância do campeão Luke Rockhold, que declarava à imprensa abertamente que o inglês não tinha nível para enfrentá-lo e desta vez não deixaria a luta chegar ao segundo round.

Bisping deu de ombros, foi pra cima e nocauteou Rockhold no 1º round naquela que é considerada uma das maiores zebras da história do evento, mas que virou um marco para lutadores, treinadores e comentaristas de que no MMA não existe luta vencida. O fato é que dez anos depois de estrear no UFC, Bisping consagrava sua história como primeiro lutador inglês e quinto europeu (atrás de Bas Rutten, Arlovsky, Joanna e Connor) a conquistar o cinturão do UFC.

Depois de garantir sua maior conquista, Bisping marcaria os dois últimos anos de sua carreira com uma postura que não condiz com sua trajetória. Sentou no cinturão, e ao invés de deixar a fila andar lutando contra os melhores do ranking (Ronaldo Jacaré e Yoel Romero), cavou uma revanche com o já aposentado Dan Henderson. Venceu aos trancos e barrancos e pediu outro recordista de pay-per-views aposentado, GSP. Parado desde 2013, o canadense, ex-campeão dos meio-médios, aceitou subir de categoria e voltar a ativa, finalizando Bisping no terceiro round e, logo na sequência, abrindo mão do cinturão. Duas semanas depois da derrota para GSP, Michael aceitou um chamado do UFC para substituir Anderson Silva (pego no doping) contra Kelvin Gastelum. Acabou nocauteado no 1º round em sua última luta.

Apesar das duas derrotas nas últimas lutas, Bisping será sempre lembrado pelo conjunto da obra e pelo exemplo de perseverança que, aliás, vale para a todas as áreas da vida. Fora do octógono o inglês deve continuar alegrando os fãs americanos com seu humor sempre afiado como comentarista das transmissões do UFC e nós aqui no Brasil em suas cômicas aparições no programa UFC Now, transmitido todas as quintas pelo Canal Combate.



ÍDOLOS TIPO EXPORTAÇÃO E O 7X1 DOS INIMIGOS DA BALANÇA - 28/05/2018


É impressionante a capacidade de renovação de talentos do MMA nacional. Mesmo em meio a uma das maiores crises do esporte no país, com equipes sucateadas e pouquíssimos eventos sobreviventes, o Brasil tem lançado novos valores em quase todas as divisões nos principais eventos do mundo e, de quebra, produzido ídolos para outros mercados.

O argentino Santiago Ponzinibbio e o inglês Darren Till são bons exemplos de talentos tipo exportação formados por aqui e que hoje tem sido muito bem aproveitados pelo UFC para alavancar outros mercados. Não por acaso, a organização tinha escalado ambos para estrelarem as duas últimas edições do evento. No dia 19 de maio, o argentino “Xente Boa” (10º do ranking dos meio-médios), forjado por Thiago Tavares em Florianópolis e consagrado no TUF Brasil 2, faria a luta principal do UFC Chile contra Kamaru Usman, mas depois de se contundir deu lugar a Demian Maia. No último domingo, dia 27, foi a vez do inglês Darren Till, cria de Marcelo Brigadeiro (equipe Astra Fight Team de Balneário Camboriú-SC) encabeçar a primeira edição do UFC em sua cidade natal, Liverpool. Mesmo dando um susto nos fãs ao não bater o peso por 1,7kg, Till conseguiu a vitória na decisão sobre o americano Stephen Thompson, e já passou a ser considerado substituto natural de Michael Bisping, como principal nome do MMA inglês.

Curiosamente, esta foi a estreia de Till em seu país, uma vez que ele fez todas as suas 12 lutas antes de estrear no UFC no Brasil, sendo 10 delas no estado de Santa Catarina, onde inclusive chegou a casar e ter uma filha brasileira.

Com uma vitória sobre o número 1 do ranking dos meio médios, Till curou a ressaca dos locais (após a derrota do Liverpool no dia anterior para o Real Madrid na final da Champions) e, de quebra, deixou o patrão Dana White mais aliviado com a, já anunciada, aposentadoria de Bisping. Afinal de contas, a Inglaterra continua sendo o terceiro mercado em importância para o UFC e a aposentadoria do ex-campeão dos médios vinha sendo um motivo de preocupação para a organização.

Vale ressaltar o valor comercial para o UFC da “dupla nacionalidade marcial” de lutadores como Darren Till e Santiago Ponzinibbio. Com os constantes problemas de contusões que impactam no fechamento de bons cards, os dois passam a ser coringas para o show. Um bom exemplo disso é o atual “inimigo número 1 do MMA brasileiro” Colby Covington. Quando o trash talker nos chamou de animais imundos, Ponzinibbio e Till foram os primeiros a pedirem o direito de enfrentá-lo aqui no Brasil. Mas após a vitória contundente sobre Robbie Lawler, Rafael Dos Anjos ganhou a vaga e disputará o cinturão interino contra o falastrão no dia 9 de Junho no UFC 225, podendo ser o primeiro brasileiro a conquistar o cinturão da divisão dos meio-médios.

Independentemente do resultado, o fato é que ter quatro lutadores formados no Brasil entre os top 10 de uma das divisões mais disputadas do UFC, abre uma série de possibilidades interessantes de casamentos de lutas para os fãs locais, além de reafirmar o Brasil como segundo maior celeiro produtor de talentos do esporte no mundo.

7 x 1, a goleada do doping da balança

Este placar, que traz tantas lembranças negativas para o nosso futebol, assombrou esta semana o mundo do MMA. Quem acompanhou a coluna na semana passada lembra que abordei o número crescente de atletas que tem se beneficiado do “doping da balança”. Ou seja, aqueles que não batem o peso, pagam 20 ou 30% de multa, mas acabam se beneficiando entrando muito maiores na luta e ainda ganhando o bônus pela vitória (normalmente de 50%). Até o UFC Chile, o placar era 6 x 0 para os descumpridores das regras (em eventos do UFC em 2018), mas esta semana em Liverpool o placar chegou ao traumático 7 x 1. Darren Till anotou o 7º quando ficou 1,7kg acima do peso e venceu Stephen Thompson (que bateu o limite da categoria). Já Gilian Robertson fez o único gol do time dos corretos ao finalizar Molly McCann (que tinha ficado 500g acima do peso).

Esta goleada dos trapaceadores acende uma luz vermelha para o esporte. Afinal de contas, este verdadeiro surto tem deixado no ar a pergunta: de que adianta o investimento de milhões de dólares com exames que tem permitido a USADA limpar o esporte, coibindo suplementos e hormônios que possam melhorar a recuperação pós-treino ou possibilitar um aumento de performance acabando com o principio da isonomia “fisiológica” entre os lutadores, se pagando 30% da bolsa atletas como Mackenzie Dern ou Darren Till podem entrar no octógono uma categoria acima de seus oponentes?
Vale lembrar que o Thompson é um dos maiores meio-médios da divisão e ficou pequeno perto de Till, que acabou crescendo nos rounds finais. Imaginem se esta luta fosse contra o Rafael dos Anjos? A vantagem física seria ainda mais gritante e certamente seria definitiva numa luta de 5 rounds.

Dito isto, urge que o UFC e as Comissões Atléticas criem mecanismos mais eficazes para punir o “doping da balança". E a melhor maneira de mudar este quadro é atacando em duas frentes: aumentando a punição e a “mordida no bolso” do atleta. Minha sugestão é que seja extinta a tal libra de tolerância e a porcentagem seja tirada do atleta na proporção de 15% da bolsa a cada libra (450g) não cumprida. Um atleta como Darren Till, por exemplo, perderia 60% da bolsa por seus 1,7kg acima da divisão. Casos como o de Mackenzie Dern, que chegou a absurdos 3,2kg acima do peso estabelecido, certamente não aconteceriam, ou o lutador teria que abrir mão integralmente de sua bolsa.
Só não acho correto o cancelamento da luta. Pois neste caso acabam pagando pelo erro o fã e o oponente que gastou meses treinando e cumpriu suas obrigações profissionalmente.
Tão importante quanto a multa é a penalização imediata de casos reincidentes com a subida automática do atleta para a categoria de cima. Se decisões como estas forem tomadas, certamente este surto de burlar a balança será reduzido a casos esporádicos e o esporte terá dado um enorme salto evolutivo.



DEMIAN E JACARÉ: O FUTURO DOS GÊNIOS DO JIU-JÍTSU NO UFC - 21/05/2018

Os últimos finais de semana definiram o futuro dos dois maiores representantes do jiu-jítsu no MMA na atualidade: Ronaldo Jacaré e Demian Maia. Vivendo momentos distintos em suas carreira, estes dois gênios da Arte Suave viram suas chances de disputar o cinturão se distanciarem, cedendo lugares no topo da divisão para talentos da nova geração.

Demian Maia foi chamado para salvar o UFC Chile no último sábado contra o temido Kamaru Usman (substituindo o contundido Santiago Ponzinibbio) e voltou a ter dificuldades para impor seu jogo e levar a luta para o solo. Mas mesmo com apenas três semanas de treinos e longe de sua forma, o brasileiro chegou ao final do 5º round perdendo na decisão. Depois da luta, ciente de que enfrentara em sequência os três piores oponentes da divisão para seu jogo (Woodley, Covington e Usman), Demian disse à imprensa que não sonha mais com cinturão e gostaria de encerrar sua carreira fazendo as três lutas que restam em seu contrato contra oponentes que façam sentido. Strikers ranqueados como Donald Cerrone, Leon Edwards ou o perdedor da luta entre Darren Till e Stephen Thompson seriam ótimas opções para o jogo do paulista.

Depois de disputar duas vezes o cinturão do UFC - contra Anderson Silva (entre os médios em 2010) e contra Tyron Woodley (entre os meio-médios no ano passado) - e fazer um excelente pé-de-meia nas 28 lutas que fez em 11 anos de UFC, o desafio que passou a motivar o brasileiro mais vitorioso da história da organização (com 19 vitórias) é bater dois outros recordes: lutador com maior número de finalizações (hoje, Maia tem 9 e Royce, 11), e lutador que mais lutou no UFC (Maia tem 28 e Michael Bisping tem 29).

Mas independentemente de resultados ou recordes, o fato é que Demian Maia sempre será lembrado, ao lado de Royce, como o maior representante do jiu-jítsu na história do evento e, logo que se aposentar, deverá ser o quarto brasileiro indicado ao Hall da Fama do UFC.

Jacaré ainda tem lenha pra queimar

A uma vitória da tão sonhada disputa do cinturão dos médios, o segundo colocado no ranking, Ronaldo Jacaré, acabou sendo surpreendido por Kelvin Gastelum (5º do ranking) no penúltimo sábado no UFC Rio. Com a vitória, o atleta da Kings MMA deverá enfrentar o vencedor da luta entre o campeão Robert Whittaker e o desafiante Yoel Romero no dia 9 de Junho (UFC 225).

Mesmo tendo um estilo diferente de aplicar seu jiu-jítsu, Ronaldo Jacaré também é considerado um dos maiores representantes da arte suave na história do MMA. Só que enquanto o jogo de Demian é mais baseado em movimentos de defesa pessoal, que o permitem chegar às costas do oponente usando o mínimo de técnicas de striking, Jacaré sempre teve um estilo baseado em força e explosão, usando a potência de sua mão direita para encurtar e derrubar, além de abrir espaço para finalizações no solo.

Hoje os dois lutam em categorias distintas, mas já se enfrentaram duas vezes em eventos de grappling, com uma vitória para cada lado. Demian venceu por uma vantagem no jiu-jítsu e Jacaré venceu da mesma maneira no ADCC em 2005. No MMA, os números também são parecidos. Demian começou em 2001; hoje, aos 40 anos, computa 34 lutas e 25 vitórias (12 por finalização). Já Jacaré, hoje com 38 anos, começou no MMA em 2003; hoje tem 32 lutas e as mesmas 25 vitórias (sendo 15 por finalização). Mesmo nunca tendo realizado o sonho de lutar pelo cinturão do UFC, Jacaré já foi campeão do Strikeforce.

Apesar das semelhanças numéricas e de ambos virem de derrota, existe uma diferença básica entre os momentos atuais das carreiras de Demian e Jacaré. Enquanto o primeiro já se sente realizado financeiramente, além de já ter disputado duas vezes o cinturão do UFC fazendo lutas de cinco rounds contra dois gênios das divisões, Anderson Silva e Tyron Woodley, Jacaré sabe que ainda tem lenha para queimar. Com 38 anos e tendo uma genética privilegiada, o faixa-preta formado por Henrique Machado só precisa encontrar uma equipe onde consiga desenvolver todo o seu potencial. Quem acompanha Ronaldo Jacaré, seja no jiu-jítsu ou MMA, sabe que além da técnica, seu jogo é baseado em explosão intermitente, que requer preparo físico.

Depois de mais de 10 anos lutando jiu-jítsu em altíssimo rendimento (sempre disputando peso e absoluto nas duas confederações) e mais de 15 anos treinando MMA em equipes como X-Gym e XTreme Couture, é natural que Ronaldo busque novos ares, numa equipe com treinos mais cadenciados, com sparrings mais controlados que o permitam evitar contusões. Quando tornou pública a decisão de se mudar com a família para a Flórida, capital mundial do MMA, onde encontram-se potências do esporte como ATT, MMA Masters, Hard Knox 365 (ex-Blackzilians), todas de portas abertas para o ídolo do jiu-jítsu, os fãs passaram a ter certeza que, finalmente, veriam o melhor Jacaré lutando pelo cinturão.

O problema é que o Ronaldo resolveu primeiro escolher onde moraria com a família (Orlando), e só depois começou a procurar uma equipe próxima a sua residência. Infelizmente a ordem dos fatores alterou o produto. Só havia Fusion X-Cel, uma equipe sem nenhum atleta de ponta nas redondezas. Obviamente, sem sparrings de alto nível e insistindo em trabalhar com um preparador físico de Manaus, Jacaré esteve longe de se apresentar no UFC Rio como os fãs estão acostumados a vê-lo. E aqui mais uma vez vale uma comparação entre os dois gênios do jiu-jítsu. Demian, com três, semanas de camp chegou ao final do 5º round em melhores condições físicas do que Jacaré no final do 1º round. Apesar do gás irreconhecível, Jacaré foi salvo pelo seu coração gigante que lhe garantiu o merecido o prêmio de luta da noite junto com Gastelum.  

É lugar comum dizer que o lutador aprende mais na derrota do que na vitória. Tomara que esta máxima sirva para Jacaré e ele consiga identificar os erros no seu treinamento. Após o UFC Rio, falei com amigos, parceiros de treino e adversários de jiu-jítsu de Jacaré e todos foram unânimes em reconhecer que nunca o viram cansar tão rápido. O fato é que aos 38 anos e com a genética privilegiada que tem, Jacaré tem totais condições físicas de se recuperar e voltar a brigar pelo cinturão da divisão. Ainda mais com a categoria rasa como está. Mas a questão é a mesma que aflige diversos outros veteranos brasileiros: depois de tantos anos de dedicação ao esporte e entrega física, estará ele disposto a sair da sua zona conforto? Sinceramente, espero que sim.

DEMIAN: O EXTERMINADOR DE ZEBRAS - 19/05/2018

Convidado a três semanas do UFC Chile para substituir Santiago Ponzinibio para enfrentar Kamaru Usman na luta principal do UFC Chile, Demian Maia, 5º do ranking dos meio-médios, aceitou o indigesto desafio.

 Além de ter a vantagem de ter feito um camp completo, o "Pesadelo Nigeriano" vem de uma sequência impressionante de sete vitórias no maior evento do mundo.

 Vindo de duas derrotas contra os também wrestlers Tyron Woodley e Colby Colvington, o brasileiro tem sido apontado como zebra pela grande maioria dos analistas do MMA, principalmente pelo fato de a luta ser disputada em 5 rounds e Demian não ter feito um camp completo.

 De suicida unidimensional a campeão

 Mas certamente a pecha de zebra não é algo que assuste o brasileiro. Muito pelo contrário, pode ser até um bom presságio. Há pouco mais de onze anos assisti da beira do ringue a estréia de Demian no MMA nacional numa situação bem pior. O Super Challenge foi, sem dúvida, o torneio até 84kg mais difícil já realizado no Brasil. Na chave estavam expoentes com farta experiência internacional, inclusive em torneios sem limite de peso. Diante de nomes como Alexandre Cacareco, Gustavo Ximú, Alexandre Chocolate e Fabio Negão, o campeão de Jiu-Jitsu Demian Maia era visto como um suicida unidimensional. 

 E foi nesta noite que aprendi que, muitas vezes, teoria e MMA não combinam. Mesmo sem saber trocar um soco, Demian, que já tinha vencido uma luta de MMA na Venezuela e outra na Finlandia, não teve problemas para derrubar e finalizar com um mata-leão o faixa preta de Fábio Noguchi, Katel Kubis, aos 3min30s do 1º round.

 Mas foi na semifinal que o faixa preta de Fábio Gurgel impressionou a todos ao vencer o favorito Gustavo Ximú, que eliminara o faixa preta de Luta-Livre Leonardo Chocolate na primeira luta. Ximú tinha 18 lutas de MMA no currículo já tendo lutado em eventos internacionais, como RINGS, Deep e Pancrase. Dada a sua capacidade de bloquear quedas e manter a luta em sua zona de conforto, Ximú era tido como o pior casamento para Demian (pior até que Cacareco que estava do outro lado da chave).

 Mas Demian surpreendeu e depois de um primeiro round disputado, terminou o segundo montado em Ximú, vencendo na decisão e chegando na final inteiro contra Fábio “Negão” Nascimento, faixa preta de Jiu-Jitsu. Fábio já estava bastante desgastado, vindo de duas guerras com Carlos Baruch e Felipe Mongo (que eliminou Cacareco), e acabou sendo uma presa fácil para Demian, que o finalizou com uma guilhotina em 35 segundos. 

 Para surpresa de todos, Demian finalizara a zebra, faturando o cinturão, 35 mil reais e ainda saindo e cara limpa. Começava ai uma das mais brilhantes carreiras de um representante do Jiu-Jitsu no MMA. Um ano depois de vencer o Super Challenge, Maia faria sua estréia no UFC, marcada inicialmente pela mesma desconfiança daquela primeira noite. Com a evolução do esporte, como um lutador focado numa única arte conseguiria sobreviver?

Pois Demian dedicou os 10 anos seguintes de sua vida a responder esta pergunta, calar teóricos e exterminar zebras. Não só sobreviveu, como se transformou no mais respeitado e temido representante do Jiu-Jitsu no UFC. Misturando seu profundo conhecimento de defesa pessoal com técnicas de Wrestling, Maia desenvolveu uma técnica de pegada pelas costas que aterrorizou quase todos os seus oponentes e o transformou no brasileiro com maior numero de vitórias nestes 25 anos de UFC (19).

Diante de um histórico deste, não será nenhuma surpresa se neste sábado (19) Demian Maia calar os teóricos mais uma vez, surpreendendo o "Pesadelo Nigeriano".

DESTAQUES DO 2º MELHOR UFC JÁ REALIZADO NO RIO - 14/05/2018

Depois de alguma desconfiança, eis que o UFC Rio 9 superou todas as expectativas e se traduziu num eventaço recheado de nocautes e finalizações. Na minha opinião, a segunda melhor das nove edições já realizadas em terras cariocas, só perdendo para a primeira (UFC 134), estrelada por Anderson, Minotauro e Shogun.

Teve Amanda defendendo seu cinturão pela terceira vez, Lyoto Machida nocauteando Belfort em sua luta de aposentadoria, Gastelum surpreendendo Jacaré, e mais uma penca de nocautes e finalizações. Escolher os bônus de Performance (Lyoto e Oleynik) e Luta da Noite (Jacaré x Gastelum), definitivamente, não foi tarefa fácil para o staff do UFC.

Mas se houvesse um prêmio para a imagem mais marcante, a tarefa não seria tão difícil: Lyoto ajoelhado cumprimentando Belfort, caído inconsciente no chão. Respeito, preocupação, superação. Se aquela imagem por si só já entoava diversos significados, é difícil descrever seu peso para quem estava presente na arena. O público de pé, ao mesmo tempo em que parecia querer aplaudir a técnica e o respeito marcial de Lyoto, em silêncio aguardava algum movimento do ídolo. Quando Belfort finalmente recobrou a consciência, um sussurro aliviado tomou conta da arena, que na sequência emendou aplaudindo e gritando o nome do ídolo: “Vitor! Vitor! Vitor”. Um reconhecimento emocionado aos seus quase 22 anos de serviços prestados ao esporte. Sem dúvida, um momento histórico, no qual o fã pôde assistir um dos maiores ídolos da história do esporte desamarrar as luvas e deixá-la no octógono.

Depois de Couture e Belfort, Lyoto quer aposentar Bisping  

Escolhida para abrir o card principal, a luta entre os veteranos ex-campeões meio-pesados vinha sendo apontada por muitos como a mais aguardada da noite. E esta tensão se refletiu em muito estudo e um primeiro round morno, no qual Machida condicionou Belfort a defender seu Mawashi Geri na linha de cintura. No segundo round, porém, o karateca voltou disposto a surpreender usando o mesmo golpe, só que mudando o alvo. Belfort ainda ameaçou defender em baixo, mas o coice veio certeiro no queixo, exatamente igual ao que aplicara em Randy Couture há sete anos (UFC 129), em sua luta de aposentadoria. Graças a esta coincidência, o chute de Lyoto foi apelidado nas redes sociais de retirement kick (chute de aposentadoria).

E se depender de Machida, o golpe será imortalizado aposentando uma terceira lenda, Michael Bisping. Na entrevista após a luta, Lyoto pediu o inglês, ex-campeão dos médios. Se a vitória sobre Belfort deve lhe puxar do 12º para o 9º lugar, uma vitória sobre Bisping poderia deixá-lo na 6º posição, talvez a uma luta de uma, até pouco tempo improvável, nova disputa de cinturão. Apesar de já ter dito que não gostaria mais de bater 84kg, Bisping poderia se interessar em lutar numa categoria intermediária com Machida. Um duelo de ex-campeões que tem bons ingredientes para alavancar um pay-per-view na Europa, além de combinar a realidade “física e etária” de ambos atletas.     

Amanda carimba o passaporte para enfrentar Cyborg

Pela primeira vez lutando no Brasil como campeã, Amanda Nunes não teve problemas em conseguir sua terceira defesa consecutiva de cinturão. Foram quase 23 minutos de domínio, nos quais a brasileira usou muito bem os low kicks minando a perna da oponente (Raquel tinha sofrido um acidente em dezembro de 2017 e teve sua panturrilha esquerda esmagada. Chegou a ter risco de amputação). Por mais que estivesse recuperada do acidente, certamente os low kicks da brasileira tiveram um importante papel para minar a confiança da oponente desde os primeiros minutos de luta. Mostrando superioridade no boxe e também aplicando algumas quedas em Pennington, Amanda foi minando a oponente que no intervalo do 4º para o 5º round sinalizou que não tinha mais condições, mas acabou convencida pelo treinador Jason Kutz a continuar.

Raquel resistiu até 2min36s do 5º round, quando a campeã aplicou uma queda derradeira e obrigou o árbitro Marc Goddard a interromper com socos e cotoveladas no ground and pound.

Depois de limpar a divisão, tudo indica que o próximo passo de Amanda será mesmo uma unificação de cinturão com Cris Cyborg. Dada a falta de ameaças reais para ambas em suas respectivas categorias, esta superluta tem tudo para atrair a atenção dos fãs e ser mesmo a próxima opção do UFC.       

Gastelum, um novo Dan Henderson?

Em 2015, depois de fazer uma luta dura contra o futuro campeão dos meio-médios Tyron Woodley (venceria o campeão Lawler na sequência), Kelvin Gastelum passou a ter problemas para bater o peso na divisão e resolveu subir de 77kg para 84kg. Com seu 1,75m e sendo conhecido pelo seu bom wrestling e limitação na trocação, tudo levava a crer que o americano seria trucidado numa divisão recheada de bons strikers e grandalhões como Luke Rockhold, Chris Weidman e Yoel Romero. Mas Gastelum, contra tudo e contra todos, mostrou mais uma vez que MMA não é ciência exata. Com a ajuda de Rafael Cordeiro, que trabalhou sua potente mão esquerda e o deixou mais confiante em pé, o wrestler se transformou no segundo striker mais temido da divisão (atrás apenas do campeão Whittaker). Uma espécie de Dan Henderson canhoto (que tinha compleição de médio e nocauteou alguns dos principais meio-pesados do Pride e UFC. Até Fedor foi nocauteado pela sua Big Right Hand).

Com um queixo duríssimo, muito gás e uma bomba na mão esquerda, Gastelum nocauteou os favoritíssimos Tim Kennedy, Michael Bisping e Vitor Belfort, aplicou knockdown e quase venceu no 1º round o ex-campeão Chris Weidman (4º da divisão) - o homem que destronou Anderson teve que ser muito tático para conseguir virar conseguindo uma finalização com um katagatame no 3º round. Mas foi no último sábado que o atleta da Kings MMA conquistou a vitória mais importante de sua carreira, contra o 2º do ranking dos médios, Ronaldo Jacaré.

Com o jogo do brasileiro muito bem mapeado por Rafael Cordeiro, Gastelum sobreviveu ao chão de Jacaré no primeiro round e deu o troco nos rounds subsequentes, quando o brasileiro cansou como nunca havia cansado em nenhuma outra luta. A frustração por não conseguir derrubar Gastelum e o gás muito aquém do seu normal foram os fatores que definiram o combate em favor do americano. Temido pela sua combinação intermitente de explosão com chão e cardio acima da média, Jacaré lutou no modo zumbi no 2º e 3º rounds, contando com seu coração gigantesco e um certo respeito de um inteiríssimo Gastelum para chegar ao final.

Tirando a luta com Whitaker, onde estava com o músculo peitoral rompido e nem deveria ter lutado, esta foi a pior atuação de Ronaldo Jacaré no octógono. Lento e plantado, piorou muito na parte em pé e apresentou um condicionamento muito aquém do que costuma apresentar. Para qualquer um que não conheça o potencial físico de Jacaré seria até natural atribuir o cansaço à questão do declínio fisiológico em consequência dos seus 38 anos. Mas esta teoria não faz sentido no caso de um atleta privilegiado fisicamente que, assim como Yoel Romero (41 anos), tem plenas condições de lutar em alto rendimento por, pelo menos, mais 4 anos.  

Mas para isso é necessário que o atleta ainda esteja disposto a se entregar. Jacaré dedicou ao menos 22 anos de sua vida ao treinamento de altíssima intensidade. Nos últimos anos pagou um preço caro por toda esta dedicação, com contusões. Sua maneira de remediar foi saindo de uma equipe onde fazia sparring pesado quase todos os dias (X-Gym, no Rio) - e consequentemente se contundia muito -, para uma equipe pequena na Flórida onde não é tão exigido nos treinos. A solução está em reconhecer as falhas e encontrar um equilíbrio nesta rotina de treinos buscando um meio termo. Bons sparrings e preparação física diferenciada são condições básicas para um atleta performar entre os melhores do UFC. Se não tiver interesse de treinar na ATT, MMA Masters ou KNOX 365 (todas de portas abertas para Jacaré e a poucas horas de sua casa na Flórida), o brasileiro vai precisar contratar sparrings e se dedicar mais à preparação física. Se voltar a ter o gás e a explosão que sempre caracterizaram seu jogo, Jacaré continuará a ser respeitado por todos na divisão e certamente chegará a tão sonhada disputa de cinturão.

O Wolverine de Paranaguá  

Depois de ter seu maxilar quebrado na luta com TJ Dillashaw, era de se imaginar que John Lineker adotasse um estilo mais estratégico, se expondo um pouco menos. Mas o que aconteceu foi exatamente o contrário. Ao ouvir de seu médico que após a operação teria um maxilar de titânio, o “Mãos de Pedra” voltou ao octógono mais agressivo que nunca. Depois de testar e aprovar o maxilar contra Marlon Vera (venceu na decisão), Lineker voltou ao octógono com a missão de nocautear falastrão Brian Kelleher, que após finalizar Iuri Marajó com uma guilhotina em sua estreia no UFC e chegar perto de vencer Renan Barão por nocaute técnico no 3º round, prometeu que não fugiria da trocação com o 6º do ranking dos galos.

E o americano cumpriu a promessa. Tirando duas tentativas de queda e uma guilhotina, Kelleher trocou chumbo grosso com o paranaense por exatos 13m43s e deu um selo de qualidade especial ao queixo do “Wolverine de Paranaguá”, que a cada minuto parecia aumentar o volume de golpes, sempre alternando entre cabeça e linha de cintura. O americano já dava a impressão que resistiria até o final, até uma mão de pedra entrar em cheio em seu queixo e ele cair nocauteado, para delírio da torcida.

Octógono não é lugar de política e religião

Mais uma vez a torcida brasileira deu show, desta vez até aplaudindo os estrangeiros que venceram, como Oleynik e Gastelum. O puxão de orelhas vale para os lutadores que vêm desenvolvendo ultimamente o péssimo hábito de falar de política nos poucos segundos que têm para tentar cavar uma próxima luta ou se vender para os fãs. Uma mensagem que será ouvida pelo patrão, pela arena e pelos milhares de fãs que assistem ao evento na TV em 160 países. Aí vem o lutador e fala de política ou discorre sobre sua devoção a Deus. Será que não dá pra entender que quem está vendo o UFC não tem o menor interesse em sua preferência religiosa ou política? Pessoalmente sou contrário a multas, mas acho que já valeria o UFC começar a instruir de maneira mais incisiva para que os lutadores evitem manifestações políticas e religiosas em respeito aos fãs que, afinal, estão sintonizados ali buscando entretenimento e esporte.

O doping da balança

Fazendo sua segunda luta no UFC em pouco mais de dois meses, Mackenzie Dern desta vez não teve problemas para levar a luta para sua zona de conforto, e com um belo overhand derrubou a oponente. Por cima, não teve dificuldades de pegar as costas e encaixar um mata-leão, obrigando Cooper a bater a 2min27s do 1º round. Mas não dá negar que a bela atuação da filha de Wellington Megaton acabou manchada pela sua falta de comprometimento e profissionalismo em bater o peso.

Mackenzie, que chegou a declarar na semana anterior ao evento que comia de tudo e não vinha se preocupando com uma dieta específica para esta luta, bateu 3.2kg acima da categoria. A luta só ocorreu graças ao profissionalismo da oponente. No final das contas, 30% de multa (20% para Cooper e 10% para a CABMMA) acabou saindo barato para Dern, que graças à vitória recebeu o dobro da bolsa.

Mackenzie é o sexto caso só este ano de um lutador que não bate o peso estipulado em contrato, paga multa e vence sua luta. Se alguma regra mais dura não for implementada pelas Comissões Atléticas, ficará a mensagem de que não vale a pena sofrer dias com dietas e desidratações para cumprir o contrato. Se o principal objetivo da política antidoping da USADA é a isonomia (igualdade de condições entre atletas), não faz sentido permitir que um atleta se apresente para a luta na categoria de cima (Mackenzie ficou a 2 libras da categoria mosca) e a luta continue ocorrendo.   

Na conferência de imprensa logo após a luta, Dern revelou que o UFC a convidou para passar um tempo em Las Vegas fazendo um trabalho específico em seu centro de tecnologia com vistas a enquadrá-la na categoria palha. Não é preciso ser nenhum especialista em nutrição e fisiologia para concluir que com um pouco de dedicação a brasileira, de apenas 25 anos, não só perderá os 3kg que precisa, como desenvolverá mais músculos e, consequentemente, explosão e velocidade. Duas valências que a ajudarão muito a chegar no topo da divisão.

Preliminares: show de finalizações e nocautes

Se o card principal foi show, as preliminares não deixaram nada a desejar. Cezar Mutante atropelou rápido o kickboxer do Glory Karl Roberson. Mutante derrubou rápido e definiu com um katagatame a 4min45s. Ao microfone pediu uma luta com o desafeto Paulo Borrachinha, que hoje é 15º do ranking. Aliás, Mutante já deveria ser o 7º brasileiro neste ranking. Se não fosse a péssima arbitragem canadense, que deu vitória a Elias Theodorou contra o brasileiro, Cezar estaria vindo de uma sequência de 6 vitórias consecutivas. Impressionante a evolução do vencedor do TUF 1 após a seríssima operação na coluna em 2015.

Outro que deu show de chão foi o campeão mundial e do ADCC Davi Ramos, que desta vez não teve problemas com a balança e mostrou que veio para dar muito trabalho na divisão. Em pouco mais de 4 minutos, Davi derrubou o judoca, que já foi da seleção alemã, Nick Hein, chegou a suas costas com uma bela técnica (fintando uma kimura) e o obrigou a bater com um mata-leão com queixo e tudo. Esta é a segunda finalização do aluno de Casquinha e Minotauro em três lutas no UFC.

E não foram só os lutadores de jiu-jítsu que sobraram no chão. o russo campeão de sambo, Alexei Oleynik, da ATT também surpreendeu. Aos 40 anos, Oleynik fez sua 67º luta, conquistando a 44º finalização de sua carreira em cima do brasileiro Junior Albini. Albini deixou Oleynik abraçá-lo e o derrubou. A armadilha já estava encaixada e o brasileiro, mesmo quase montado, foi a 12ª vítima do inacreditável Ezequiel do russo.  

Outro que certamente entrou na disputa dos bônus do evento foi Elizeu Capoeira. Se não fosse o nocaute de Lyoto sobre Belfort, o atleta da CM System certamente teria embolsado a premiação pelo chute rodado certeiro que aplicou no duríssimo Sean Strickland, emplacando sua 5ª vitória consecutiva no UFC. Por tudo que tem mostrado, Capoeira é outro que já está merecendo um oponente ranqueado entre os meio-médios.

Warlley Alves também mereceu aplausos por sua performance contra o duríssimo Sultan Aliev, segundo me disse o próprio Conan Silveira, um dos mais duros atletas do Daguestão que treinam hoje na ATT. Warlley resistiu ao grappling do gringo e impôs seu melhor jogo em pé, fechando o olho esquerdo do russo e obrigando os médicos a impedi-lo de voltar no 3º round.

Markus Maluco abriu a noite aplicando um mata-leão em James Bochnovic no 1º round.Thales Leites e Alberto Miná, que perderam suas lutas nas preliminares, também tiveram excelentes atuações. Thales chegou perto de finalizar o sueco Hermansson no 2º round e caminhava para uma vitória por pontos até ser surpreendido pelo ground and pound a 2min10 do 3º round. Já Alberto Miná foi surpreendido pelo russo Ramazan Emeev, ex campeão do M-1, que foi superior em pé e no chão nos três rounds, vencendo na decisão.

Sábado que vem tem mais Brasil no UFC Chile, quando entram em ação Demian Maia, Vicente Luque, Michel Trator, Alexandre Pantoja, Poliana Botelho e Felipe Silva. Este, aliás, será o assunto da minha coluna de sexta feira. Até lá.

VITOR BELFORT: 22 ANOS ENTRE OS TOP 10 - 09/05/2018

Finalmente chegou a tão aguardada semana do UFC Rio 9. E o fã de MMA que vier à Jeunesse Arena, na Barra da Tijuca, no próximo sábado, terá um cardápio variado para curtir o esporte. Dentre os 13 combates deste UFC 224 teremos vários talentos da nova safra do MMA nacional (como Mackenzie Dern, John Lineker e Junior Albini), nossa campeã Amanda Nunes defendendo pela segunda vez seu cinturão, contra Raquel Pennington, e Ronaldo Jacaré enfrentando Kelvin Gastelum na luta que deverá definir o próximo desafiante ao cinturão dos pesos médios. Já para os mais saudosistas, que acompanham o esporte desde os anos 90, a luta que valerá o ingresso é o duelo entre os dinossauros Lyoto Machida e Vitor Belfort, dois dos 13 brasileiros que já foram donos do cinturão do UFC.

A três semanas de completar 40 anos, Lyoto já deixou claro que não pretende se aposentar tão cedo. Com 31 lutas de MMA no currículo, o lutador que revolucionou o esporte trazendo o caratê para o MMA, tendo ficado invicto por sete anos (da estreia, em maio de 2003, até perder o cinturão para Shogun, em maio de 2010), já avisou que pretende lutar por mais cinco anos em alto rendimento e que ainda sonha com o cinturão dos médios.

Já Vitor Belfort, com seus 41 anos recém-completados dia 1º de abril e 40 lutas de MMA, garantiu que esta será sua última luta no UFC. Por tudo o que representou para o esporte, Vitor não poderia ter uma despedida mais justa, participando de seu 26º UFC (9º no Brasil), e na sua cidade natal.

Único lutador na história do MMA a conseguir se manter por quase 22 anos competindo entre os melhores sem nunca ter saído das listas de Top 10 do ranking de suas categorias (seja no pesado, meio-pesado ou médio), Belfort se testou (entre 1996 e 2018) contra os maiores nomes de duas gerações. De Randy Couture, Dan Henderson, Chuck Liddell, Sakuraba e Wanderlei Silva a Chris Weidman, Jon Jones, Overeem, Rockhold, Bisping e Jacaré. E no próximo sábado completará a lista com mais uma lenda do esporte.

Vitor Gracie: Vomitando pela honra

Lembro bem do dia em que Carlson Gracie me chamou no meio daquele Brasileiro de jiu-jítsu de 1994 na academia AKXE e avisou: “Fica de olho no ‘Vitinho’, este garoto é um fenômeno, vai ganhar peso e absoluto no juvenil azul”. Dito e feito. Nos anos subsequentes, continuei acompanhando de perto a trajetória de Carlson e seu “Fenômeno”, só que não mais nos tatames.

Voltando do UFC 9, em Detroit (maio de 1996), fui ao encontro de Carlson e Belfort, que tinham se mudado para Los Angeles em 1995. Carlson não me deixou ficar em hotel e, nos quatro dias hospedado em seu apartamento, acabei acompanhando de perto a dura batalha dos dois para conseguirem divulgar a academia, recém inaugurada, nas redondezas de West Hollywood.

Carlson saia com o pupilo pelas ruas convidando seguranças, policiais ou lutadores de outras academias para testes. Num dos casos mais marcantes, que me foi contado por Vitor, ele tinha acabado de almoçar quando um wrestler de mais de 100kg adentrou a academia para o confere. Com a barriga cheia, Vitor ainda tentou argumentar com o mestre para pedir que o rapaz voltasse no horário da noite, mas não houve acordo. “Se o cara passar a mão na sua mulher num restaurante você vai dizer que está de barriga cheia? Bota o almoço para fora e sai na porrada com esse cara”, disse o mestre. Belfort obviamente acatou.

De desafio em desafio a academia encheu de alunos. Aos poucos a fama de Belfort e Carlson se espalhou e até ex-lutadores do UFC como Oleg Taktarov passaram a aparecer para treinar, o que acabou deixando Carlson ainda mais seguro com relação ao futuro do pupilo. “Está aprendendo chão comigo e treinando boxe todo dia na LA Boxing. Este garoto é talhado para ser campeão. Estou lançando ele aqui nos EUA como Vitor Belfort Gracie, porque o nome Gracie é muito forte. Te garanto que ele já está em condições de vencer qualquer um. Pode botar o Hugo Duarte, Marco Ruas ou Ken Shamrock que ele vence”, me disse a época o polêmico Carlson.

Quatro meses após aquela reportagem publicada na Tatame, Vitinho faria sua estréia no evento havaiano Superbrawl, atropelando o grandalhão Jon Hess em 12 segundos e sendo imediatamente convidado a estrear no torneio do UFC 12 em fevereiro de 1997. Algo me dizia que este evento seria histórico e, lembrando das palavras premunitórias de Carlson, resolvi investir minhas economias e voei, em pleno carnaval carioca, para Nova York. O evento acabaria sendo transferido de última hora para o Alabama, graças à proibição do UFC em Nova York, mas a ordem dos fatores não alterou o produto. “O Fenômeno” atropelou Tra Telligman e Scott Ferrozzo, vencendo o torneio absoluto do UFC aos 19 anos e apresentando ao mundo o nome do mestre Carlson Gracie.

Desde então passei a acompanhar de perto os momentos mais marcantes da carreira do Fenômeno. Estava a beira do octógono em seu primeiro tombo, a derrota para Randy Couture, no UFC 15 (1997), que acabou sendo um importante aprendizado. Tanto que um ano depois Belfort chegou desacreditado no UFC 17.5 em São Paulo contra o temido campeão do IVC Wanderlei Silva, mas saiu consagrado após um nocaute em 44 segundos.

Cinco meses após a vitória em São Paulo, Belfort passaria por mais um momento traumático em sua carreira. A briga com o mestre após a derrota para Sakuraba no Pride 5. Mas com a ajuda dos colegas da BTT, Belfort deu a volta por cima e conseguiu mais uma virada na carreira com as quatro vitórias seguidas no Pride, vencendo pesos-pesados como Gilbert Yvel e Heath Herring (2000 e 2001).

Empurrão de Silvio Santos

Em 2001 a vida de Belfort se transformaria num verdadeiro roteiro de filme. Convidado por Silvio Santos ele participou do reality show “Casa dos Artistas”, de onde saiu casado com sua esposa, Joana Prado. Graças à popularidade nacional do casal, o Homem do Baú resolveu acatar um pedido do lutador e transmitiu no SBT sua luta com Chuck Liddell no UFC 37.5 (2002). E lá fui para a minha primeira de tantas coberturas em Las Vegas. Belfort perdeu na decisão, mas garantiu um recorde de audiência para o SBT na madrugada, com 11 pontos. Seria a primeira vez que o esporte mostraria seu potencial de audiência na TV aberta.

Mas infelizmente uma armadilha do destino transformou o roteiro do casal mais popular do Brasil em drama nacional. No fim de 2003, logo após nocautear Marvin Eastman, quando já se preparava para lutar pelo cinturão contra o campeão Randy Couture, Belfort recebeu a notícia do desaparecimento de sua irmã. Obviamente o brasileiro não tinha a menor condição psicológica para lutar a revanche naquele momento. Vencer parecia algo absolutamente fora de questão, mas Belfort decidiu lutar. De alguma maneira, os deuses do MMA resolveram interferir, talvez comovidos com o drama por que passava aquele guerreiro que tanto contribuiu para a história do esporte. Um cruzado aos 49 segundos do 1º round abriu um corte no supercílio de Couture e obrigou Big John a parar o combate. Paradoxalmente, Belfort conquistava seu principal título no momento mais triste de sua vida.

Obviamente o desaparecimento da irmã impactou diretamente na vida do lutador, que passou os momentos mais difíceis da sua carreira entre 2004 e 2006 (quatro derrotas em seis lutas). Mas a paternidade e o apoio da esposa, Joana, foram fundamentais. Com o nascimento dos três filhos (Davi, Vitória e Kyara), Belfort recuperou a motivação e conseguiu uma nova guinada na carreira. Entre 2007 e 2009 engatou uma sequência de cinco vitórias (duas no Cage Rage, duas no Affliction) e voltou ao UFC nocauteando Rich Franklin e conquistando o direito de disputar o cinturão contra Anderson Silva.

O confronto entre o mais popular lutador do Brasil, único que conseguira atingir o chamado mainstream, e o campeão Anderson Silva permitiu um alinhamento perfeito de planetas. Catorze anos depois da estréia no UFC 12, tive o prazer e a honra de dividir a beira do octógono com 42 colegas da imprensa brasileira naquele UFC 126 em Las Vegas. Nesta que foi a primeira noite em que o MMA teve status de futebol e o Brasil parou para ver o campeão aplicar o primeiro nocaute na carreira do “Fenômeno”, decretando a grande virada do esporte no Brasil.

Depois da derrota para Anderson, Belfort venceu Akiyama e Anthony Johnson no 1º round e foi chamado em cima da hora para substituir Chael Sonnen numa luta com Jon Jones valendo o cinturão dos meio-pesados. Aceitou e quase surpreendeu o campeão com um armlock no 1º round. Acabou sendo finalizado com uma chave kimura no 4º round, mas saiu da luta com a moral elevada junto aos fãs e organização.

Com a liberação do tratamento de reposição de testosterona em 2012, Belfort passou a viver o melhor momento de sua carreira. Em 2013 nocauteou Michael Bisping, Dan Henderson e Luke Rockhold, conquistando a chance de lutar pelo cinturão dos médios novamente, agora contra Chris Weidman, em maio de 2015. No final de 2014, porém, as regras seriam modificadas novamente. Como sua produção natural de testosterona era muito abaixo do padrão normal, por conta do hipogonadismo desenvolvido em decorrência do uso de testosterona nos tempos em que não havia exame antidoping, Belfort passou a se apresentar muito abaixo do seu potencial e, desde a derrota para Weidman, teve uma queda acentuada de rendimento, sendo nocauteado na sequência por Mousasi, Jacaré e Kelvin Gastelum. Graças a seu histórico, mesmo com todas estas derrotas, Belfort continuou figurando entre os 10 melhores do ranking.

Em sua última luta, em junho de 2017 contra o também veterano Nate Marquardt, Belfort voltou a vencer na decisão, mas percebeu que não há razões para continuar lutando tão aquém do que pode. E aproveitando o fim do contrato com o UFC, anunciou sua última luta em casa, no Rio de Janeiro.

Independentemente do resultado, Belfort deixa para o esporte um legado de grandes lutas e muitos nocautes. Por tudo que fez por este esporte nos últimos 22 anos, O Fenômeno deveria ser automaticamente levado ao Hall da Fama do UFC. Mas como ele mesmo disse, o que mais importa não é o reconhecimento dos dirigentes e sim de seus fãs. E estes sem dúvida sabem o que este grande ícone representou na construção da história do esporte e por isso, independente do resultado da luta no sábado, devem lhe presentear com a maior honraria que um grande campeão pode merecer em sua última luta: aplausos de pé.

UFC 9: QUANDO OS SOCOS FORAM PROIBIDOS - 02/05/2018

Você sabia que já houve uma edição do UFC onde os socos de mão fechada foram proibidos a poucas horas do evento começar? Pois é. Se me contassem eu diria que é mentira, mas coincidentemente esta confusão ocorreu na primeira edição que cobri do UFC, no dia 17 de maio de 1996.

Aliás, a 9ª edição do evento, realizada em Detroit, Michigan, foi histórica e pioneira em diversos aspectos: foi a primeira a tentar abolir os torneios, adotando o formato de superlutas, que perdura até hoje; foi a primeira a lotar uma arena com 10 mil pessoas; e também foi a primeira realizada com regras especiais, acordadas em cima da hora para que o evento pudesse ocorrer e aplacar a ira dos políticos republicanos que tentavam a todo custo proibir os eventos de vale-tudo. O show seria marcado ainda pela derrota de Amaury Bitetti, o fenômeno da academia Carlson, para Don Frye e pela estreia vitoriosa de Rafael Carino, faixa-marrom de André Pederneiras e, até então, desconhecido no Brasil.

Jeitinho brasileiro no UFC

Motor City Madness, este era o nome dado pelos promotores à 9º edição do UFC, mas o nome correto deveria ser UFC 9: o jeitinho brasileiro. Afinal, nunca ele foi tão presente numa edição do UFC. Devido à campanha do senador republicano John McCain (em 2008 perderia a eleição presidencial para Barack Obama), que escreveu uma carta contra o "espetáculo brutal" publicada em diversos veículos americanos, iniciou-se uma batalha legal nos tribunais de Detroit que terminou às 16h30 do dia do evento com uma grande derrota jurídica do esporte, na época chamado de NHB (No Holds Barred). Na realidade, o UFC 9 só ocorreu graças ao jogo de cintura e uma boa dose de jeitinho brasileiro do árbitro Big John McCarthy, que conseguiu, de última hora, negociar regras especiais com a comissão local, proibindo cabeçadas e socos de mão fechada. Ficou acordado inclusive que o lutador que infringisse as regras poderia sair do evento preso.

Na prática, só os protagonistas da luta principal da noite, Dan Severn e Ken Shamrock, seguiram as regras. Aliás, trocando tapas de mão aberta por 30 minutos, os dois fizeram uma das piores lutas da história do evento. Nas outras cinco lutas do evento, os socos de mão fechada comeram solto e ninguém foi preso.

Uma outra ode ao jeitinho brasileiro ocorreu nos bastidores do hotel, numa substituição de última hora digna daqueles pequenos eventos nacionais que recorrem a lutadores da plateia. O detalhe é que o substituto de última hora era o bicampeão olímpico de wrestling, Mark Schultz. Descoberto circulando no hotel com seu professor de jiu-jítsu, o brasileiro Pedro Sauer, Schultz foi convidado para substituir Dave Beneteau, que deveria enfrentar o vice-campeão do UFC 8, Gary Goodridge, e se machucou um dia antes da competição. A fama de Schultz nos EUA lhe rendeu uma irrecusável proposta da empresa que organizava o evento na época, a SEG (Semaphore Entertainment Group): 50 mil dólares para fazer uma única luta. Na época, Schultz passava por um drama familiar. Quatro meses antes do UFC 9, seu irmão e mentor Dave Schultz, também campeão olímpico, havia sido assassinado pelo treinador John DuPont. Uma história amplamente noticiada pela imprensa que, certamente, impulsionou ainda mais a venda de pay-per-views, tanto que viria a se transformar em filme em 2014 (Foxcatcher), concorrendo e ganhando vários prêmios.

Naqueles tempos, quando “tamanho não era documento”, os 20kg de diferença entre Schultz e Beneteau eram uma “besteira”, afinal de contas, no mesmo card, Mark Hall (86kg) venceria Koji Kitao (170kg) em 40 segundos.

Nos bastidores, o mestre de Schultz, Pedro Sauer, me confessou: “Aposto contigo que ele vai dar um pau neste Goodridge. O cara é tão duro que o Rickson só conseguiu finalizá-lo três vezes em trinta minutos de treino, isso sempre por baixo”, me confidenciou o faixa-preta de Rickson. Dito e feito. Mesmo sendo mais leve, Schultz derrubou Goodridge três vezes, dominando a luta toda e terminando montado e batendo. Graças à excelente atuação e a mãozinha que deu para catapultar as vendas de 141 mil pacotes de Pay-Per-View, Mark acabou embolsando o dobro do combinado: US$ 100 mil.

Bitetti x Frye: a 2ª derrota do Brasil em 17 lutas no UFC

Com a saída de Rorion e Royce, na 5ª edição, o show, inicialmente concebido para comprovar a superioridade de uma modalidade sobre outras, foi comprado pela SEG, que passou a ter como principal foco as vendas de Pay-Per-View. Ou seja, não havia mais como fazer lutas sem limite de tempo. As vitórias de Royce Gracie em três torneios (UFC 1, 2 e 4) e a vitória de Marco Ruas no UFC 7 deram aos lutadores brasileiros uma pecha de oponentes a serem batidos. Na realidade, até então, Ruas e Royce tinham feito 17 lutas no UFC, só tendo perdido uma (Ruas perdeu na decisão para Taktarov). Anunciado como melhor e mais completo faixa-preta de Carlson Gracie e com muito mais credenciais no jiu-jítsu do que Royce, o campeão brasileiro absoluto de jiu-jítsu Amaury Bitetti chegou a Detroit como uma das grandes atrações da noite, enfrentando o vencedor do UFC 8, Don Frye, que havia vencido as 3 lutas do torneio num total de pouco mais de três minutos.

Foi curiosa a experiência de vir do Japão, um mês antes, onde cobri a participação de seis brasileiros no UVF 1, frente a uma lotada, porém silenciosa Budokan Arena, e ter a experiência de assistir na sequência a ensurdecedora Cobo Arena lotada gritando “USA! USA!” sem parar durante a luta entre Amaury e Don Frye. Ali, entendi o tamanho da rivalidade entre Brasil e Estados Unidos no esporte, que certamente ajudou a alavancar a venda de Pay-Per-Views do show.

Em tempos onde não havia categorias de peso, Amaury Bitetti, com apenas 1,73m e 85kg, que hoje certamente lutaria entre os meio-médios, teve dificuldades para levar Don Frye (1,85m/95kg) para o solo e acabou levando a pior, obrigando o juiz a interromper a luta a 9 minutos 22 segundos devido a um forte sangramento.

Quando foram colocadas categorias de peso, Amaury Bitetti teve nova oportunidade no UFC e mostrou seu valor vencendo Maurice Travis, Alex Andrade e Dennis Hallman.

Mas se Amaury decepcionou no UFC 9, o faixa-marrom de André Pederneiras Rafael Carino (1,97m/113kg), que na época só tinha 23 anos de idade, fez uma estreia de gala. Seguindo os conselhos do mestre que fazia seu córner ao lado de Vitor Shaolin, Carino só precisou de 5 minutos e 32 segundos para derrubar, montar e obrigar Matt Anderson (1,89m/105kg) a desistir com socos na guarda. A foto de Carino montado seria estampada na capa da primeira “Tatame” em formato revista (até então era produzida em formato tabloide).

Severn x Shamrock: a luta mais chata da história

Depois de conseguir empatar com Royce no UFC 5 numa luta de 36 minutos (até hoje a luta mais longa da história do evento), Ken Shamrock acabou se beneficiando com a saída do Gracie do show logo após esta edição (Rorion não aceitou a limitação de tempo imposta pela TV e decidiu vender sua parte). Mesmo nunca tendo vencido um torneio do UFC, Ken ficou como detentor do cinturão de superfighter, botando o título em jogo em quatro oportunidades e vencendo todas elas. Primeiro Severn (UFC 6), depois Taktarov (UFC 7) e Kimo (UFC 8). Mas com a vitória de Severn no primeiro Ultimate Ultimate, quando passou por Paul Varelans, Tank Abbott e Taktarov na mesma noite, lhe foi concedida a revanche. E ela ocorreu como superluta do UFC 9.

Ao contrário da primeira luta, quando Shamrock só precisou de 2 minutos para finalizar “A Besta” com uma guilhotina, desta vez a luta transcorreu 30 longos e monótonos minutos de “taparia”. No finalzinho, Dan Severn levou Shamrock para o chão, mas este conseguiu raspar e caiu montado e assim permaneceu por alguns minutos. Severn conseguiu sair e caiu novamente por cima, passando o último minuto da luta socando de dentro da guarda de Shamrock, que foi salvo pelo gongo. Na prorrogação, mais 3 minutos de troca de tapas e os juízes resolveram dar a vitória a Severn.

Apesar das excelentes vendas Pay-Per-View, o formato de lutas casadas não agradou o público, e na edição seguinte a SEG se veria obrigada a retornar ao formato torneio, consagrando Mark Coleman como novo campeão ao vencer Don Frye na final do UFC 10.

O ETERNO CALCANHAR DE AQUILES DO MMA BRASILEIRO - 27/04/2018

A derrota de Edson Barboza para Kevin Lee no UFC do último sábado expôs mais uma vez a causa mais recorrente das derrotas brasileiras no UFC: o wrestling. Ou melhor, a falta dele. Em pleno 2018, ano em que o UFC completa 25 anos de existência e o nível do esporte está cada vez mais elevado, não deveria ser tão comum que tantos lutadores brasileiros continuassem entrando no octógono com um alvo na testa, seja pela incapacidade de levar a luta no chão (wrestling ofensivo), no caso dos lutadores que têm como base o jiu-jítsu, ou pela impossibilidade de manter a luta em pé (wrestling defensivo), caso de strikers como Edson Barboza.

O fato é que, ao contrário dos americanos, que nas últimas duas décadas tiveram a preocupação de importar os mais capacitados mestres de jiu-jítsu brasileiro para suas equipes de MMA, aqui no Brasil não se fez o mesmo com a farta mão de obra qualificada do wrestling americano. O resultado começa a aparecer com clareza na terceira geração do esporte. As “fábricas” de lá cada vez mais produzem atletas com os três assessórios (preparados em pé, no chão e na parte de quedas). Já aqui, salvo raras exceções, a maioria dos atletas ainda tem sido apresentada ao mercado com dois assessórios. Via de regras, o lutador de MMA brasileiro chega a faixa preta de jiu-jítsu e depois aprende muay thai (ou boxe). Ou vice-versa.

A parte de quedas e grade, normalmente só entra no treinamento quando o atleta começa a planejar sua estréia no MMA.

O Mestre João Alberto Barreto, árbitro do UFC 1 e faixa-coral considerado por Hélio Gracie como melhor lutador de Vale-Tudo e instrutor (não Gracie) formado por ele, lembra que a realidade do esporte hoje é totalmente distinta dos primórdios do UFC. “Não há como negar que o wrestling é a modalidade mais importante no MMA. Hoje quem tem a possibilidade de definir onde a luta vai acontecer, no solo ou em pé, já começa em vantagem”.

UM RANÇO HISTÓRICO

Curiosamente, esta carência do Wrestling no MMA nacional tem raízes históricas. Não da geração de Carlson, Robson e João Alberto (anos 50 e 60), mas da geração dos anos 80.

Tudo começou com a rivalidade entre Muay Thai e Jiu-Jitsu, que teve seu primeiro capítulo oficial no Vale-Tudo do Maracanãzinho, em 1983. Para enfrentar os representantes do Jiu-Jitsu (Fernando Pinduka, Renan Pintanguy e Marcelo Behring), Flávio Molina e seus alunos (Marco Ruas e Eugênio Tadeu) se aliaram ao pessoal da Luta-Livre (Brunocilla e João Ricardo) e da Luta Olímpica (Mestre Roberto Leitão). O confronto terminou empatado, levando a consagração de Marco Ruas e Eugênio Tadeu. Desde então, o Jiu-Jitsu passou a encarar Wrestling e Muay Thai como aliados da Luta-Livre. Um ranço que perduraria por muito tempo.

Com a explosão do UFC, onde os wrestlers passaram a ser os principais rivais do Jiu-Jitsu, a disputa entra a guarda do Jiu-Jitsu contra o Ground N' Pound se exacerbou. Buscar uma aliança com a modalidade dos principais rivais passou a ser visto como sinal de fraqueza pelas principais lideranças da Arte Suave, mas as vitórias de membros da Chute Boxe (Wanderlei) e Boxe Thai (Pedro Rizzo) sobre wrestlers, em eventos como IVC e UFC, acabaram levando Mario Sperry a buscar uma improvável parceria com Luiz Alves (aluno de Flávio Molina e líder da Boxe Thai). Os resultados da aliança entre Muay Thai e Jiu-Jitsu não tardaram a aparecer nas vitórias de Minotauro e Sperry no Pride.

Mas o crescimento no cenário mundial de rivais diretos do Wrestling como Randy Couture, Dan Henderson e Mark Kerr, todos já com treinadores de Jiu-Jitsu, levou aos lideres da BTT a entenderem que seria essencial entender os estilo dos wrestlers. Como o Wrestling brasileiro ainda era muito ligado a Luta-Livre; até mesmo pelo fato de a primeira geração da modalidade ser composta por membros do Ruas Vale-Tudo Antoine Jaoude e Renato Babalú, decidiu-se importar a solução.

Com a ajuda de Marco Vinícius de Lucia (dono da Beverly Hills Jiu-Jitsu Club), a BTT trouxe o condecorado wrestler americano Darrel Gohlar. O homem que havia vencido Randy Couture em seis oportunidades em competições de luta greco romana literalmente revolucionou a maneira de lutar dos representantes do Jiu-Jitsu da equipe formada basicamente por faixas pretas de Carlson Gracie.

Os resultados apareceram rápido em vitórias de Murilo Bustamante, Vitor Belfort e Rodrigo Minotauro contra wrestlers no UFC e Pride. Com o tempo, Gohlar passou a dar aulas também na Nova União e Gracie Tijuca. Em quase seis anos trabalhando no Brasil pode-se dizer que Gohlar teve uma influencia marcante no estilo de grandes nomes do Jiu-Jitsu. Infelizmente, com o fim da era Pride, o americano passou a depender de bicos e, mesmo apaixonado pelo Brasil, foi obrigado a voltar.

Nos últimos 10 anos, a rivalidade entre Jiu-Jitsu e Luta-Livre acabou e muita coisa mudou pra melhor no Wrestling brasileiro. Com o apoio do COB, as seleções brasileiras de luta olímpica passaram a fazer intercâmbios nas maiores potências e também participar das principais competições mundiais da modalidade. O conhecimento técnico adquirido por esta segunda geração do Wrestling brasileiro hoje já é compartilhada no MMA nacional por intermédio de nomes como Antoine Jaoude (KS), Piratiev (Nova União), Marcelo Zulu (Cm System) e William Naim (Chute Boxe Diego Lima).

Ex-lutador de MMA e maior nome da história da luta olimpica no Brasil, Antoine Jaoude tem ajudado a atletas brasileiros de diversas equipes. “Não adianta a gente ensinar todas as técnicas de Wrestling para o cara que objetiva o resultado imediato no MMA, por isso eu usei a experiência que tive nos ringues para fazer uma adaptação e ensinar as técnicas que se aplicam melhor ao MMA, principalmente na luta de grade. O ideal seria que a nova geração já começasse a praticar desde a base porque, além da bagagem técnica, o Wrestling te traz uma bagagem de treinamento que dificilmente você vai encontrar em outros esportes. Isso sem contar o fato de a modalidade ser a terceira que disputa mais medalhas nas Olimpíadas (54), só ficando atrás do Atletismo (115) e Natação (92)”, opina Antoine, que já treinou mais de 20 brasileiros e hoje ajuda Warlley Alves.

Outro ex- membro da seleção brasileira de Greco-Romana que passou a se dedicar ao MMA é Marcelo Zulu, hoje treinador oficial da modalidade na equipe curitibana CM System. “Pela seleção tive a oportunidade de viajar por mais de 30 países, conhecer biotipos e técnicas diferentes. Mas não adianta ensinar técnicas específicas de competição, nossa função é trazer esta experiência para a realidade do MMA. Nada contra quem importe treinadores de fora, mas hoje existem pelo menos 10 competidores da minha geração que têm condições de fazer um bom trabalho como treinadores de Wrestling para o MMA. Na minha opinião toda equipe de MMA deveria ter um coach de Wrestling”, opina Zulú.

Outro americano importado por uma equipe brasileira de MMA foi Eric Albarracin, mentor do campeão olímpico Henry Cejudo, atualmente o mais condecorado wrestler em atuação no UFC. Eric passou três anos treinando atletas da Team Nogueira e revela que a rotina como professor de Wrestling no Brasil não era fácil. “O treinamento de Wrestling é duríssimo, tem que vir da base. Aqui as pessoas não estão acostumadas e a grande maioria acabava não treinando como deveria. Mas quem se dedicou como os irmãos (Patricky e Patrício) Pitbull colheu frutos”, garante Albarracin.

GSP e Canto apontam o Judô como alternativa

Mas vale lembrar que as técnicas do wrestling não são as únicas eficientes para levar o oponente ao solo. Mês passado, um dos maiores campeões da história do UFC, o canadense Georges St-Pierre, carateca que conseguiu desenvolver seu jogo de quedas a ponto de ser considerado um dos melhores da história na aplicação do wrestling para o MMA, colocou em seu instagram um vídeo onde demonstrava uma “queda nova” com um parceiro de treinos com o comentário: “Treinando com o meu amigo uma opção nova tendo o oponente contra a grade, o ouchi gari. Como seria bom se tivesse aprendido isso antes”.

Um dos grande nomes da história do judô brasileiro, Flávio Canto bate nesta tecla há muito tempo. “O judô é subestimado e pouco treinado no MMA. O Brasil é uma potência no esporte. Os EUA têm uma tradição extraordinária no wrestling, mas tem um judô pobre historicamente. Acho fundamental os atletas de MMA brasileiros treinarem o wrestling, mas sem dúvida o judô de alto nível que temos aqui pode ser um diferencial para o estilo brasileiro de derrubar”.

Canto dá como exemplo prático a luta entre Leonardo Leite (ex-judoca da seleção) e o wrestler Phil Davis, na qual o brasileiro não foi derrubado em nenhuma oportunidade. Outro diferencial interessante lembrado por Canto é que as quedas no judô usam mais os pés, enquanto as de wrestling, em sua maioria, são aplicadas com as mãos. “Quedas como osoto gari, ouchi gari e kochi gari funcionam muito bem na grade. Lutadores como Demian e o próprio Khabib Nurmagomedov fazem isso muito bem ”, analisa Canto, ressaltando que o intercâmbio entre judô, jiu-jítsu e MMA seria um enorme diferencial para as três modalidades. “A maioria dos judocas tem um chão fraco, assim como a maioria dos lutadores de jiu-jítsu e MMA tem um em pé fraco. Somos potências mundiais nestas áreas. O Brasil precisa abrir a cabeça”.

A exposição de Flávio Canto, no mínimo, chama a reflexão. Muitas vezes, o que a gente procura está ao nosso lado, mas não conseguimos ver. Talvez um laboratório entre grandes nomes do judô e wrestling brasileiro, junto com lideranças do MMA, pudesse ser um primeiro passo para traçar novas bases para treinamentos de queda para a geração que já está em atuação.

Para aqueles que começam agora sonhando um dia chegar ao maior evento do mundo, vale não cometer os mesmos erros das gerações passadas. Não deixe para adicionar o wrestling ou o judô por último.

PRODUZINDO SUPLEMENTOS E DESTRUINDO REPUTAÇÕES - 23/04/2018

Após mais de um ano de inferno astral, os brasileiros Marcos Rogério “Pezão” de Lima, Rogério “Minotouro” Nogueira e Junior “Cigano” dos Santos foram enfim liberados pela USADA a voltarem a competir no UFC. A agência antidopagem identificou duas farmácias de manipulação responsáveis pela venda dos suplementos contaminados com hidroclorotiazida (no caso de Minotouro e Cigano) e anastrozol e hidroclorotiazida (no caso de Pezão).

Após terem os resultados dos testes revelados pela USADA e por toda imprensa marcial em 2017, os três decidiram pagar do próprio bolso (uma média de US$ 500 por suplemento) para analisar cada produto que tomavam em um laboratório certificado pela WADA em Salt Lake City. Lá, conseguiram provar a contaminação cruzada das amostras. E o que é pior, os testes mostraram que os suplementos continham muitas outras substâncias totalmente proibidas na lista da USADA.

“Cigano”, “Minotouro” e “Pezão” se juntam a Josh Barnett, Yoel Romero, Jim Wallhead e vários outros atletas que, nos últimos meses, ficaram impedidos de trabalhar e tiveram suas reputações manchadas por culpa da incompetência de empresas que deveriam zelar pela saúde dos atletas. E vale lembrar que isso não tem ocorrido só no MMA. Há alguns meses uma reportagem veiculada no Esporte Espetacular mostrou uma pesquisa conduzida pelo próprio Comitê Olímpico Internacional em 2004. Ao todo, 634 marcas de suplementos foram avaliadas. Mais de 18% continham drogas que não estavam listadas nos rótulos.

Obviamente, com as farmácias de manipulação sendo cada vez mais solicitadas e sem uma entidade que a regulamente, estes números cresceram ainda mais. No Brasil, nos últimos dois anos, foram ao menos 13 casos comprovados de contaminação cruzada, em um total de 48 testes positivos. Ou seja, cerca de 25%. Estão nesta lista atletas consagrados como Thomas Bellucci (tênis), Murilo (vôlei), Ana Claudia Lemos (atletismo), André Santos (futebol) e César Ciello (natação). Uns perderam patrocínios, outros decepcionaram fãs e familiares e todos tiveram seus nomes veiculados em reportagens sobre doping e trapaças nos esportes.

No comunicado, a USADA deixou claro que passará a trabalhar com agências reguladoras no Brasil para investigar mais a fundo os casos de contaminação nestas farmácias de manipulação e outras espalhadas pelo Brasil. Que assim seja. Absurdos como este têm que ser tratados com rigor. Se os responsáveis não sentirem no bolso e passarem a ter punições graves, continuarão atuando da mesma maneira. Além de responder processos por danos morais por todo prejuízo que causaram às carreira destes atletas, estas empresas têm que sofrer sanções governamentais duras.

Não cabe às entidades reguladoras jogarem a responsabilidade nos atletas, até porque na maioria dos esportes a suplementação é vista como uma ferramenta que tem a função de ajudar na recuperação do atleta. Não é o caso do MMA, e isso precisa ser compreendido pela USADA.

Um esporte onde o atleta leva o seu corpo ao limite diariamente, muitas vezes treinando mais de uma modalidade de combate por dia, a suplementação é absolutamente essencial para que o atleta consiga se recuperar para o dia seguinte e chegar ao fim do camp de treinamento apenas com lesões leves e em condições de lutar. É essencial que a USADA entenda a especificidade do treinamento de MMA e passe a agir ao lado dos lutadores, pressionando órgãos governamentais a punirem os mais perigosos trapaceadores: os produtores de suplementos contaminados.

REFLEXÕES SOBRE O UFC GLENDALE - 16/04/2018

Mais uma vez o UFC mostrou aos fãs que lutas bem casadas são o segredo de um grande evento, e mesmo sem um card recheado de estrelas, entregou mais um show que superou as expectativas, trazendo duas das melhores lutas de 2018

Gaethje: show x tática

Quem esperava que Justin Gaethje aprenderia a partir da sua primeira derrota para Eddie Alvarez que a estratégia kamikaze nem sempre é o melhor caminho, se enganou. Melhor para os fãs que puderam ver mais uma guerra protagonizada pelo violento atleta local, mas pior para Gaethje, que sofreu sua segunda derrota e, provavelmente, diminuiu em mais alguns anos sua longevidade no esporte.

Desde o início do combate, Dustin Poirier tomou a iniciativa conectando os melhores golpes e se antecipando às perigosas combinações do oponente, que sempre terminavam com um duríssimo low kick na perna da frente.

Assim como nas lutas contra Michael Johnson e Eddie Alvarez, Gaethje defendia a maioria dos golpes na guarda, outros tantos no rosto. E continuava andando pra frente sem parar.

Depois de perder os rounds iniciais, Gaethje, incentivado pela torcida, deu a impressão de que venceria o terceiro, iniciando mais uma impressionante reação, até que acertou uma dedada no olho do oponente pela segunda vez e foi punido por Herb Dean com um ponto. Com dois rounds perdidos e um empatado (9x9), só havia um caminho para Gaethje: buscar definir a luta.

A leitura corporal de Poirier dava a impressão de que a virada era questão de tempo, principalmente por apresentar um sangramento no supercílio esquerdo que já afetava sua visão. Sendo um wrestler da 1ª divisão dos EUA, certamente a queda e um ground and pound poderiam ser um excelente caminho, mas QI de luta  definitivamente não é o forte de Justin, que ligou o turbo e, mais uma vez, foi para a loteria. Com um boxe mais alinhado, Poirier não desperdiçou a oportunidade e, conectando uma série de golpes, obrigou Herb Dean a terminar a luta, decretando o nocaute técnico a 33 segundos do quarto round.

Se a partir desta segunda derrota os treinadores conseguirem mostrar a Gaethje que ele já tem a ferramenta mais importante no MMA atual, um wrestling de altíssimo nível, que pode definir onde a luta vai transcorrer dependendo da característica técnica do oponente, e que, se passar a usá-la, pode vir a ser um dos lutadores mais complicados para Khabib na divisão, certamente ele tem tudo para continuar subindo no ranking. Para isso, precisa apenas aprender a ler os oponentes e usar as armas que tem, o que é essencial não só para vencer, mas para se manter saudável, pois da maneira que vem lutando, o corpo de Gaethje certamente não aguentará mais cinco anos, quando deveria estar no ápice de sua carreira (35 anos).

Após esta bela vitória, Dustin Poirier deverá chegar à 5ª posição no ranking. Como sua última luta com Eddie Alvarez (3º) terminou sem resultado e Alvarez também venceu Gaethje, seria justo uma revanche para definir o próximo oponente do campeão. Uma outra opção seria um dos dois enfrentar o vencedor de Edson Barboza (4º) e Kevin Lee (7º), que lutam sábado que vem. Como nem Barboza e nem Lee lutaram com Poirier ou Alvarez, as possibilidade são muitas.

Levando em conta obviamente que Tony Ferguson (2º) e Conor McGregor (1º), que seriam os oponentes naturais para a primeira defesa de Khabib, estão “virtualmente” impossibilitados de lutar até o fim do ano. Tony acabou de operar o joelho e só volta em 2019. Já Conor, ninguém sabe ao certo se terá problemas com a justiça americana ou se lutará mesmo com Mayweather (nas tais regras híbridas). Cabe a nós aguardarmos o desenrolar dos próximos capítulos, já no próximo sábado no UFC Barboza x Lee em Atlantic City.       

Alex Cowboy: mais um show do bombeiro padrão

Num esporte onde surpresas e contusões podem surgir até a hora da pesagem, atletas como Khabib Nurmagomedov e Alex Cowboy não têm preço para um evento como o UFC. Chamado para substituir Matt Brown contra Carlos Condit, Alex Cowboy não pensou duas vezes, pegou o avião para Glendale e, pela quarta vez, partiu para apagar um incêndio, desta vez enfrentando um dos seus ídolos no evento, que inclusive já havia sido campeão interino dos meio-médios.

Vindo de uma derrota por nocaute para Yancy Medeiros, o aluno de André Tadeu, Tatá Duarte e Phillip Lima mostrou mais uma vez que não é mais apenas um brigador que proporciona lutas emocionantes. Sem abrir mão da sua característica de trocador, Oliveira tem se mostrado cada vez mais tático. Assim como fez contra Tim Means e Ryan LaFlare, Cowboy começou trocando e aproveitou o ímpeto de Condit para mudar de nível, mostrando boas transições na luta de solo. Depois de garantir a vitória no primeiro round, usou a mesma tática no segundo, surpreendendo Condit com uma guilhotina a 3 minutos 17 segundos e ainda garantindo um merecido bônus de 50 mil dólares por sua impressionante performance.       

Cara de Sapato já merece ser o sexto brasileiro no ranking dos médios?

Gilbert “Durinho” Burns e Antônio Cara de Sapato, dois grandes nomes do jiu-jítsu brasileiro mostraram nesta edição do UFC que estão andando a passos largos rumo ao ranking de suas divisões. Curiosamente, ambos vivem na Flórida hoje, onde buscam complementar a arte suave nas equipes Combat Club e American Top Team, respectivamente.

Durinho mostrou mais uma vez o resultado do trabalho do excelente holandês Henri Rooft, que o fez confiar no peso de sua mão conquistando o segundo nocaute seguido de sua carreira, agora sobre o estreante Dan Moret. Com o inglês já fluente, o niteroiense mostrou, na saída da luta, que já sabe jogar o jogo do UFC e pediu uma luta com o canadense Olivier Aubin-Mercier, que deveria enfrentá-lo há um mês, quando o brasileiro teve problemas com a balança. Aliás, tomara que Durinho dê uma atenção especial para esta questão, contratando um bom nutricionista.  Mercier tem o jogo perfeito para Durinho emplacar sua sétima vitória no UFC, e quem sabe começar a cavar um lugarzinho no mais disputado ranking do UFC.

Por falar em nutricionista, Cara de Sapato, que venceu o TUF Brasil 3 na categoria peso-pesado, baixou duas categorias com tranquilidade e continua andando a passos largos rumo ao ranking da divisão dos médios. No último sábado o paraibano conseguiu sua 5ª vitória consecutiva fazendo o duríssimo Tim Boetsch parecer um iniciante, batendo com um mata-leão ainda no primeiro round.  Se conseguir mais uma vitória, certamente Sapato se juntará a Ronaldo Jacaré (2º), Vitor Belfort (9º), Thiago Marreta (11º), Lyoto Machida (12º) e Paulo Borrachinha (14º) na elite de uma das mais disputadas categorias do UFC.

Arbitragem: dois pesos e duas medidas

Só pra não perder o hábito, os juízes pisaram na bola em duas lutas deste UFC Glendale, usando dois pesos e duas medidas. Na luta entre Wilson Reis e John Moraga não deram o devido valor às quedas do brasileiro e seu grappling efetivo que claramente o levaram dominar dois dos três rounds da luta. Já na luta entre Michelle Waterson e Cortney Casey, valorizaram excessivamente as quedas de Michelle em detrimento ao chão extremamente ofensivo da Cortney.

Assim como o knockdown é pontuado em 5 graus de contundência diferentes, as quedas também têm que ser avaliadas de acordo com um grau, assim como são pontuadas no judô, por exemplo. Avaliação parecida deve ser levada em consideração no jogo de chão. Nas regras atuais, tenho a impressão de que transições importantes como uma pegada pelas costas ou uma tentativa de armlock ou triângulo, que expõe o atacante a ser golpeado, não têm sido valorizadas como devem.

Até alguns anos, dada a popularidade de modalidades como boxe e wrestling nos EUA, era compreensível que as comissões reaproveitassem juízes com maior experiência e entendimento nestas modalidades. Não é mais o caso. Este ano o UFC completa 25 anos. Já existe uma geração de profissionais do MMA aposentada e ansiosa por conseguir continuar vivendo da modalidade a qual dedicou sua vida. Não faz mais sentido que um juiz do boxe, que pontua mais um jab do que um armlock quase encaixado da guarda, continue arbitrando um UFC.    

Ainda longe de Jon Jones

A ausência de grande ídolos do esporte, como Jon Jones, McGregor, Ronda e Anderson Silva, tem aumentado a ansiedade de nós fãs pela renovação e o surgimento de novos ídolos. Quando digo nós, me refiro a todo fã do esporte, inclusive o patrão Dana White, que só faltava roer as unhas sem esconder a ansiedade quando Israel Adesanya, apelidado de “novo Jon Jones” adentrou o octógono para enfrentar Marvin Vettori.

Em sua segunda luta no UFC, o nigeriano mais uma vez mostrou personalidade e criatividade, mas, pelo menos por enquanto, nada além disso. Depois de dar um bom show para os fãs nos dois primeiros rounds, Israel cortou um dobrado para evitar as quedas do italiano e terminou a luta com meio palmo de língua de fora, deixando claro que ainda tem muito que melhorar seu wrestling defensivo e também o chão. Caso se dedique aos treinos nestas duas áreas e continue merecendo um carinho especial do UFC na escolha dos próximos oponentes, poderá continuar evoluindo para um dia, quem sabe, ser comparado a Jon Jones ou Anderson Silva.

Não faltam bons strikers nesta divisão para que o UFC continue a investir em seu talento. Mas a esta altura do campeonato, Vettori mostrou que grapplers como Thales Leites, Derek Brunson, ou mesmo Erik Anders poderiam ser apostas altas demais para o ainda cru Adesanya.

QUEM PODERÁ VENCER KHABIB NURMAGOMEDOV? - 10/04/2018

Após mais uma atuação absolutamente dominante de Khabib Nurmagomedov, que finalmente conquistou o cinturão dos leves, esta foi uma pergunta recorrentes nas mídias sociais nas horas subsequentes a este que já entrou pra história como o mais “zicado” UFC que se tem notícia. Afinal de contas, após quase 10 anos de domínio absoluto, sem perder um round sequer em 26 lutas, será que existe algum lutador que consiga neutralizar seu jogo?

A total superioridade com que venceu oponentes do nível de Rafael dos Anjos, Edson Barboza, Al Iaquinta e Michael Johnson deixa claro que Khabib está, sim, um patamar acima da concorrência, e tudo indica que ainda consiga manter sua invencibilidade por um bom tempo. Só não acredito que consiga bater os recordes de GSP (nove defesas de cinturão consecutivas), Anderson Silva (10) e Demetrious Johnson (11), e explico o porquê.

Dado o alto grau de competitividade do esporte hoje em dia, ser o alvo é uma tarefa cada dia mais complicada.

Obviamente, quando o treinador tem em mãos um atleta completo em todas as áreas, como Jon Jones e Demetrious Johnson, as dificuldades táticas aumentam para o treinador adversário no xadrez do MMA, mas quando o lutador é um fora de série, mas apresenta uma brecha em seu jogo, a história nos mostra que, em algum momento, esta fraqueza acaba sendo explorada. Basta analisarmos as diversas eras que marcaram a história do esporte.

Royce, Coleman, Ortiz, Liddell, BJ, Lyoto, Couture, Anderson, Aldo. Foram muitos os ícones que contribuíram trazendo novos elementos técnicos nestes 25 anos de história do UFC, mas que de tanto serem estudados em algum momento tiveram uma fraqueza em seu jogo explorada pelo campeão da geração subsequente.

Quando imaginamos que não há mais onde inovar, eis que surge, Khabib Nurmagomedov com seu ground and pound repaginado. Ele não se limita a derrubar com double ou single leg e bater de dentro da guarda, como faziam os precursores Coleman, Erikson e Kerr. Além de trazer um vasto arsenal de quedas que vão do wrestling, sambo e judô, Khabib impressiona pela pressão e variação técnica que acabam levando o oponente a sucumbir. Uma vez no chão, ele distribui seu peso de maneira perfeita, usando quadril e cabeça, e fica sempre um passo à frente do oponente, neutralizando suas possibilidades de defesa com pegadas cruzadas, combinadas com socos e joelhadas. A superioridade logo se traduz em dano e consequente quebra do espírito do oponente.    

Mas se no solo Khabib tem se mostrado uma equação difícil de ser desvendada pelos treinadores adversários, em pé, onde todo combate de MMA se inicia, o atleta da AKA tem brechas claras, que a partir de agora, passarão a ser estudadas pelos maiores treinadores do esporte. Com o alto nível de atletas de elite na divisão e com excelentes técnicos que cada vez mais ajudam a transformar o esporte num xadrez da luta, é difícil não imaginar algum lutador que traga o pacote completo, ou seja, consiga frustrar as quedas do russo, como fez o Al Iaquinta a partir do terceiro round, e que o obrigue a se expor, usando combos que o façam andar para trás, finalizados com low kicks na parte interna de sua perna direita (essencial para impor seu jogo de quedas).

Obviamente, testá-lo de costas no chão seria uma outra possibilidade, mas certamente seria uma tarefa bem mais complicada e difícil de ser alcançada, se não por intermédio de um knockdown. Todos sabemos que existem dezenas de outros fatores em jogo e que no papel tudo parece mais fácil, mas a história nos mostra que a partir da conquista do cinturão, mais treinadores estarão procurando brechas e caminhos a serem explorados. Se alguém vai conseguir botá-las em prática, aí são outros quinhentos.   

GSP, McGregor ou Ferguson?

Entre as três possibilidades apresentadas como primeira defesa de cinturão do campeão: Conor McGregor, GSP e Tony Ferguson, o norte-americano ainda me parece trazer o pacote mais complicado para o jogo do russo.

Começando pelo irlandês. Os dois pontos fracos de McGregor (defesas de queda e chão) são exatamente os mais fortes do russo. As chances de Conor seriam acertar seu cruzado no queixo do russo ainda no primeiro round. Como vimos na luta com Edson Barboza, a tarefa não é das mais simples.

Além do mais, há de se levar em conta os problemas causados por McGregor nos bastidores do UFC 223. Sem contar esta notícia revelada ontem pelo "The Sports Journal" dando conta de que uma luta com regras híbridas com Mayweather (sem valer chão, chutes ou joelhadas... ou seja 90% de boxe e 10% de MMA) já estaria em fase adiantada de negociações.  Posto isso, é difícil imaginar que o irlandês consiga pensar em lutar pelo cinturão dos leves antes de 2019.

Considerado um dos lutadores mais completos da história, talvez GSP pudesse trazer o pacote completo para complicar o russo: boa defesa de quedas complementada com uma ótima técnica em pé. A questão é o estado físico que o canadense, que completa 37 anos em maio, chegaria para enfrentá-lo numa categoria onde nunca se arriscou. Depois de subir de 77kg para conquistar o cinturão dos médios (até 84kg), não me parece razoável que GSP arrisque seu legado correndo o risco de chegar fraco numa luta onde a força e a velocidade seriam seus maiores aliados para neutralizar o jogo de Nurmagomedov. Ontem o próprio GSP já veio a público dizer que não tem o menor interesse em lutar com o russo entre os leves. Muito educado, GSP agradeceu o convite, mas certamente pensou: Construa seu legado primeiro e depois, se tiver interesse, venha se arriscar aqui em cima.

Independente das agendas e decisões pessoais de GSP e Conor, ainda aposto que Tony Ferguson é aquele que traz a caixa de ferramentas mais perigosa para o russo. Envergadura privilegiada e um bom boxe, complementado por uma defesa de quedas razoável, mas que traz uma ameaça perigosa ao jogo de Khabib: guilhotinas e triângulos de mãos muito afiados.

Levando em conta a possibilidade real de cair por baixo, “El Cucuy” é o representante da divisão que tem trazido a guarda mais ofensiva e perigosa para aqueles que gostam de jogar por cima. Usando muito bem suas pernas longas para aplicar um “jogo de berimbolo” extremamente ofensivo, Ferguson pode quebrar a estabilidade que marca o jogo do russo no chão e surpreender.  

Na hipótese de Khabib passar pelos três, obviamente, sofrerá pressões para encarar superlutas entre os meio-médios, onde as dificuldades aumentariam contra lutadores como Tyron Woodley e Kamaru Usman. O fato é que a Era Khabib está só começando e, independentemente do tempo de duração, já cumpriu um papel importante na história do esporte, trazendo novas peças para esta enorme caixa de ferramentas chamada MMA.

SAI FERGUSON, ENTRA HOLLOWAY; O QUE MUDA PARA KHABIB? - 03/04/2018

Noite de domingo, 1º de abril. Mídias sociais e grupos de whatsapp bombando diante de uma notícia que tinha todos os ingredientes de piada pronta, pelo dia da mentira. Depois de quase dois anos esperando a chance de lutar pelo cinturão de Conor McGregor, a seis dias da tão sonhada disputa do título linear na luta principal do UFC 223 em Nova York, Tony Ferguson lesiona o joelho, ao escorregar no estúdio, numa sessão de fotos para o evento.

Não poderia ser verdade! Tanto que nem mesmo as declarações de Dana White garantindo que o campeão dos penas Max Holloway salvaria o evento, deixaram os colegas da imprensa seguros para cravar a notícia.

Escolados após o clássico caso de Wanderlei Silva em 1º de abril de 2013, quando o brasileiro inventou no Twitter que substituiria Gustafsson a seis dias da luta com Mousasi, os jornalistas decidiram não arriscar outra “barriga” histórica, esperando a confirmação oficial do site do UFC, que não tardou a chegar juntamente com o Tweet de um devastado Ferguson confirmando o quarto cancelamento seguido de um confronto com Khabib.

Diante de uma crise tão grave a poucos dias do evento, sem dúvida a entrada de Holloway foi a melhor solução que poderia ser encontrada pelo UFC. Não só pela interessante possibilidade do cruzamento de categorias, mas também pelo fato de o havaiano poder, em caso de vitória, ser o segundo lutador na história a acumular títulos em duas categorias, como fizera McGregor, que aliás, foi o último oponente a conseguir vencê-lo em 2013.

Invicto há 12 lutas e vindo de três vitórias por nocaute técnico sobre duas lendas do esporte: José Aldo (2x) e Anthony Pettis (ex-campeão dos leves), Holloway certamente seria um oponente a altura de Khabib se estivesse em plena forma. Não é o caso. O havaiano vinha se recuperando de uma contusão no pé que o tirou de uma defesa de cinturão contra Frankie Edgar no dia 3 de março no UFC 222 (Edgar acabou perdendo para Ortega, que substituiu o campeão). Teoricamente só estaria pronto para voltar aos treinos em junho, mas certamente a oferta para salvar o UFC 223 a seis dias da luta foi tentadora.

“Ele é um animal. Mas você sabe o que dizem: para ser o melhor, você precisa vencer o melhor, e o melhor é o ‘Blessed’. Eu mal posso esperar. Ele é humano, eu sou humano. Vamos lá dentro descobrir quem é melhor”, disse Max Holloway a uma TV havaiana assim que embarcava para Nova York.

A macheza de Holloway me fez lembrar a atitude de Anderson Silva, que em julho de 2016, aos 40 anos de idade, e recém saído de uma cirurgia de apendicite, aceitou salvar o UFC 200 enfrentando o parceiro de treinos de Khabib, Daniel Cormier, na categoria de cima (meio-pesado). Ou a de Vitor Belfort ao aceitar salvar o UFC 152 lutando com Jon Jones em 2012 entre os meio-pesados. Teve também Wanderlei Silva, que em 2004, diante da contusão de um oponente japonês a duas semanas da luta recebeu quatro ofertas de oponentes (sendo três na mesma categoria e Mark Hunt, 30kg mais pesado que acabara de estrear no MMA). Escolheu Hunt. Os três brasileiros perderam, mas carimbaram seus nomes entre os mais cascas-grossas da história do esporte.

E é neste hall que Max Holloway entrará, independente do resultado de sábado.         

Apesar de ser a zebra absoluta para o combate, há de se considerar que Holloway é um dos melhores lutadores do UFC na atualidade. Além de ser um kickboxer de alto nível, tem como principal parceiro de treinos o peso meio-médio do UFC, Yancy Medeiros. Ou seja, está plenamente adaptado a lutar com oponentes maiores.

Mesmo apresentando um nível similar a Ferguson na luta em pé e também no quesito wrestling defensivo, na luta de solo o havaiano não traz tantas ameaças ao jogo do russo, como o norte-americano, que com seu chão ofensivo certamente obrigaria Khabib a evitar algumas de suas melhores técnicas.

O estilo do havaiano, que dificilmente anda para trás, também favorece as quedas do russo. Max até costuma defender ataques de double leg contra atacando com guilhotinas, como fez com Cub Swanson e Andre Fili (finalizou ambos), também contra Jeremy Stephens e Ricardo Lamas (não finalizou, mas conseguiu defender as quedas), mas não acredito que consiga parar o trator Khabib com este expediente.

Há de se levar em conta também que o jogo de Holloway é baseado em volume de golpes e controle de distância, o que requer um ótimo condicionamento. Como sabemos, não é o caso atualmente.

Um animal diferente

Próximo de chegar a impressionante marca de 10 anos de invencibilidade sem perder nenhum round contra seus 25 oponentes, Khabib foi apelidado de “animal diferente” pelos parceiros de treino da AKA. E esta afirmação não surgiu por conta de seu vídeo no Youtube ainda garoto, treinando com um urso, mas principalmente pelo nível de treinos que proporciona aos bem mais pesados Luke Rockhold (duas categorias acima) e Daniel Cormier (vai disputar o cinturão dos pesados com Miocic, quatro categorias acima).

Em dezembro, o apelido recebeu a chancela de Frankie Edgar e Eddie Alvarez. Dois wrestlers respeitadíssimos no MMA que costumam ter dificuldade para derrubar Edson Barboza nos treinos e ficaram absolutamente impressionados com a dominância de Khabib nos três rounds da luta com o brasileiro no UFC 219.

Se contra Ferguson, Khabib teria que ser mais tático para evitar seu triângulo de mão e, principalmente, derrubá-lo longe da grade, para evitar seu perigoso scramble no solo, contra Holloway as ameaças são menores. Se até Andre Fili o derrubou três vezes e Jeremy Stephens duas, tudo indica que o russo não terá problemas para levar a luta para seu habitat natural.

Mas é sempre bom lembrar que em caso de derrota, Holloway não tem nada a perder. Ganhou uma boa grana, moral com o evento e certamente terá o tempo que precisa para se preparar e lutar em suas melhores condições contra o duro Brian Ortega, que após a finalização sobre Edgar está faminto para roubar seu cinturão de campeão dos penas. Na hipótese remota da vitória, Holloway se consagra como segundo campeão a ter, simultaneamente, cinturões de duas categorias e, de quebra, garante a primeira defesa numa revanche milionária com seu último algoz, Conor McGregor.

Para Khabib, o caminho é fazer seu trabalho, conquistar a tão sonhada cinta e torcer para que Dana consiga pôr em prática a promessa de estrear o UFC na Rússia com um mega evento colocando seu cinturão em jogo contra o antigo dono, Conor McGregor. Ou quem sabe uma disputa contra seu ídolo no esporte, GSP.

Possibilidades não faltam, mas após uma semana tão cheia de percalços, vale lembrar que antes da luta, Khabib tem o desafio da balança, que já o tirou de uma luta com Ferguson. Comentários de bastidores dão conta também de que Holloway chegou bem acima do peso e terá um corte mais duro do que de costume.
 
Se cachorro mordido por cobra tem medo de linguiça, o UFC certamente já deve ter pedido para Brian Ortega embarcar em Los Angeles trazendo o protetor na mala. Afinal de contas, o aluno de Rener Gracie (Nº 1 do ranking dos penas) seria um coringa na medida para salvar o evento, caso qualquer um dos dois venha a ter problemas com a balança.

Silvas x OV´s: os russos já são a segunda potência do MMA Mundial?

Sobrenome vence luta? Obviamente não, mas sem dúvida impõe respeito, como mostra a história recente do nosso esporte. Após as finalizações de Royce Gracie nas primeiras edições do UFC e de Rickson Gracie nas primeiras edições do Japan Open nos anos 90, quantos oponentes não tremeram diante do sobrenome da família precursora do esporte? No início de 2000, foi a vez de Wanderlei, depois Anderson, orgulharem o mais brasileiro dos sobrenomes atropelando oponentes de todos os cantos do globo. Graças a esta dupla, o sobrenome Silva se manteve como o mais temido em ringues e octógonos por quase uma década. 

De alguns anos para cá, porém, quem tem merecido um respeito especial dos oponentes não são exatamente sobrenomes, mas duas letras que costumam ser uma espécie de “sufixo” de muitos nomes russos: OV. Diante da alta incidência de cascas-grossas da “família OV” o lutador Fábio Maldonado chegou a sugerir uma tradução para as duas letras no idioma de Putin: “pedreira”. Brincadeiras à parte, o fato é que lutadores como Khabib Nurmagomedov, Zabit Magomedsharipov, Alexander Volkov e tantos outros russos contratados pelo UFC têm mostrado que não chegaram para brincar. E mais do que isso, têm chamado a atenção do mundo da luta para um mercado até então adormecido, e que hoje já considerado o maior concorrente do Brasil no posto de segunda potência no cenário mundial.       

Se durante 20 anos o Brasil disputou ombro a ombro a hegemonia do esporte com os americanos, hoje eles nadam de braçada à nossa frente e, se não houver alguma mudança radical no MMA nacional, os russos devem nos ultrapassar em médio prazo. Levando em conta apenas os números do maior evento do mundo, pelo menos por enquanto, o posto de segunda potência parece confortável para nós. Das 12 categorias existente no UFC, os EUA detém 8 cinturões, o Brasil 2, Austrália 1 e a Irlanda também 1. Pelo menos até sábado que vem, quando a Rússia é favorita para conquistar seu primeiro cinturão, com Khabib Nurmagomedov. Diante do plantel de lutadores do UFC, esta proporção também se confirma, afinal temos em torno de 80 brasileiros e 20 russos contratados. Mas vale atentar que uma possível vitória de Khabib no próximo sábado pode alavancar a tão aguardada chegada do UFC na Rússia até o fim de 2018. Neste caso, obviamente, a quantidade de russos no plantel aumentará proporcionalmente a resposta financeira do mercado russo.

Mas esta é uma possibilidade para ser considerada a médio prazo. Hoje o MMA brasileiro se mantém, até com uma certa tranquilidade, na segunda colocação. Não só pelas campeãs (Amanda e Cyborg), mas também pela tradição da velha guarda. Lendas do esporte como Anderson Silva, Vitor Belfort, Lyoto Machida e José Aldo, mesmo não estando na briga direta pelo cinturão, ainda fazem do Brasil uma potência do esporte. A pergunta que todo fã se faz é: e quando eles se aposentarem?  

O Brasil continua sendo um enorme celeiro de talentos, a questão é que a crise financeira por que passa o país impactou diretamente no mercado do MMA, escasseando as plataformas de lançamento. Já pararam para pensar onde estaria Wanderlei Silva se não existisse o IVC; Anderson Silva sem o Meca; José Aldo sem o Shooto; e Lyoto sem o Jungle? Certamente muitos deles teriam desistido ou seriam obrigados a negligenciar seus talentos para buscarem um sustento para suas famílias. Foi graças à força e competitividade do MMA nacional que chegaram aonde chegaram. Infelizmente hoje o Shooto é o único evento nacional que mantém periodicidade, o que é pouco para dar vazão à enorme quantidade de talentos que surgem de norte a sul do país.  

É aí que os russos mostram potencial para virar o jogo em médio prazo. Hoje eles têm pelo menos 4 eventos de altíssimo nível - ACB, M-1, FNG e WCFA -, que além de periodicidade, pagam bem aos lutadores e têm um alto nível de competitividade. O resultado pode ser visto em algumas contratações feitas pelo UFC nos últimos anos. Com atuações impressionantes, nomes como Rashid Magomedsharipov, Gadzhimurad Antigulov e Alexander Volkov têm mostrado que a seleção dos OV´s veio para brigar por cinturões.         

RUSSIA AJUDANDO A LEVANTAR O MMA BRASILEIRO?  

O curioso é que se por um lado os russos são hoje nossos maiores concorrentes no mercado mundial, por outro são os eventos de lá que têm dado um novo fôlego ao combalido MMA brasileiro. Não só contratando ex-UFC´s e novatos desempregados de norte a sul do país, como realizando eventos em solo nacional, inclusive com transmissão ao vivo no canal Combate com cards recheados de lutadores brasileiros.  

Este interesse pelo mercado brasileiro ocorre exatamente porque só aqui eles podem encontrar atletas em condições de competir em igualdade de condições com seus lutadores. Afinal de contas, os americanos, com dezenas de eventos em seu território, sabem que a alta competitividade do mercado russo acaba sendo um caminho arriscado e bem mais tortuoso para alcançarem o objetivo final de qualquer lutador: chegar ao UFC.  

E os números comprovam que o mercado russo tem sido uma excelente opção profissional para lutadores brasileiros. Para se ter uma ideia, nos dois primeiros meses de 2018 o UFC tinha feito seis eventos com a participação de 26 lutadores brasileiros (12 vitórias e 14 derrotas). No mesmo período, os russos também tinham realizado seis eventos (três edições do ACB, duas do M-1 e uma do FNG) com a participação de 28 lutadores brasileiros (23 derrotas e 5 vitórias).  

Diante da falta de perspectiva por aqui, sem dúvida o mercado russo tem sido uma senhora tábua de salvação. Pelo menos até a nossa economia voltar aos trilhos e o país finalmente sair da maior crise financeira de sua história. Após as eleições de outubro, a esperança é que nossa economia reaqueça e o mercado do MMA brasileiro volte a ter suas próprias plataformas, voltando a assumir com folgas o posto de segundo maior celeiro de campeões do mundo. 




Nurmagomedov x Ferguson, a luta do ano

Finalmente Dana White botou em prática a atitude que a maioria dos fãs esperavam: retirou o cinturão linear de Conor Mcgregor e permitiu que a meritocracia voltasse a dar as cartas, em grande estilo, entre os pesos leves.   Há muito tempo não fico tão ansioso para assistir a uma luta como este combate principal do UFC 223, entre Tony Ferguson e Khabib Nurmagomedov. De um lado o ground and pound mais dominante da história do evento, de outro, um dos lutadores mais criativos e completos que já lutaram na organização.

Apesar do amplo favoritismo do invicto russo, alavancado principalmente pela performance dominante que teve sobre o nosso Edson Barboza em dezembro último, o fato é que se existe algum lutador que tenha armas para neutralizá-lo, este é Tony Ferguson. Aos 34 anos, o descendente de mexicanos que foi descoberto no TUF 13, onde se sagrou campeão nocauteando seus quatro oponentes, já soma 14 lutas no UFC e apenas uma derrota (por decisão para Michael Johnson em 2012, logo após sua estreia). Desde então, enfileirou alguns dos mais duros nomes da divisão em performances incríveis que lhe valeram cinco bônus nas ultimas seis lutas.

Mostrando um jogo pouco ortodoxo e imprevisível em pé, Tony se sai bem em todas as distâncias. Da média para a longa, costuma usar sua envergadura privilegiada (1,94m) para atingir os oponentes combinando jabs, cruzados e chutes. Da média para a curta, usando seu excelente footwork para cortar ângulos e surpreender o oponente com golpes rodados e cotovelada de encontro. No solo, o aluno de Eddie Bravo costuma ter um dos jogos mais ofensivos e imprevisíveis do MMA na atualidade, alternando cotoveladas da guarda, com raspagens de omoplata e triângulos (de mão e de perna).

Já Nurmagomedov, com apenas 29 anos, pode ser considerado um exemplar em extinção na atual conjuntura do MMA. Não só por ser um dos poucos invictos (25 vitórias em 25 lutas), mas principalmente por ser o único a trazer para o esporte um jogo de ground n´pound que tem se mostrado indefensável. Usando seu boxe rudimentar para encurtar, derrubar e levar os oponentes para a grade, Khabib fez tops da divisão, como Edson Barbosa, Michael Johnson e Rafael dos Anjos, parecerem iniciantes. Sempre um passo à frente dos oponentes, o russo distribui seu peso de maneira perfeita e dá a impressão, para quem assiste suas lutas, de que tem mais de dois braços, tamanha a situação de superioridade que se coloca e que logo se traduz em dano e, consequentemente, quebra do espírito do oponente. 

Sem perder um round desde que chegou ao UFC, Khabib tem tido a balança como seu oponente mais duro. Graças a ela já deixou cards em duas oportunidades e irritou o patrão. Em sua última luta contra Edson Barboza (UFC 219,  em dezembro do ano passado), porém, cumpriu o prometido e, após mudar de nutricionista, bateu o peso sem problemas, tendo uma das atuações mais dominantes de sua carreira.

Como o confronto principal do UFC 223 será de 5 rounds, Ferguson, que também é conhecido pelo seu excelente gás, resolveu fazer seu camp na altitude (montanhas de Big Bear) e também deverá chegar em suas melhores condições.

Na luta em pé, além de uma vantagem de 17cm na envergadura, Ferguson tem clara superioridade técnica. Mas lutando contra o perigo eminente de cair, deverá evitar chutes, além de implementar sua movimentação ofensiva buscando o centro do cage, como fez Michael Johnson na primeira metade do 1º round com Khabib.  

O “X” deste combate não está somente na capacidade de Ferguson de resistir às quedas e ao ground n’pound de Khabib, algo que nenhum outro lutador da divisão conseguiu até então, mas principalmente em não ser derrubado próximo à grade, onde o jogo de Khabib é mortal. Se conseguir usar sua envergadura e excelente footwork para buscar sempre o centro do cage, evitando ser encurralado, mesmo que seja derrubado, Tony pode surpreender o russo. Afinal de contas, um de seus pontos fortes é seu perigoso jogo de “berimbolo” altamente ofensivo, alternando cotoveladas da guarda, com raspagens de omoplatas e triângulos. Fora da grade, “El Cucuy”, mesmo por baixo, pode surpreender. Mas se cair próximo à grade, tende a ser mais uma presa do ground n’ pound do russo.

De sua parte, Khabib deverá atacar menos com quedas de Wrestling (double e single leg), pois Tony Ferguson transita rapidamente do sprawl para uma de suas especialidades: o triângulo de mão. Foi desta maneira que finalizou Lando Vannata e Edson Barboza no 2º round (depois de perder claramente o 1º round). Este é certamente deve ser um ponto de atenção para o treinador da AKA Javier Mendez. Se quiser evitar riscos desnecessários, o russo deverá optar mais pelas quedas de Judô (Ouchi Gari e Uchi Mata), que também aplica muito bem (como vimos contra Rafael dos Anjos e Michael Johnson).  

No papel, Tony Ferguson é indiscutivelmente um lutador mais completo em quase todas as áreas do MMA, mas pela eficiência e superioridade que tem mostrado em suas últimas lutas, Khabib é o favorito para sair da arena de Nova York com sua 26º vitória e o cinturão de Conor Mcgregor.

E pensar que este card ainda tem a revanche entre Joanna Jedrzejczyk e Rose Namajunas; Renato Moicano enfrentando Calvin Kattar; Anthony Pettis contra Michael Chiesa; e o genial Zabit Magomedsharipov fazendo sua terceira apresentação no UFC, desta vez contra Kyle Bochniak. Absolutamente imperdível!  


FABRICIO WERDUM COMEMORA RECONHECIMENTO DOS FÃS E PLANEJA RETORNO PARA JULHO - 19/03/2018


Os momentos de derrota normalmente são lembrados como os mais tristes na vida de qualquer lutador. Mas por incrível que pareça, graças a milhares de mensagens de apoio dos fãs e até da mídia, o revés no último sábado para o russo Alexander Volkov acabou tendo um gosto bem menos amargo para Fabrício Werdum. “Saí da luta muito triste, como em qualquer derrota, mas as mensagens nas mídias sociais levantaram meu astral. A impressão que tive é que finalmente os fãs e a mídia passaram a reconhecer minha história”, me disse emocionado o gaúcho no domingo, menos de 24 horas depois da luta.

Minutos depois de assistir à luta pela primeira vez, já em casa ao lado da esposa e das filhas, “Vai Cavalo” revelou que tomou 12 pontos nos dois cortes e fez questão de falar se seus acertos e erros, sem deixar de reconhecer os méritos do oponente. “Mostrei que meu wrestling melhorou, derrubei ele com 10 segundos de combate. Lutei bem os dois primeiros rounds, mas o Volkov teve todo mérito de acertar aqueles golpes que prejudicaram minha visão. O sangue no meu olho realmente me atrapalhou no lance final, pois não percebi a mão dele vindo”, disse Werdum, visivelmente inconformado por não ter conseguido ajustar o armlock após raspar de meia e pegar as costas do oponente no 2º round. “Agora, vendo em casa, que entendi o meu erro. Minha perna esquerda ficou trancada embaixo dele, por isso o armlock ficou sem pressão. O Volkov tem todos os méritos, mas com um pouquinho mais de paciência eu teria vencido esta luta”, lamentou o gaúcho, garantindo que já pediu ao UFC para voltar o quanto antes. “Tenho consciência de que o cinturão se afastou, mas eu não desisti dele, sei que com mais duas ou três vitórias terei minha oportunidade. Não estou nada desmotivado, muito pelo contrário. No máximo em julho eu quero estar de volta”.

Quatro revanches no horizonte

Com a categoria dos pesados rasa como está, não faltam opções para Werdum entre os Top 10 da divisão. Uma das possibilidades para Sean Shelby seria uma revanche com Andrei Arlovski (9º), que acaba de derrotar Stefan Struve. Sem dúvida teria apelo por ser uma luta entre dois ex-campeões se enfrentando, 11 anos depois da vitória do bielorrusso por decisão no Strikeforce.

Um outro casamento possível seria contra o super samoano Mark Hunt (5º). Não é segredo pra ninguém que o campeão do K-1 não engoliu o nocaute sofrido para o faixa preta de Jiu-Jitsu brasileiro com uma joelhada na Cidade do México em 2014. Tanto que Hunt já pediu a revanche diversas vezes.

Uma terceira opção seria um confronto brasileiro recheado de rivalidade contra Junior Cigano, que estreou no UFC nocauteando o gaúcho (UFC 90, 2008). Mas para acontecer, esta luta dependeria de uma definição da USADA, uma vez que o brasileiro foi notificado por possível violação quando lutaria com Francis Ngannou no UFC 215 (novembro de 2017). A advogada de Cigano recorreu, mas ainda não obteve uma decisão definitiva da USADA. Enquanto isso, Cigano ainda não tem uma data definida para seu retorno.

E por falar em retorno, afastado desde sua vitória contra Travis Browne (julho de 2016), Cain Velásquez também deve voltar ao octógono ainda no primeiro semestre e, depois de adiar a revanche algumas vezes por conta de contusões, nada mais justo que ter sua chance de vingar a guilhotina de Werdum, que lhe tirou o cinturão em junho de 2015.

Opções interessantes não faltam. Agora é aguardar a escolha de Sean Shelby. O fato é que, mesmo estando com quase 41 anos e próximo da aposentadoria, Fabrício Werdum continua sendo um dos mais técnicos lutadores da divisão dos pesados e com condições de lutar em igualdade de condições com qualquer Top 5.

Para completar, o gaúcho finalmente passou a ser entendido pelos fãs e pelo próprio UFC como um produto diferenciado. Um atleta que peitou a ditadura do trash talking, trazida pelos geniais Chael Sonnen e Conor McGregor, e mostrou a classe que não adianta ser ator para tentar se transformar em bom vendedor de luta. O mais importante é ser genuíno.

É curioso notar que apesar de seu extenso currículo com finalizações sobre três dos maiores pesos pesados da história (Fedor, Minotauro e Velásquez), sendo o único campeão do UFC a vencer o Mundial de Jiu-Jitsu e o ADCC, Werdum caiu nas graças dos fãs e, finalmente, passou a ser respeitado como ídolo mundial do esporte por mostrar que o riso também pode ser uma boa forma de vender lutas.

JON JONES, BARÃO E ALDO: A SOLUÇÃO PODE ESTAR NA PSICOLOGIA? - 15/03/2018

No início de 2014, ao ser perguntado sobre quem seria o maior lutador peso por peso do mundo, Dana White não soube cravar sua preferência. Sua única certeza era que a disputa estava entre dois campeões, Renan Barão e Jon Jones. Para muitos colegas da imprensa, nem Jones nem Barão, o maior nome do esporte seria José Aldo, que acabara de solidificar seu reinado de maior peso-pena da história ao vencer Ricardo Lamas na quinta defesa de título. Passados quatro anos, a situação destas três lendas do esporte mudou da água para o vinho. Hoje, mesmo tendo coincidentemente apenas 31 anos, no que poderia ser o ápice físico de suas carreiras, estes três grandes ícones vivem uma espécie de inferno astral. Obviamente, cada qual tem motivos distintos para estarem passando por este momento de crise e incertezas profissionais, mas fica patente nos três casos a importância do trabalho de um profissional que vem sendo negligenciado no MMA, o psicólogo esportivo.

“Infelizmente no mundo da luta buscar ajuda de um psicólogo é uma atitude vista por muitos como sinal de fraqueza. Não é coisa de casca-grossa”. A afirmação vem de um dos maiores nocauteadores da história dos pesos-pesados do UFC, Pedro Rizzo. Hoje à frente da equipe Ruas RVT e iniciando uma nova fase em sua carreira, o discípulo de Marco Ruas quer usar suas experiências pessoais como atalho para seus lutadores. “O MMA é um esporte que exige física e psicologicamente do atleta como nenhum outro. O lutador precisa entender que o cérebro é um órgão como qualquer outro, e como tal, também pode adoecer e precisar de tratamento. Não adianta o cara estar 100% física e tecnicamente se o maestro que rege a orquestra tem algum problema”, analisa Rizzo.

Primeiro brasileiro a disputar o cinturão dos pesos-pesados do UFC (contra Randy Couture em 2001), Pedro não tem dúvida em apontar a causa do momento complicado das carreiras de quatro ex-campeões brasileiros do UFC Aldo, Barão, Cigano e Anderson. “Quando um lutador que ganha tudo sofre uma derrota traumática, degringola um mecanismo onde ele passa a lutar para não perder, para não frustrar os fãs. Este conservadorismo muda suas características. Passei exatamente pelo mesmo processo que eles estão agora, após a minha derrota para Randy Couture”, explica hoje o discípulo de Ruas, reconhecendo que demorou a procurar ajuda com João Alberto Barreto, mestre em psicologia esportiva e faixa vermelha do grande mestre Hélio Gracie. “Ele me fez entender minha cabeça e com técnicas e exercícios diários afastou os chamados pensamentos intrusos. Se tivesse começado o trabalho com ele logo após o trauma da primeira derrota, talvez minha carreira tivesse seguido outro rumo. Mas o trabalho que fiz foi essencial para que eu prolongasse minha carreira”, atesta Rizzo.

Mas infelizmente a grande maioria dos lutadores reluta a reconhecer que a psicologia pode ser um bom caminho para uma virada num momento crítico na carreira. Renan Barão é um bom exemplo. Vindo de 4 derrotas em 5 lutas, o potiguar nunca mais foi o mesmo desde que foi nocauteado pelo atual campeão, TJ Dillashaw, em maio de 2014 no UFC 173. Mudou de categoria, de equipe, treinadores, nutricionistas, continuou se dedicando com afinco aos treinos, mas em nenhum momento cogitou a possibilidade de buscar a ajuda de um psicólogo esportivo. O resultado pode ser visto em sua última luta em fevereiro de 2018, quando foi salvo pelo gongo do que estava caminhando para ser uma derrota por nocaute para o mediano Brian Kelleher no 3º round. Após a luta, o potiguar comentou com parceiros de treino que o problema de sua queda de performance havia sido novamente a dieta, ou seja, nem cogitou a possibilidade de buscar ajuda de um psicólogo que talvez pudesse ajudá-lo a entender o que se passa em sua cabeça, tentando trazer de volta aquele campeão que impressionou Dana White e chegou a emplacar uma sequência de 33 vitórias, ficando invicto por 9 anos.

Tendo passado por um momento bem parecido com o de Barão, Rizzo lembra de uma das frases mais importantes que aprendeu nas consultas com o mestre João Alberto Barreto. “Ele sempre me dizia que, para um atleta de alto rendimento, cérebro bom não é aquele que pensa, mas aquele que age automaticamente. Existem dezenas de exercícios mentais que o psicólogo te ensina e, se você treina aquilo com disciplina, os resultados aparecem como em qualquer outra área do treinamento”, conta Rizzo.  

O caso de José Aldo é bem diferente do parceiro de treinos da Nova União. Para ele, a derrota em apenas 13 segundos para o maior rival, Conor McGregor, no UFC 198, não gerou um bloqueio psíquico, seu trauma veio em decorrência da frustração de não conseguir a revanche imediata, mesmo sendo reconhecidamente o maior peso-pena da história.

Diante da impossibilidade da sonhada revanche, Aldo perdeu a motivação para continuar no esporte, passando a dizer publicamente que gostaria de fazer logo as últimas lutas do contrato, com vistas a migrar para o Boxe. O resultado desta falta de foco nos treinamentos ficaram patentes nas duas derrotas (ambas por nocaute técnico no 3º round) para o novo campeão da categoria, Max Holloway.

No caso de Aldo, talvez um profissional de psicologia o ajudasse a encontrar de fato seus caminhos. Ao contrário de Barão, Aldo já conquistou sua independência financeira e não precisa mais provar nada a ninguém. Seja migrando para o Boxe, voltando ao MMA ou se aposentando, o importante é que o homem, cuja história inspirou o filme “Mais Forte Que o Mundo”, encontre o quanto antes seu melhor caminho.

Jon Jones e o processo de auto sabotagem 

Se no caso de Aldo e Barão o trauma causado pela decepção de um nocaute inesperado iniciou a mudança de suas carreira, para Jon Jones, cuja única derrota em 24 lutas ocorreu por desclassificação, devido a uma cotovelada ilegal, o motivo da crise parece ser outro. É o que explica o psicólogo com especialização em esportes de combate Jorge Luiz Marujo: “O caso de Jones me parece um clássico de auto sabotagem. Ele é aquele indivíduo que não convive bem por muito tempo com o êxito e a estabilidade profissional, e a uma certa altura acaba melando tudo. Freud já falava de casos como este há muito tempo”, esclarece Marujo, que inclusive já trabalhou com diversos atletas da extinta X-Gym, como Ronaldo Jacaré e Rafael Feijão, e também do Jiu-Jitsu, como André Galvão e Ronys Torres.

A explicação do profissional faz todo sentido levando em conta o histórico recente de Jon Jones. Entre o acidente de trânsito sem socorro que o levou à prisão, diversas confusões nos bastidores e dois casos de doping flagrados pela USADA, Jones perdeu seu cinturão duas vezes e passou de maior lutador da história do esporte a uma espécie de “Adriano Imperador” do MMA.

Como é reincidente, Jones tem tudo para pegar um gancho de 4 anos e só voltar ao UFC aos 34 anos. Um desperdício absurdo de talento e uma grande perda para o esporte num momento em que grandes ícones fazem falta.

Segundo Marujo, o caso de Jones, apesar de parecer mais simples de ser revertido, também tem um componente complexo e recorrente que aparece também nos casos de Aldo e Barão. “Hoje existem várias técnicas para uma abordagem comportamental desconstruindo a prática de pensamentos catastróficos, mas é essencial que o atleta e o seu treinador acreditem no nosso trabalho. O Jones entender que precisa de ajuda é o primeiro passo para que ele volte diferente”, explica o psicólogo, revelando a enorme resistência que encontra no mundo da luta. “Investi muito fazendo uma pós-graduação e estudando atletas de Jiu-Jitsu e MMA, mas infelizmente não encontrei interesse por parte de lutadores e treinadores”, conta, explicando que em sua opinião um dos maiores problemas do MMA nacional reside na dificuldade que a maioria dos treinadores tem em formar uma equipe multidisciplinar. “Parecem que têm ciúme e receio de que os atletas sejam influenciados por outros mestres. O fato é que ninguém consegue comer um bolo ou uma pizza sem fatiar. Os head coaches precisam entender que o MMA é hoje um esporte extremamente profissional e multidisciplinar”.

Felizmente, nem todos treinadores pensam assim. Exatamente por já ter sentido na pele a importância da psicologia nos 19 anos em que enfrentou alguns maiores pesos-pesados do esporte, Pedro Rizzo já começou o “treinamento mental” com o primeiro contratado do UFC de sua equipe, Raoni Barcelos. “Antes de começarem as pressões quero que o Raoni esteja preparado e sabendo como enfrentá-las. Estou começando um trabalho de formiguinha com muitos talentos aqui na Rizzo RVT e quero meus futuros campeões bem preparados em todas as áreas”.

Que o exemplo da Rizzo RVT seja seguido por outras equipes de MMA pelo mundo e, quem sabe, pelo próprio centro de alta performance do UFC em Las Vegas, que tem investido em pesquisas científicas em diversas áreas. Afinal de contas, é difícil mensurar quantos grandes eventos seriam possíveis e quantos milhões de dólares poderiam estar em jogo se estes três gênios do esporte (Barão, Aldo e Jones) com apenas 31 anos de idade, estivessem explorando ao máximo seus potenciais nos últimos anos de suas carreiras.

NAGAO, O GÊNIO DAS IMAGENS DE LUTA - 09/03/2018

Este final de semana não haverá UFC no sábado, mas se você curte boas reportagens sobre ícones do esporte, vale ficar antenado no Sensei Sportv (meia-noite de sábado para domingo). Nesta edição Flávio Canto vai iniciar uma série de reportagens especiais que fez no Japão apresentando um personagem que, apesar de nunca ter subido no ringue, é de absoluta importância para a história do MMA: o fotógrafo japonês Susumu Nagao.

Único fotógrafo a registrar todas as 50 primeiras edições do UFC e estar à beira do ringue em todas as edições do extinto Pride, Nagao é o autor de algumas das imagens mais emblemáticas da história do esporte, como o armlock de Royce Gracie em Jason de Lucia (UFC 2); o Trenzinho Gracie (UFC 1); o chute de Ruas em Varelans na final do UFC 7; O armlock de Minotauro em Bob Sapp (Pride Shockwave); a joelhada voadora de Anderson Silva em Carlos Newton (Pride 25); o soco de Minotouro deformando o rosto de Shogun (Pride Critical Countdown); entre tantas outras.

Para quem começou a fotografar na era digital, onde as máquinas se encarregam de equilibrar a luz e encontrar o foco, fica até difícil mensurar a qualidade das fotos de Nagao.

Eu passei admirá-lo ainda mais por sentir na pela o grau de dificuldade de registrar imagens em meu primeiro UFC (9), quando levei uma verdadeira “surra fotográfica”. Lembro que quase chorei ao chegar no laboratório e ver Amaury Bitetti e Don Frye lutando nas profundezas do inferno (de tão vermelhas que estavam as imagens). Fiquei ainda mais desesperado ao receber a revista japonesa com as fotos do Susumu absolutamente equilibradas.

Mas aquela experiência traumática em 1997 me fez entender que fotografar um UFC na era analógica não era para principiantes. A iluminação, além de fraquíssima, não era uniforme em todo octógono e puxava absurdamente para o vermelho. Como os filmes negativos para condições adversas de iluminação (acima de ISO 800) deixavam a imagem muito granulada, a única maneira de fotografar lutas pelas grades do octógono era importar os caríssimos Slides 320 da Kodak (para luz de tungstênio), que tinham que ser “puxados” na revelação para ISO 1600 ou 3200 (trabalho que só era feito, com qualidade, por um laboratório profissional no Rio de Janeiro).

Infelizmente o Nagao só me ensinou tudo isso depois desta primeira surra, que aliás salvaria minhas fotos na estreia de Vitor Belfort e Wallid Ismail no UFC 12. Desde então passei a aproveitar cada edição do UFC, Pride ou Shooto, que conseguia ir, para sugar um pouco do conhecimento técnico deste gênio das imagens de luta.

A partir do ano 2001, porém, quando a Nikon e Canon passaram a dominar a tecnologia digital, finalmente, conseguindo fazer máquinas profissionais melhores que as analógicas, a fotografia se democratizou e as perdas fotográficas passaram a ser mínimas.

Uma amizade iniciada graças à violência no Rio    

Minha amizade com Susumu Nagao se iniciou de maneira curiosa, em janeiro de 1995. Pode-se dizer que graças à violência no Rio de Janeiro.

Eu estava entrando no Maracanãzinho para cobrir o Vale-Tudo Brasil Open para a revista KIAI, naquela histórica noite em que o mestre Hulk venceu Amaury Bitetti, quando percebi alguns japoneses barrados do lado de fora.

Eram quatro profissionais enviados pela revista Kakutougi Tsushin para cobrir o torneio de três lutas numa noite, cujo vencedor faria, dali a seis meses, uma superluta com Rickson Gracie, que já era um grande ídolo no Japão, após vencer dois torneios Japan Open.

Com o Rio de Janeiro vivendo uma escalada de violência, bem semelhante a atual, era questão de tempo, naquele local escuro, que aquela mina de ouro em equipamentos fotográficos fosse descoberta por meliantes. Como não consegui convencer os seguranças a deixarem os orientais entrarem, cedi meu crachá para um deles (depois viria e descobrir que era o Susumu), que logo voltou com organizador do evento, o Grande Mestre João Alberto Barreto.

Gratos pela minha atitude, os japoneses me convidaram para um jantar no dia seguinte. Na conversa, expliquei um pouco sobre as artes marciais no Brasil, a rivalidade entre Jiu-Jitsu e Luta-Livre, as brigas entre Hugo e Rickson, e a força do Jiu-Jitsu e Muay Thai brasileiros. O papo acabou se transformando numa reportagem de quatro páginas na Kakutougi Tsushin, que na sequência me convidaria para ser seu correspondente no Brasil, enviando fotos e reportagens de todos os eventos que cobrisse por aqui. A partir de então, Nagao e eu passamos a nos encontrar com maior frequência e viramos grandes amigos. E as dicas do mestre, aliás, foram essenciais para eu melhorar a qualidade das minhas imagens, registrando eventos de Vale-Tudo, Jiu-Jitsu, Muay Thai e Luta-Livre no Brasil.

Na primeira edição do UFC No Rio, em 2011, Nagao veio ao Brasil cobrir o evento e nos demos conta de que começamos a trabalhar com artes marciais no mesmo ano (1993) e que a história do Vale-Tudo havia começado há 100 anos com outro encontro entre um japonês (Mitsuyo Maeda Koma) e um brasileiro (Carlos Gracie). Daí veio a idéia de fazermos uma exposição juntando nossos principais cliques da era atual com ao de outros fotógrafos que registraram os ídolos do passado. O Canal Combate apoiou a idéia. Nascia assim a exposição “Do Vale-Tudo ao MMA - 100 anos de Luta”, que em 2013 seria transformado no livro de mesmo nome.

Confira outras imagens históricas de Susumu Nagao:

UFC 222: PERGUNTAS, RESPOSTAS E POLÊMICAS - 06/03/2018

Ótimas lutas, surpresas, revelações e grandes reviravoltas. O UFC 222 fez as redes sociais ferverem assim que o evento terminou na madrugada do último sábado (3). Separei as perguntas mais freqüentes relacionadas aos protagonistas da noite e deixei os meus pitacos com relação ao futuro de cada um.

Existe alguma mulher capaz de vencer Cyborg?

Esta é a pergunta que todo fã de luta se fez após assistir Cris Cyborg atropelar a russa Yana Kunitskaya em apenas 3min25s, conquistando sua 20ª vitória (17ª por nocaute) e se aproximando dos 13 anos de invencibilidade no MMA. Marca que, por sinal, nunca foi atingida por nenhum campeão da história do esporte (Fedor e José Aldo chegaram perto dos 10 anos de invencibilidade).

Diante dos fatos a resposta à pergunta acima parece simples, ou seja, por enquanto não existem ameaças claras ao reinado da curitibana.

Cabe ao UFC então buscar meninas competitivas. E é nesta toada que Cyborg tem pressionado a organização a fortalecer sua divisão, contratando meninas peso pena, mas a realidade do mercado não tem ajudado mundo. A australiana Megan Anderson (campeã do Invicta), que vem de uma seqüência de 4 vitórias, ainda está às voltas com problemas pessoais.
Diante destas condições do mercado na categoria pena feminino, sou obrigado a concordar com a decisão de Dana White: a oponente mais competitiva para Cris Cyborg no momento é Amanda Nunes.

Além de ser uma das maiores lutadoras da divisão, Amanda tem poder de nocaute e é faixa preta de Judô e Jiu-Jitsu. Se conseguir derrubar e manter a curitibana no chão, coisa que nenhuma das suas 22 oponentes conseguiu até então, a atleta da ATT pode surpreender.

No papel a baiana é uma oponente mais dura que Holly Holm, que mal ou bem, conseguiu proporcionar 5 rounds competitivos com a campeã.

Cyborg, como sempre, entraria como favorita, mas se a atual campeã peso galo do UFC conseguir destronar a maior lutadora de todos os tempos, escreverá seu nome na história do esporte como a primeira campeã a unificar o cinturão em duas categorias do UFC. Feito até hoje só alcançado por Conor McGregor.

Ketlen Vieira já merece disputar o cinturão?

Depois de vencer quatro lutas, com destaque para as duas últimas, contra as veteranas Sara Mcmann e Cat Zingano, Ketlen conquistou merecidamente o 4º lugar no ranking e praticamente carimbou o direito ao title shot.
A questão é o timing e a agenda da campeã Amanda Nunes que, além de uma possível luta contra Cyborg, ainda tem Raquel Pennington na frente da fila.

Neste caso a brasileira, provavelmente, teria que fazer mais uma luta, que poderia ser contra Germaine de Randamie (5º) ou, Julianna Pena (3º), que deu à luz em janeiro e deixou claro que ficaria afastada por período indeterminado para cuidar do bebê. Em caso de uma 5ª vitória, Ketlen teria chances de estar disputando o cinturão antes do final do ano, ou seja, antes de completar 2 anos de UFC.

O fato é que ao anotar a quarta vitória em pouco mais de um ano e meio, Ketlen fez sua parte chegando a 4ª no ranking. O mais importante agora é se manter concentrada e não cair na cantilena de exigir cinturão e achar que está sendo prejudicada pelo evento, caso tenha que fazer mais uma luta.

Brian Ortega será páreo para Max Holloway?

briaConfesso que apesar de reconhecer a impressionante evolução de Brian Ortega, principalmente depois das finalizações sobre Moicano e Swanson em 2017, acreditava que o garoto de 27 anos ainda não tinha armas suficientes para bater de frente com uma lenda como Frankie Edgar, que já havia despachado outro talento novato em maio (Yair Rodriguez).

Curioso é que, assim como na luta entre Romero e Rockhold há 3 semanas no UFC 221, pairava no ar neste co-main event do UFC 222 um certo clima de roteiro pré-escrito.

Se na Austrália tudo levava a crer que o substituto, Romero, chamado em cima da hora, seria um mero coadjuvante para o anteriormente planejado title shot entre Rockhold e Whittaker; no evento de Vegas, Brian Ortega, chamado para substituir o campeão contundido a 4 semanas do UFC 222, também chegou como zebra, e assim como Romero, Ortega saiu como grande vencedor da noite, vencendo ainda no 1º round a lenda Edgar, apontado por muitos como a última ameaça a era Holloway.

Ortega deu uma aula de Boxe em Edgar, controlou a distância inteiramente e ao encaixar uma cotovelada de encontro seguida de um upper, que tirou Frankie Edgar do chão (numa versão peso pena do nocaute de Ngannou sobre Overeem) escreveu seu nome na história do esporte como primeiro homem a conseguir nocautear o ex-campeão dos leves que destronou BJ Penn.

De volta a pergunta no topo do texto: Ortega será páreo para Holloway? Pela evolução que tem mostrado na luta em pé e as impressionantes finalizações que tem conseguido, definitivamente o faixa preta de Rener Gracie merece todo respeito por parte do campeão, curiosamente um ano mais novo que ele.

Mas pelas vitórias impressionantes sobre José Aldo e Anthony Pettis, ainda continuo achando que o cinturão permanecerá com o campeão. Independente de qualquer coisa, Dana White já garantiu que o confronto será realizado o quanto antes. Mais uma luta de tirar o fôlego para abrilhantar o calendário do UFC 2018.

A estreia de Mackenzie decepcionou?

De maneira alguma. A competitividade no maior evento do mundo é muito maior que no Invicta, então seria natural que com todo marketing em cima de Dern ela passasse a ter seu jogo estudado. Trabalho aliás muito bem executado pelos treinadores de Ashley Yoder, os brasileiros Ricardo Feliciano e Gustavo Pugliese.

A americana, faixa marrom de Jiu-Jitsu, seguiu à risca o plano tático dos mestres e fugiu inteiramente ao seu jogo tradicional de buscar as lutas de solo. Além de usar bem sua envergadura pontuando com jabs, Yoder fez um anti-jogo perfeito para bloquear as tentativas de queda e o boxe ainda rudimentar da filha de Megaton Dias.

Certamente as muitas horas de competição no Jiu-Jitsu foram um diferencial para que Dern mantivesse o ímpeto até o final conseguindo a queda salvadora que a permitiu chegar às costas de Yoder no último minuto, virando a luta na opinião de 2 dos 3 juízes.

Outro ponto positivo foi a motivação de Mackenzie que, após entregar tudo o que tinha numa guerra de 15 minutos, já saiu do Octógono pedindo uma vaga no UFC Rio. Na entrevista a equipe do Combate na saída do octógono deixou no ar, inclusive, uma possível pré negociação para enfrentar a australiana Alex Chambers, que vem de duas derrotas e em sua penúltima luta foi finalizada por Paige Vanzant.

Mais uma oponente na medida para a faixa-preta, que chegou a ser chamada pela imprensa americana de nova Ronda, só que do JJ.

Ronda aliás é um ótimo exemplo para Mackenzie e seus treinadores traçarem sua carreira, levando em conta o alto nível de competitividade das categorias femininas.

Para começar a pensar em cinturão, a longo prazo, Mackenzie precisa afiar bastante sua trocação e Wrestling com o headcoach Ben Henderson na MMA Lab.

Tendo em vista a dificuldade de derrubar na grade, umas aulas particulares com o papai Megaton, faixa preta de Judô, também podem ser uma ótima pedida. Se conseguir surpreender as adversárias alternando seu poderoso ataque de single leg, com quedas “de varrida” como Ouchi Gari e Couchi Gari, Mackenzie certamente terá menos dificuldade de levar as oponentes para seu hábitat natural.

É justo já colocar o estreante Alexander Hernandez entre os top 13 dos leves?

Apesar de todo o mérito por ser chamado a 10 dias do evento (para substituir o contundido Bobby Green) e conseguir nocautear em apenas 42 segundos o 12º do ranking Beneil Dariush, discordo da votação dos colegas da imprensa que já o colocaram na 13º posição do ranking dos leves após o UFC 222.

Uma injustiça com atletas como Gregor Gillespie (invicto no MMA e com 4 vitórias no UFC), James Vick (4 vitórias consecutivas no UFC) e Leonardo Santos (há 6 lutas sem perder, invicto no UFC).

Penso que na hora de formularem seus rankings, os jornalistas devam levar em conta o grau de competitividade de cada divisão. Se o critério for meramente substituição de números (12º venceu 5º, passa a ser 5º?), não é necessário colocar profissionais que respiram e entendem o esporte para votar no ranking.

Bons exemplos de que a objetividade e o bom senso podem evitar bizarrices são Colby Covington em 3º nos meio médios (não estava nem ranqueado até vencer Demian Maia e tomar seu lugar) e Josh Emmett (que pulou de fora do ranking para o 4º lugar após nocautear Ricardo Lamas). Emmett já na primeira luta após Lamas foi nocauteado por Jeremy Stephens; Já Colby, passou a exigir lutas com o campeão Woodley, evitando qualquer oferta que venha “de baixo”.
Não estou aqui dizendo que Hernandez não possa ser um fenômeno que vá enfileirar toda divisão e um dia se tornar campeão, apenas acho que uma exibição de 42 segundos não é suficiente para colocá-lo na elite da divisão mais disputada do maior evento do mundo.

Foi justa a desclassificação de Hector Lombard?

Como falei comentando na transmissão do Combate ao lado do meu parceiro Prota: o jab aplicado por Lombard milésimos de segundos depois da buzina soar seria plenamente justificável, agora o direto que veio na seqüência enquanto o juiz gritava "stop" pela segunda vez em cima do lance foi a pá de Cal. Para completar o cubano ainda virou de costas e não demonstrou nenhuma surpresa ou arrependimento, deixando claro que ele sabia bem o que tinha acabado de fazer.
De qualquer maneira vale comentário a maneira como CB Dollaway “valorizou” o golpe numa malandragem excessiva.

Para efeito de contagem de pontos ao final do round, as comissões atléticas adotam um grau para estipular os níveis crescentes de abalo pelo knock down. No Knock down grau 1, por exemplo, o lutador cai sentado com as duas mão protegendo a queda, ou seja lúcido; no KD grau 2, o lutador cai pra trás sem a proteção das mãos e recobra a consciência na queda; No KD grau 3, cai para o lado sem os braços protegendo e recobra a consciência na queda; no KD grau 4 ele cai para frente e recobra a consciência na queda. Já no KD grau 5, o lutador “implode” caindo no eixo do próprio corpo e recobra a consciência na queda. Obviamente o Knock Down do CB foi grau 1, só que ele se comportou como se tivesse perdido totalmente a consciência, como num knock out. Outro sintoma de simulação foi a “progressão do estado de inconsciência”. Ele começou sem saber contar os dois dedos do médico e em poucos minutos não conseguia ficar de pé, tendo que ser retirado do Octógono de maca.

Uma atitude que me lembrou bastante a de Chris Weidman na luta com Gegard Mousasi no UFC 210, quando o americano simulou estar tonto (sem lembrar o dia da semana) após uma possível joelhada ilegal, mas acabou se dando mal quando o juiz Dan Miragliota usou o recurso de vídeo, confirmou que o golpe foi legal e decretou sua derrota por TKO.

Desta vez Dollaway acabou beneficiado por conta da clara intenção e ilegalidade do golpe do cubano, mas seria interessante que as comissões atléticas estejam de olho neste tipo de malandragem que pode vir a causar muitas polêmicas no esporte. Se no futebol o excesso de malandragem é coibido com cartões amarelos, há de haver no MMA alguma maneira de coibir este tipo de atitude que pode causar sérias injustiças.

Sean O'Malley: um novo fenômeno?

Pelo que exibiu em suas duas vitórias por decisão no UFC contra oponentes medianos, o garoto de 23 anos que caiu nas graças de Snoop Dogg e Dana White após aplicar um belo nocaute sobre o irregular Alfred Khashakyan no Tuesday Night Contender Series, ainda tem muito a evoluir para entrar no nível técnico dos tops de uma divisão encabeçada por TJ Dillashaw (campeão), e quem tem logo abaixo atiradores de elite como Cody Garbrandt (1), Dominick Cruz (2), Raphael Assunção(3), Jimmie Rivera(4), Marlon Moraes (5), e os Johns, Lineker (6) e Dodson (7).

Mas o tempo joga a seu favor. Se estiver cercado de bons managers e contar com a boa vontade dos matchmakers do UFC, Sean pode construir sua carreira sem pressa. O momento é de treinar e adicionar, luta a luta, mais armas a seu arsenal.

O fato é que "Sugar" O'Malley agradou ao patrão não só pelo “estilão irmãos Diaz” de ser, mas principalmente pelo estilo versátil e espírito guerreiro de lutar até o final da luta com Soukhamthath mesmo tendo machucado o tornozelo. No final recebeu o anúncio da vitória deitado no Octógono, numa cena que me remeteu a famosa vitória de Ronaldo Jacaré sobre Roger Gracie, com o braço quebrado, na final do mundial de 2008.

Muito aplaudido pelos fãs o garoto levou pra casa um bônus de US$ 50 mil por sua exibição. O novo talento terá tempo de sobra para curtir o presente, afinal de contas após o evento, a NSAC lhe deu uma suspensão de quase 5 meses em decorrência de sua contusão.

Mas voltando à pergunta, só o tempo dirá se O'Malley está mais para Sage Northcutt, irmãos Diaz ou Max Holloway.

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BRASIL, O PAÍS DO MMA FEMININO - 01/03/2018

“Quer fazer esporte radical, vai criar dois filhos sem babá em casa para ver se é mole”. Frases de cunho machista como a do líder da BTT Bebeo Duarte eram comuns em meados dos anos 90, quando as primeiras mulheres começavam a se arriscar em eventos de Vale-Tudo.

Confesso que eu era um dos que não nutria lá muita simpatia pelo MMA feminino. Não por ser contra mulheres lutando, mas principalmente pela minha traumática experiência com lutas femininas nestas primeiras tentativas nos anos 90, quando os promotores claramente casavam lutas entre meninas para trazer um componente “freak” ao show e incendiar a torcida.

A primeira vez que vi duas mulheres num ringue foi no 3º FreeStyle, em São Paulo, em 1995. Na mesma noite em que Jorge Patino (até 80kg) e Jorge Pereira (até 90kg) consagravam o Jiu-Jitsu vencendo três lutas em uma noite, fotografei Alcimara Linger vencendo Adriana Miranda ainda no primeiro round numa verdadeira briga de bar, com direito a puxão de cabelo, pisão e socos da montada. Para completar o árbitro ainda demorou e interromper.

Em 1996 tive outra experiência negativa, desta vez no torneio FreeStyle, em Belém, onde Carmem Casca-Grossa, que começava a praticar Jiu-Jitsu, atropelou uma boxer local sem nenhuma resistência.

Mas a terceira foi ainda mais traumática. Tinha ido ao Japão para cobrir o Pride 4 em 1998 e resolvi acompanhar o colega Susumu Nagao num evento pequeno de Vale-Tudo na companhia dos mestres Carlson Gracie e Oswaldo Paquetá. Vale contextualizar que aquele era um momento em que o Vale-Tudo começava a ganhar espaço no Japão, mas nada que se aproximasse do consagrado Pro-Wrestling. A diferença é que lá, ao contrário de Brasil (telecatch) e EUA (WWE), os fãs não tinham a clareza de que as lutas eram combinadas, o que acabou levando muitos promotores a misturarem as estações, ou seja, trazer grandes ícones do “fake” para popularizar o Vale-Tudo fazendo lutas combinadas.

Nunca entendi como as pessoas não percebiam a diferença entre uma luta real e uma combinada até ir com Carlson neste pequeno evento, o qual não me recordo o nome.
Na única luta feminina da noite, lembro que me impressionei com a atuação de uma japonesa de pouco mais de 60kg que, após apanhar muito, conseguiu aplicar um armlock na oponente de quase 100kg. Confesso que fui levado pela empolgação do público nesta que seria minha primeira “experiência positiva” no MMA feminino. Mas Carlson tratou de me trazer a realidade. “Tú é ingênuo, hein, bichão. Acreditou que a Japinha virou a luta. Aquilo foi um marmelo indecoroso”. Minha ingenuidade ainda rendeu um bullying pesado por parte do mestre até o fim da viagem.

Finalmente, depois desta terceira tentativa, passei a ter uma opinião consolidada com relação ao MMA feminino: era inviável.

Lição da “Cyborguinha”

Mas jornalistas não podem ter certezas inabaláveis, e eu demorei quase sete anos para aprender a lição. Em 2005, no auge da era Pride, em uma das minhas visitas bimestrais à Chute Boxe, vi uma menina fazendo um sparring duro com um peso pena da equipe. Ao perceber meu interesse, o mestre Rudimar Fedrigo, orgulhoso, me apresentou a “Cyborguinha” (ganhara o apelido não só por ser namorada do Evangelista Cyborg, mas por ter características semelhantes a ele) e logo após o treino, me revelou em primeira mão que, mesmo com apenas três meses de academia, decidira testar a agressividade e o talento da moça colocando-a para estrear no Vale-Tudo contra uma atleta da BTT (Erica Paes) na segunda edição do Showfight, de Oscar Marone, em Maio de 2005.

Apesar de só ter durado 1 minuto e 46 segundos, a versão feminina do maior clássico do MMA mundial na época foi uma das melhores lutas do evento e levantou a galera. A “Cyborguinha”, que aprendi pelo cartaz do evento que se chamava Cristiane, começou aplicando um knock down na oponente, mas deslocou o braço ao ser raspada e acabou desistindo quando tentou fugir o quadril para defender um leglock aplicado pela atleta da BTT, e contundiu ainda mais o braço.

Na seqüência Cris voltaria ao ringue com o braço na tipóia para explicar ao publico o ocorrido e pedir uma revanche imediata. Que acabaria nunca ocorrendo.

Seis meses depois da estréia, Cris me ajudaria a mudar em definitivo minha visão sobre o MMA feminino fazendo, em sua segunda luta, outro confronto histórico contra a mais experiente Vanessa Porto no Storm Samurai 9, em Curitiba.

Vanessa, que hoje luta na categoria mosca, vinha de três vitórias consecutivas no 1º round e trocou 15 minutos com Cyborg, levantando o publico curitibano e, pela primeira vez, fazendo uma luta feminina ser considerada a melhor da noite.

Com esta luta histórica, as duas mostraram a todos aqueles que, como eu, se opunham ao MMA feminino que o sexo não era uma questão naquele esporte, bastavam oponentes à altura, ou seja, competitividade, e elas seriam capazes de fazer lutas tão ou mais emocionantes que os homens.

Aos poucos, outros talentos femininos foram entrando em cena proporcionando mais grandes clássicos nacionais como: Carina Damm x Michele Tavares; Ana Maria Índia x Vanessa Porto; Amanda Nunes x Ediane Gomes e tantos outros.

Na esteira do sucesso das meninas do Brasil, os americanos começaram a colocar divisões femininas em eventos como o Strikeforce, que em 2009 contratou Cris Cyborg. A curitibana se tornaria campeã ao nocautear no 1º round a bela Gina Carano, a mais popular lutadora americana da época.

Em 2007, surgiria o primeiro evento exclusivamente feminino, o Fatal Femmes Fighting (FFF), que serviria de inspiração para a criação do Invicta em 2012, até hoje o principal evento exclusivamente feminino do mundo.

Mesmo com o aumento da competitividade e a explosão de popularidade do MMA feminino, muitos dirigentes ainda se mostravam reticentes com relação à capacidade feminina no esporte. Dentre eles, Dana White, que se mantinha irredutível até assistir à finalização de uma tal Ronda Rousey sobre Sarah Kaufman em apenas 54 segundos em agosto de 2012 e decidir mudar de ideia, fazendo em fevereiro de 2013 no UFC 157 a primeira luta feminina da história do UFC. A finalização de Ronda sobre Liz Carmouche no card principal do evento iniciou uma das maiores revoluções da história do esporte.

Hoje o MMA feminino conta com 4 categorias no maior evento do mundo, no qual o Brasil é considerado a maior potência do esporte com dois cinturões (Cris Cyborg e Amanda Nunes) e tem a chance real de disputar um terceiro (com Jéssica Andrade) em curtíssimo prazo.

Se no passado se discutia se mulheres deviam lutar MMA, hoje nos perguntamos o que seria do MMA nacional sem as mulheres?

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MMA NA SAPUCAÍ - 15/2/2018

Uma pergunta em tom de brincadeira que a colega Ana Hissa fez a mim na última edição do “Revista Combate”, em plena terça-feira de carnaval, me fez matutar: por que a história do MMA nunca virou enredo do carnaval? Difícil imaginar enredo mais rico para ser explorado do que os 104 anos de história de um esporte criado por um brasileiro e que hoje é um dos mais populares do mundo.

Lembro que em meados dos anos 90, logo após as primeiras vitórias de Royce no UFC, um carnavalesco de uma escola de samba do grupo de acesso chegou a pensar em levar a história da família Gracie para a avenida, mas acabou sendo demovido da ideia quando foi apresentado ao mestre Carlson Gracie. “Tá ficando louco, bichão? Se botar um monte de cascas-grossas de quimono todo duro na avenida, você só vai levar zero! É derrota na certa!”, disse o mestre com a “delicadeza” que lhe era peculiar. Após o banho de água fria, o carnavalesco certamente decidiu mudar de enredo.

O fato é que de lá pra cá muitas águas rolaram e a história, que já era riquíssima, acabou sendo consagrada com a explosão mundial do MMA, carreada pelo sucesso do UFC e de vários campeões brasileiros que surgiram depois de Royce. E graças a esta popularização, o esporte passou a ser entendido como algo produzido no Brasil e que gera enorme impacto global.

Se muitas vezes os carnavalescos têm a capacidade de transformar histórias sobre outras culturas e países distintos em enredos fantásticos, imaginem trabalhando com um assunto rico e genuinamente nacional como este.

Até eu que não sou do ramo já consigo imaginar os carnavalescos deitando e rolando: Conde Koma se despedindo de seu mestre Jigoro Kano no Japão e fazendo desafios pelo mundo; o encontro do japonês com Gastão e seu filho Carlos em Belém; a chegada da família Gracie no Rio de Janeiro em 1925; os desafios dos irmãos Gracie e a luta de Kimura e Hélio no Maracanã; Carlson Gracie vingando o tio da derrota para Valdemar Santana; Rorion chegando aos EUA como imigrante fritando hambúrgueres e fazendo desafios em sua garagem; o primeiro UFC e a consagração de Royce e do Jiu-Jitsu brasileiro; a transformação do esporte promovida por Dana White e os irmão Fertitta; a inclusão social propiciada pelo esporte no Brasil e no mundo no carro “Mais Forte que o Mundo” (com José Aldo de destaque); terminando em grande estilo com um carro com os maiores ídolos de várias gerações do esporte: Marco Ruas, Anderson, Minotauro, Wanderlei, Belfort e tantos outros gênios que escreveram a história deste esporte.

O grande mestre Carlson Gracie que me perdoe, mas com uma história riquíssima como essa, o samba no pé dos nossos “destaques cascas-grossas” não seria motivo para dependermos de decisão de jurados. Aposto em vitória, e por nocaute.
Alô, Alô, Paulo Barros, Rosa Magalhães e outros gênios do carnaval, pensem com carinho na ideia antes que algum diretor de Hollywood chegue na frente e conte a história nos cinemas por um enfoque “mais contemporâneo”, talvez enfatizando a genialidade de três americanos que deram uma nova roupagem ao Vale-Tudo brasileiro, comprando por 2 milhões de dólares em 2000 como um evento que promovia o desafio entre modalidades e vendendo por 4.2 bilhões em 2016 como a franquia mais cara da história. Sem dúvida, outro belo enredo real que teria tudo para brigar pelo Oscar. O fato é que seja no Carnaval ou na tela dos cinemas, os 104 anos de história entre o Vale-Tudo e o MMA são um tema riquíssimo e ainda muito pouco explorado.

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CARLSON GRACIE E SEUS "CREONTES" - 8/2/2018

O primeiro dia do mês de fevereiro marcou o 12º aniversário da morte de um dos maiores ícones da história das lutas, o mestre Carlson Gracie. Filho mais velho dos 21 feitos por Carlos Gracie, Carlson passou a ser o representante da família assim que seu tio Hélio se aposentou, em 1955. Desde que entrou em cena vingando a derrota do tio para o roupeiro da academia Gracie e seu parceiro de treinos Valdemar Santana, até se aposentar, Carlson foi o número 1 da família por 19 anos.

Apesar de toda a competência como lutador, foi como treinador que Carlson descobriu sua maior vocação: produzir campeões. Durante mais de duas décadas sua equipe dominou os principais campeonatos de Jiu-Jitsu em quase todas as categorias. E quando o Vale-Tudo foi levado ao mundo por Rorion Gracie, foi a equipe de Carlson que mais exportou profissionais para o UFC, Pride e outros shows.

Tive a honra e a sorte de começar a cobrir o esporte exatamente nessa época, e por viajar muito para cobrir os maiores nomes do Brasil, acabei me aproximando muito do mestre. Indiscutivelmente, a figura mais carismática que já conheci. Sua total falta de preocupação com dinheiro, a maneira como tratava a todos de maneira igual e a capacidade de criar gírias e expressões (imediatamente incorporadas ao mundo da luta) faziam de Carlson um personagem único.

Muitas de suas expressões vinham do mundo das rinhas de galo (corrido, esgana-galo), outras do dia a dia da academia (poderoso) e outras surgiam de uma outra grande paixão do mestre, as novelas.

E foi inspirado no vilão “Creonte”, interpretado por Gracindo Jr. na novela “Mandala” (de Dias Gomes, dirigida por Ricardo Waddington, exibida pela Globo em 1987) que Carlson criou um dos termos mais populares, que passou a designar lutadores traidores, ou seja, que trocavam uma equipe por outra.

Um dos primeiros a receber o “carinhoso” apelido foi seu faixa preta André Pederneiras, que logo após a explosão do UFC, em 1993, percebeu que não havia como esconder o Jiu-Jitsu dos estrangeiros e decidiu ensinar a arte ao americano John Lewis, despertando a ira de Carlson. Para azar de André, Lewis acabaria lutando anos depois contra Carlson Jr., filho do mestre. Pederneiras seria o primeiro de centenas de “creontes” apontados pelo mestre.

Curiosamente, no meu primeiro encontro com Carlson, tive a “honra” de receber uma derivação semântica do termo. Fui apresentado ao mestre por Wallid Ismail em um desafio de lutas casadas de Jiu-Jitsu em 1993. Sentado ao lado de Carlson, Wallid pediu para ver as imagens que eu havia feito de sua luta com Renzo Gracie, mas antes me apresentou ao mestre. Confesso que fiquei até nervoso quando apertei a mão daquele senhor de quem meu pai sempre falava lembrando da histórica luta que lotou o Maracanãzinho.

Querendo ser simpático, enquanto Wallid escolhia suas fotos, fui fazer a burrada de oferecer ao mestre o meu book com algumas das melhores imagens que havia feito de alguns campeonatos de Jiu-Jitsu. Basicamente, uma coletânea de fotos dos atletas da Gracie Barra e da academia onde eu treinava, a Clube Barra. Como ainda estava me ambientando ao mundo do Jiu-Jitsu, não tinha a menor ideia do nível da rivalidade entre as academias naqueles tempos. Por isso, inicialmente, não entendi a reação de Carlson ao fechar o álbum e me devolver vociferando: “Que fotógrafo creontão da pesada é você, hein, bicho! Só tem foto da Barra! Que isso?!”. Não sabia se ria ou se me retirava diante da grosseria gratuita daquele cara que meu pai tinha como ídolo. Mas resolvi tentar argumentar dizendo que seria uma honra tirar foto dos seus atletas também.

Percebendo que tinha errado na dose, Carlson respondeu fazendo um convite que mudaria os rumos da minha carreira, abrindo o caminho para uma grande amizade. “Você tira fotos boas, pode aparecer lá na academia que será muito bem recebido”. Wallid aproveitou a deixa do mestre e barganhou um "pacote especial" para quando fosse a academia, o que acabou sendo um importante passo na minha carreira, uma vez que, após esta primeira visita ao Carlson, passei a visitar a academia com frequência, fazendo diversas reportagens para a revista KIAI e, posteriormente, para a TATAME.

Aos poucos o Vale-Tudo se transformou em MMA e as principais equipes passaram a perceber a importância da atualização de treinadores e técnicas. E foi exatamente esta abertura do mercado que gerou milhares de empregos para os faixas pretas brasileiros nos quatros cantos do mundo. Hoje é cada vez mais natural que atletas profissionais busquem os chamados camps de treinamento para cada luta. Esta nova mentalidade acabou transformando a creontagem num termo cada vez menos utilizado, que nos remete ao início do esporte e nos faz lembrar do maior criador de gírias, grandes campeões e grandes treinadores da história do esporte, o mestre Carlson Gracie.

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EMPURRÃO DA VELHA GUARDA - 5/2/2018


Se algum roteirista escrevesse a estreia perfeita para o UFC em Belém, talvez não tivesse sido tão competente. Além da vitória do maior ídolo local na luta principal, os mais de 10 mil paraenses que quase lotaram a arena Mangueirinho assistiram à maior goleada brasileira das 31 edições do UFC já realizadas no país: foram 9 vitórias em 11 lutas contra lutadores estrangeiros, descontando a surra de 9 a 1 que havíamos levado em Janeiro e encostando no placar, que agora está 11 a 10 para os gringos.

Como era esperado, Lyoto Machida fez uma luta tensa com Eryk Anders, e mesmo com toda a pressão por vir de quatro derrotas nas últimas cinco lutas e ter que fazer bonito em casa, superou as expectativas contra o favorito da nova geração. É bem verdade que, assim como na luta entre Anderson Silva e Derek Brunson, o respeito do novato pela lenda acabou fazendo a diferença.

Mesmo estando sem o timing e a rapidez que fez seu jogo tão temido na chamada era Machida (período entre 2003 e 2009, no qual Lyoto esteve invicto), o ídolo local conseguiu escapar do perigoso ground'n'pound do americano, usando sua movimentação e seu jogo de contragolpes para confundi-lo, garantindo uma vitória na decisão dividida.

Apesar da boa exibição do ex-campeão, ficou claro mais uma vez que o fator tempo precisa ser respeitado. E este bom senso tem que partir não só dos matchmakers, mas principalmente dos treinadores e managers, pois se depender dos lutadores (ainda mais se tratando de ex-campeões como Anderson, Belfort e Lyoto), estes sempre estarão prontos para aceitar desafios contra as maiores pedreiras da nova geração. Mas se existem outros veteranos ex-campeões que podem protagonizar grandes clássicos, como Rashad Evans e Michael Bisping, por que não buscar confrontos que façam mais sentido?

Num momento em que Cris Cyborg refuta uma disputa de cinturão com a compatriota Amanda Nunes valendo como luta principal do UFC Rio 9, talvez uma boa alternativa fosse casar Vitor Belfort e Lyoto Machida como coringa deste card. Certamente a disputa entre o Leão e o Dragão, dois ídolos mundiais da modalidade, teria tudo para ser um tempero a mais e alavancar as vendas de pay-per-view do UFC 224, já agendado para o dia 12 de maio na Jeunesse Arena.

Ambos já declararam que a amizade entre eles não seria nenhum empecilho para protagonizarem este clássico histórico. Se para Belfort fazer sua última luta em um UFC numerado seria uma despedida à altura por toda sua história com o evento; para Lyoto, este combate seria uma ótima maneira de se manter ativo e ainda carimbar sua participação na despedida de outro campeão veterano, Michael Bisping, a quem ele pediu na saída do octógono em Belém.

O fato é que o MMA se encontra num período de renovação, e enquanto novos ídolos começam a se estabelecer, os grandes ícones da velha guarda ainda podem ter um importante papel para continuar alavancando o esporte que ajudaram a construir.

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Charge: David Carvalho  

Salve, amigos da luta e fãs do UFC! É com muito prazer que, a partir de hoje, dividirei este espaço com vocês. Aqui, no Blog Por Trás do Octógono, pretendo debater assuntos polêmicos, analisar eventos já ocorridos e também os que ainda estão por vir, falar de novos talentos e, principalmente, valorizar a história do nosso esporte.    

Semanalmente trarei imagens e causos curiosos de momentos que marcaram os bastidores destes 26 anos que venho cobrindo MMA, além de relembrar personagens importantes - muitas vezes esquecidos -, que tiveram participação fundamental nos tempos em que o MMA ainda se chamava Vale-Tudo.

Fiquem à vontade para criticar, debater, deixar sugestões e opiniões para que possamos transformar este espaço em mais uma praça de debates democráticos que tanto engrandecem o nosso esporte. 

VOLTA ÀS ORIGENS - 2/2/-2018

E por falar em história, não poderia haver data melhor para estrearmos este espaço. No ano em que completa 25 anos, o UFC chega neste sábado a Belém do Pará, cidade onde tudo começou, há 104 anos, no encontro entre Gastão Gracie e o japonês Mitsuyo Maeda. 

Definitivamente, se existe um marco zero do MMA mundial, este lugar é a praça da República, em Belém, onde hoje está localizado o hotel Princesa Louçã (antigo Hotel Hilton). Era lá que ficava localizado o American Circus, empresariado por Gastão, pai de Carlos e Hélio Gracie. Segundo apurou o historiador amazonense Rildo Heros, em 1914 Maeda teria desafiado e vencido o lutador Alfredo Leconte, que na época era o Hércules, principal lutador do circo. 

Depois disso, o japonês passou a fazer desafios no American Circus, além de dar aulas de Jiu-Jitsu no Cine Teatro Moderno (onde está hoje a praça do Cam), localizada em frente a Basílica de Nazaré, onde Gastão matriculou seu filho mais velho, Carlos. 

O resto da história todo mundo conhece. Carlos, Hélio e seus irmãos passaram a fazer no Brasil o que o mestre Mitsuyo Maeda fizera desde que abandonou a Kodokan em 1906: desafios para comprovar a superioridade do Jiu-Jitsu sobre outros estilos de luta.

Após consagrar o nome Gracie vencendo desafios contra as mais diversas modalidades por três gerações, a família levaria, por intermédio de Rorion (filho mais velho de Hélio) a concepção de desafios sem regras para o mundo com a criação do UFC, em novembro de 1993. 

Curiosamente, Belém voltava à cena em dezembro de 1994, mês em que Royce Gracie consagrava o Gracie Jiu-Jitsu vencendo seu terceiro torneio, enfileirando um total de 13 oponentes (em três torneios).Uma chuva torrencial derrubaria o túmulo do Japonês Mitsuyo Maeda em Belém.

Ao ser informado do ocorrido com os restos mortais do homem que trouxe o Jiu-Jitsu para o Brasil, Yoshizo Machida, pai de Lyoto, na época com 15 anos, fez questão de ir ao cemitério, juntar os ossos do compatriota e levá-los para sua casa enquanto buscava apoio para reconstrução da sepultura.

“Limpei com bombril, e com a ajuda da associação Nipo Brasileira e da Universidade Kokushikan conseguimos doações para remontar o túmulo alguns meses depois”, me revelou Seu Yoshizo em 2009, quando estive em sua casa para fazer uma matéria sobre Lyoto, que acabara de nocautear Rashad Evans, se consagrando campeão meio-pesado do UFC.

Neste final de semana, o ciclo se completará e o povo paraense finalmente terá a oportunidade de usufruir do esporte que lá foi gerado e hoje é, sem dúvida, um dos que mais cresce no planeta, propiciando uma vida digna para milhares de treinadores, lutadores e profissionais de várias áreas no mundo todo.