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Blog Por Trás do Octógono, por Marcelo Alonso

02 de Fevereiro de 2018

DEMIAN: 0 EXTERMINADOR DE ZEBRAS - 19/05/2018

Convidado a três semanas do UFC Chile para substituir Santiago Ponzinibio para enfrentar Kamaru Usman na luta principal do UFC Chile, Demian Maia, 5º do ranking dos meio-médios, aceitou o indigesto desafio.

 Além de ter a vantagem de ter feito um camp completo, o "Pesadelo Nigeriano" vem de uma sequência impressionante de sete vitórias no maior evento do mundo.

 Vindo de duas derrotas contra os também wrestlers Tyron Woodley e Colby Colvington, o brasileiro tem sido apontado como zebra pela grande maioria dos analistas do MMA, principalmente pelo fato de a luta ser disputada em 5 rounds e Demian não ter feito um camp completo.

 De suicida unidimensional a campeão

 Mas certamente a pecha de zebra não é algo que assuste o brasileiro. Muito pelo contrário, pode ser até um bom presságio. Há pouco mais de onze anos assisti da beira do ringue a estréia de Demian no MMA nacional numa situação bem pior. O Super Challenge foi, sem dúvida, o torneio até 84kg mais difícil já realizado no Brasil. Na chave estavam expoentes com farta experiência internacional, inclusive em torneios sem limite de peso. Diante de nomes como Alexandre Cacareco, Gustavo Ximú, Alexandre Chocolate e Fabio Negão, o campeão de Jiu-Jitsu Demian Maia era visto como um suicida unidimensional. 

 E foi nesta noite que aprendi que, muitas vezes, teoria e MMA não combinam. Mesmo sem saber trocar um soco, Demian, que já tinha vencido uma luta de MMA na Venezuela e outra na Finlandia, não teve problemas para derrubar e finalizar com um mata-leão o faixa preta de Fábio Noguchi, Katel Kubis, aos 3min30s do 1º round.

 Mas foi na semifinal que o faixa preta de Fábio Gurgel impressionou a todos ao vencer o favorito Gustavo Ximú, que eliminara o faixa preta de Luta-Livre Leonardo Chocolate na primeira luta. Ximú tinha 18 lutas de MMA no currículo já tendo lutado em eventos internacionais, como RINGS, Deep e Pancrase. Dada a sua capacidade de bloquear quedas e manter a luta em sua zona de conforto, Ximú era tido como o pior casamento para Demian (pior até que Cacareco que estava do outro lado da chave).

 Mas Demian surpreendeu e depois de um primeiro round disputado, terminou o segundo montado em Ximú, vencendo na decisão e chegando na final inteiro contra Fábio “Negão” Nascimento, faixa preta de Jiu-Jitsu. Fábio já estava bastante desgastado, vindo de duas guerras com Carlos Baruch e Felipe Mongo (que eliminou Cacareco), e acabou sendo uma presa fácil para Demian, que o finalizou com uma guilhotina em 35 segundos. 

 Para surpresa de todos, Demian finalizara a zebra, faturando o cinturão, 35 mil reais e ainda saindo e cara limpa. Começava ai uma das mais brilhantes carreiras de um representante do Jiu-Jitsu no MMA. Um ano depois de vencer o Super Challenge, Maia faria sua estréia no UFC, marcada inicialmente pela mesma desconfiança daquela primeira noite. Com a evolução do esporte, como um lutador focado numa única arte conseguiria sobreviver?

Pois Demian dedicou os 10 anos seguintes de sua vida a responder esta pergunta, calar teóricos e exterminar zebras. Não só sobreviveu, como se transformou no mais respeitado e temido representante do Jiu-Jitsu no UFC. Misturando seu profundo conhecimento de defesa pessoal com técnicas de Wrestling, Maia desenvolveu uma técnica de pegada pelas costas que aterrorizou quase todos os seus oponentes e o transformou no brasileiro com maior numero de vitórias nestes 25 anos de UFC (19).

Diante de um histórico deste, não será nenhuma surpresa se neste sábado (19) Demian Maia calar os teóricos mais uma vez, surpreendendo o "Pesadelo Nigeriano".

DESTAQUES DO 2º MELHOR UFC JÁ REALIZADO NO RIO - 14/05/2018

Depois de alguma desconfiança, eis que o UFC Rio 9 superou todas as expectativas e se traduziu num eventaço recheado de nocautes e finalizações. Na minha opinião, a segunda melhor das nove edições já realizadas em terras cariocas, só perdendo para a primeira (UFC 134), estrelada por Anderson, Minotauro e Shogun.

Teve Amanda defendendo seu cinturão pela terceira vez, Lyoto Machida nocauteando Belfort em sua luta de aposentadoria, Gastelum surpreendendo Jacaré, e mais uma penca de nocautes e finalizações. Escolher os bônus de Performance (Lyoto e Oleynik) e Luta da Noite (Jacaré x Gastelum), definitivamente, não foi tarefa fácil para o staff do UFC.

Mas se houvesse um prêmio para a imagem mais marcante, a tarefa não seria tão difícil: Lyoto ajoelhado cumprimentando Belfort, caído inconsciente no chão. Respeito, preocupação, superação. Se aquela imagem por si só já entoava diversos significados, é difícil descrever seu peso para quem estava presente na arena. O público de pé, ao mesmo tempo em que parecia querer aplaudir a técnica e o respeito marcial de Lyoto, em silêncio aguardava algum movimento do ídolo. Quando Belfort finalmente recobrou a consciência, um sussurro aliviado tomou conta da arena, que na sequência emendou aplaudindo e gritando o nome do ídolo: “Vitor! Vitor! Vitor”. Um reconhecimento emocionado aos seus quase 22 anos de serviços prestados ao esporte. Sem dúvida, um momento histórico, no qual o fã pôde assistir um dos maiores ídolos da história do esporte desamarrar as luvas e deixá-la no octógono.

Depois de Couture e Belfort, Lyoto quer aposentar Bisping  

Escolhida para abrir o card principal, a luta entre os veteranos ex-campeões meio-pesados vinha sendo apontada por muitos como a mais aguardada da noite. E esta tensão se refletiu em muito estudo e um primeiro round morno, no qual Machida condicionou Belfort a defender seu Mawashi Geri na linha de cintura. No segundo round, porém, o karateca voltou disposto a surpreender usando o mesmo golpe, só que mudando o alvo. Belfort ainda ameaçou defender em baixo, mas o coice veio certeiro no queixo, exatamente igual ao que aplicara em Randy Couture há sete anos (UFC 129), em sua luta de aposentadoria. Graças a esta coincidência, o chute de Lyoto foi apelidado nas redes sociais de retirement kick (chute de aposentadoria).

E se depender de Machida, o golpe será imortalizado aposentando uma terceira lenda, Michael Bisping. Na entrevista após a luta, Lyoto pediu o inglês, ex-campeão dos médios. Se a vitória sobre Belfort deve lhe puxar do 12º para o 9º lugar, uma vitória sobre Bisping poderia deixá-lo na 6º posição, talvez a uma luta de uma, até pouco tempo improvável, nova disputa de cinturão. Apesar de já ter dito que não gostaria mais de bater 84kg, Bisping poderia se interessar em lutar numa categoria intermediária com Machida. Um duelo de ex-campeões que tem bons ingredientes para alavancar um pay-per-view na Europa, além de combinar a realidade “física e etária” de ambos atletas.     

Amanda carimba o passaporte para enfrentar Cyborg

Pela primeira vez lutando no Brasil como campeã, Amanda Nunes não teve problemas em conseguir sua terceira defesa consecutiva de cinturão. Foram quase 23 minutos de domínio, nos quais a brasileira usou muito bem os low kicks minando a perna da oponente (Raquel tinha sofrido um acidente em dezembro de 2017 e teve sua panturrilha esquerda esmagada. Chegou a ter risco de amputação). Por mais que estivesse recuperada do acidente, certamente os low kicks da brasileira tiveram um importante papel para minar a confiança da oponente desde os primeiros minutos de luta. Mostrando superioridade no boxe e também aplicando algumas quedas em Pennington, Amanda foi minando a oponente que no intervalo do 4º para o 5º round sinalizou que não tinha mais condições, mas acabou convencida pelo treinador Jason Kutz a continuar.

Raquel resistiu até 2min36s do 5º round, quando a campeã aplicou uma queda derradeira e obrigou o árbitro Marc Goddard a interromper com socos e cotoveladas no ground and pound.

Depois de limpar a divisão, tudo indica que o próximo passo de Amanda será mesmo uma unificação de cinturão com Cris Cyborg. Dada a falta de ameaças reais para ambas em suas respectivas categorias, esta superluta tem tudo para atrair a atenção dos fãs e ser mesmo a próxima opção do UFC.       

Gastelum, um novo Dan Henderson?

Em 2015, depois de fazer uma luta dura contra o futuro campeão dos meio-médios Tyron Woodley (venceria o campeão Lawler na sequência), Kelvin Gastelum passou a ter problemas para bater o peso na divisão e resolveu subir de 77kg para 84kg. Com seu 1,75m e sendo conhecido pelo seu bom wrestling e limitação na trocação, tudo levava a crer que o americano seria trucidado numa divisão recheada de bons strikers e grandalhões como Luke Rockhold, Chris Weidman e Yoel Romero. Mas Gastelum, contra tudo e contra todos, mostrou mais uma vez que MMA não é ciência exata. Com a ajuda de Rafael Cordeiro, que trabalhou sua potente mão esquerda e o deixou mais confiante em pé, o wrestler se transformou no segundo striker mais temido da divisão (atrás apenas do campeão Whittaker). Uma espécie de Dan Henderson canhoto (que tinha compleição de médio e nocauteou alguns dos principais meio-pesados do Pride e UFC. Até Fedor foi nocauteado pela sua Big Right Hand).

Com um queixo duríssimo, muito gás e uma bomba na mão esquerda, Gastelum nocauteou os favoritíssimos Tim Kennedy, Michael Bisping e Vitor Belfort, aplicou knockdown e quase venceu no 1º round o ex-campeão Chris Weidman (4º da divisão) - o homem que destronou Anderson teve que ser muito tático para conseguir virar conseguindo uma finalização com um katagatame no 3º round. Mas foi no último sábado que o atleta da Kings MMA conquistou a vitória mais importante de sua carreira, contra o 2º do ranking dos médios, Ronaldo Jacaré.

Com o jogo do brasileiro muito bem mapeado por Rafael Cordeiro, Gastelum sobreviveu ao chão de Jacaré no primeiro round e deu o troco nos rounds subsequentes, quando o brasileiro cansou como nunca havia cansado em nenhuma outra luta. A frustração por não conseguir derrubar Gastelum e o gás muito aquém do seu normal foram os fatores que definiram o combate em favor do americano. Temido pela sua combinação intermitente de explosão com chão e cardio acima da média, Jacaré lutou no modo zumbi no 2º e 3º rounds, contando com seu coração gigantesco e um certo respeito de um inteiríssimo Gastelum para chegar ao final.

Tirando a luta com Whitaker, onde estava com o músculo peitoral rompido e nem deveria ter lutado, esta foi a pior atuação de Ronaldo Jacaré no octógono. Lento e plantado, piorou muito na parte em pé e apresentou um condicionamento muito aquém do que costuma apresentar. Para qualquer um que não conheça o potencial físico de Jacaré seria até natural atribuir o cansaço à questão do declínio fisiológico em consequência dos seus 38 anos. Mas esta teoria não faz sentido no caso de um atleta privilegiado fisicamente que, assim como Yoel Romero (41 anos), tem plenas condições de lutar em alto rendimento por, pelo menos, mais 4 anos.  

Mas para isso é necessário que o atleta ainda esteja disposto a se entregar. Jacaré dedicou ao menos 22 anos de sua vida ao treinamento de altíssima intensidade. Nos últimos anos pagou um preço caro por toda esta dedicação, com contusões. Sua maneira de remediar foi saindo de uma equipe onde fazia sparring pesado quase todos os dias (X-Gym, no Rio) - e consequentemente se contundia muito -, para uma equipe pequena na Flórida onde não é tão exigido nos treinos. A solução está em reconhecer as falhas e encontrar um equilíbrio nesta rotina de treinos buscando um meio termo. Bons sparrings e preparação física diferenciada são condições básicas para um atleta performar entre os melhores do UFC. Se não tiver interesse de treinar na ATT, MMA Masters ou KNOX 365 (todas de portas abertas para Jacaré e a poucas horas de sua casa na Flórida), o brasileiro vai precisar contratar sparrings e se dedicar mais à preparação física. Se voltar a ter o gás e a explosão que sempre caracterizaram seu jogo, Jacaré continuará a ser respeitado por todos na divisão e certamente chegará a tão sonhada disputa de cinturão.

O Wolverine de Paranaguá  

Depois de ter seu maxilar quebrado na luta com TJ Dillashaw, era de se imaginar que John Lineker adotasse um estilo mais estratégico, se expondo um pouco menos. Mas o que aconteceu foi exatamente o contrário. Ao ouvir de seu médico que após a operação teria um maxilar de titânio, o “Mãos de Pedra” voltou ao octógono mais agressivo que nunca. Depois de testar e aprovar o maxilar contra Marlon Vera (venceu na decisão), Lineker voltou ao octógono com a missão de nocautear falastrão Brian Kelleher, que após finalizar Iuri Marajó com uma guilhotina em sua estreia no UFC e chegar perto de vencer Renan Barão por nocaute técnico no 3º round, prometeu que não fugiria da trocação com o 6º do ranking dos galos.

E o americano cumpriu a promessa. Tirando duas tentativas de queda e uma guilhotina, Kelleher trocou chumbo grosso com o paranaense por exatos 13m43s e deu um selo de qualidade especial ao queixo do “Wolverine de Paranaguá”, que a cada minuto parecia aumentar o volume de golpes, sempre alternando entre cabeça e linha de cintura. O americano já dava a impressão que resistiria até o final, até uma mão de pedra entrar em cheio em seu queixo e ele cair nocauteado, para delírio da torcida.

Octógono não é lugar de política e religião

Mais uma vez a torcida brasileira deu show, desta vez até aplaudindo os estrangeiros que venceram, como Oleynik e Gastelum. O puxão de orelhas vale para os lutadores que vêm desenvolvendo ultimamente o péssimo hábito de falar de política nos poucos segundos que têm para tentar cavar uma próxima luta ou se vender para os fãs. Uma mensagem que será ouvida pelo patrão, pela arena e pelos milhares de fãs que assistem ao evento na TV em 160 países. Aí vem o lutador e fala de política ou discorre sobre sua devoção a Deus. Será que não dá pra entender que quem está vendo o UFC não tem o menor interesse em sua preferência religiosa ou política? Pessoalmente sou contrário a multas, mas acho que já valeria o UFC começar a instruir de maneira mais incisiva para que os lutadores evitem manifestações políticas e religiosas em respeito aos fãs que, afinal, estão sintonizados ali buscando entretenimento e esporte.

O doping da balança

Fazendo sua segunda luta no UFC em pouco mais de dois meses, Mackenzie Dern desta vez não teve problemas para levar a luta para sua zona de conforto, e com um belo overhand derrubou a oponente. Por cima, não teve dificuldades de pegar as costas e encaixar um mata-leão, obrigando Cooper a bater a 2min27s do 1º round. Mas não dá negar que a bela atuação da filha de Wellington Megaton acabou manchada pela sua falta de comprometimento e profissionalismo em bater o peso.

Mackenzie, que chegou a declarar na semana anterior ao evento que comia de tudo e não vinha se preocupando com uma dieta específica para esta luta, bateu 3.2kg acima da categoria. A luta só ocorreu graças ao profissionalismo da oponente. No final das contas, 30% de multa (20% para Cooper e 10% para a CABMMA) acabou saindo barato para Dern, que graças à vitória recebeu o dobro da bolsa.

Mackenzie é o sexto caso só este ano de um lutador que não bate o peso estipulado em contrato, paga multa e vence sua luta. Se alguma regra mais dura não for implementada pelas Comissões Atléticas, ficará a mensagem de que não vale a pena sofrer dias com dietas e desidratações para cumprir o contrato. Se o principal objetivo da política antidoping da USADA é a isonomia (igualdade de condições entre atletas), não faz sentido permitir que um atleta se apresente para a luta na categoria de cima (Mackenzie ficou a 2 libras da categoria mosca) e a luta continue ocorrendo.   

Na conferência de imprensa logo após a luta, Dern revelou que o UFC a convidou para passar um tempo em Las Vegas fazendo um trabalho específico em seu centro de tecnologia com vistas a enquadrá-la na categoria palha. Não é preciso ser nenhum especialista em nutrição e fisiologia para concluir que com um pouco de dedicação a brasileira, de apenas 25 anos, não só perderá os 3kg que precisa, como desenvolverá mais músculos e, consequentemente, explosão e velocidade. Duas valências que a ajudarão muito a chegar no topo da divisão.

Preliminares: show de finalizações e nocautes

Se o card principal foi show, as preliminares não deixaram nada a desejar. Cezar Mutante atropelou rápido o kickboxer do Glory Karl Roberson. Mutante derrubou rápido e definiu com um katagatame a 4min45s. Ao microfone pediu uma luta com o desafeto Paulo Borrachinha, que hoje é 15º do ranking. Aliás, Mutante já deveria ser o 7º brasileiro neste ranking. Se não fosse a péssima arbitragem canadense, que deu vitória a Elias Theodorou contra o brasileiro, Cezar estaria vindo de uma sequência de 6 vitórias consecutivas. Impressionante a evolução do vencedor do TUF 1 após a seríssima operação na coluna em 2015.

Outro que deu show de chão foi o campeão mundial e do ADCC Davi Ramos, que desta vez não teve problemas com a balança e mostrou que veio para dar muito trabalho na divisão. Em pouco mais de 4 minutos, Davi derrubou o judoca, que já foi da seleção alemã, Nick Hein, chegou a suas costas com uma bela técnica (fintando uma kimura) e o obrigou a bater com um mata-leão com queixo e tudo. Esta é a segunda finalização do aluno de Casquinha e Minotauro em três lutas no UFC.

E não foram só os lutadores de jiu-jítsu que sobraram no chão. o russo campeão de sambo, Alexei Oleynik, da ATT também surpreendeu. Aos 40 anos, Oleynik fez sua 67º luta, conquistando a 44º finalização de sua carreira em cima do brasileiro Junior Albini. Albini deixou Oleynik abraçá-lo e o derrubou. A armadilha já estava encaixada e o brasileiro, mesmo quase montado, foi a 12ª vítima do inacreditável Ezequiel do russo.  

Outro que certamente entrou na disputa dos bônus do evento foi Elizeu Capoeira. Se não fosse o nocaute de Lyoto sobre Belfort, o atleta da CM System certamente teria embolsado a premiação pelo chute rodado certeiro que aplicou no duríssimo Sean Strickland, emplacando sua 5ª vitória consecutiva no UFC. Por tudo que tem mostrado, Capoeira é outro que já está merecendo um oponente ranqueado entre os meio-médios.

Warlley Alves também mereceu aplausos por sua performance contra o duríssimo Sultan Aliev, segundo me disse o próprio Conan Silveira, um dos mais duros atletas do Daguestão que treinam hoje na ATT. Warlley resistiu ao grappling do gringo e impôs seu melhor jogo em pé, fechando o olho esquerdo do russo e obrigando os médicos a impedi-lo de voltar no 3º round.

Markus Maluco abriu a noite aplicando um mata-leão em James Bochnovic no 1º round.Thales Leites e Alberto Miná, que perderam suas lutas nas preliminares, também tiveram excelentes atuações. Thales chegou perto de finalizar o sueco Hermansson no 2º round e caminhava para uma vitória por pontos até ser surpreendido pelo ground and pound a 2min10 do 3º round. Já Alberto Miná foi surpreendido pelo russo Ramazan Emeev, ex campeão do M-1, que foi superior em pé e no chão nos três rounds, vencendo na decisão.

Sábado que vem tem mais Brasil no UFC Chile, quando entram em ação Demian Maia, Vicente Luque, Michel Trator, Alexandre Pantoja, Poliana Botelho e Felipe Silva. Este, aliás, será o assunto da minha coluna de sexta feira. Até lá.

VITOR BELFORT: 22 ANOS ENTRE OS TOP 10 - 09/05/2018

Finalmente chegou a tão aguardada semana do UFC Rio 9. E o fã de MMA que vier à Jeunesse Arena, na Barra da Tijuca, no próximo sábado, terá um cardápio variado para curtir o esporte. Dentre os 13 combates deste UFC 224 teremos vários talentos da nova safra do MMA nacional (como Mackenzie Dern, John Lineker e Junior Albini), nossa campeã Amanda Nunes defendendo pela segunda vez seu cinturão, contra Raquel Pennington, e Ronaldo Jacaré enfrentando Kelvin Gastelum na luta que deverá definir o próximo desafiante ao cinturão dos pesos médios. Já para os mais saudosistas, que acompanham o esporte desde os anos 90, a luta que valerá o ingresso é o duelo entre os dinossauros Lyoto Machida e Vitor Belfort, dois dos 13 brasileiros que já foram donos do cinturão do UFC.

A três semanas de completar 40 anos, Lyoto já deixou claro que não pretende se aposentar tão cedo. Com 31 lutas de MMA no currículo, o lutador que revolucionou o esporte trazendo o caratê para o MMA, tendo ficado invicto por sete anos (da estreia, em maio de 2003, até perder o cinturão para Shogun, em maio de 2010), já avisou que pretende lutar por mais cinco anos em alto rendimento e que ainda sonha com o cinturão dos médios.

Já Vitor Belfort, com seus 41 anos recém-completados dia 1º de abril e 40 lutas de MMA, garantiu que esta será sua última luta no UFC. Por tudo o que representou para o esporte, Vitor não poderia ter uma despedida mais justa, participando de seu 26º UFC (9º no Brasil), e na sua cidade natal.

Único lutador na história do MMA a conseguir se manter por quase 22 anos competindo entre os melhores sem nunca ter saído das listas de Top 10 do ranking de suas categorias (seja no pesado, meio-pesado ou médio), Belfort se testou (entre 1996 e 2018) contra os maiores nomes de duas gerações. De Randy Couture, Dan Henderson, Chuck Liddell, Sakuraba e Wanderlei Silva a Chris Weidman, Jon Jones, Overeem, Rockhold, Bisping e Jacaré. E no próximo sábado completará a lista com mais uma lenda do esporte.

Vitor Gracie: Vomitando pela honra

Lembro bem do dia em que Carlson Gracie me chamou no meio daquele Brasileiro de jiu-jítsu de 1994 na academia AKXE e avisou: “Fica de olho no ‘Vitinho’, este garoto é um fenômeno, vai ganhar peso e absoluto no juvenil azul”. Dito e feito. Nos anos subsequentes, continuei acompanhando de perto a trajetória de Carlson e seu “Fenômeno”, só que não mais nos tatames.

Voltando do UFC 9, em Detroit (maio de 1996), fui ao encontro de Carlson e Belfort, que tinham se mudado para Los Angeles em 1995. Carlson não me deixou ficar em hotel e, nos quatro dias hospedado em seu apartamento, acabei acompanhando de perto a dura batalha dos dois para conseguirem divulgar a academia, recém inaugurada, nas redondezas de West Hollywood.

Carlson saia com o pupilo pelas ruas convidando seguranças, policiais ou lutadores de outras academias para testes. Num dos casos mais marcantes, que me foi contado por Vitor, ele tinha acabado de almoçar quando um wrestler de mais de 100kg adentrou a academia para o confere. Com a barriga cheia, Vitor ainda tentou argumentar com o mestre para pedir que o rapaz voltasse no horário da noite, mas não houve acordo. “Se o cara passar a mão na sua mulher num restaurante você vai dizer que está de barriga cheia? Bota o almoço para fora e sai na porrada com esse cara”, disse o mestre. Belfort obviamente acatou.

De desafio em desafio a academia encheu de alunos. Aos poucos a fama de Belfort e Carlson se espalhou e até ex-lutadores do UFC como Oleg Taktarov passaram a aparecer para treinar, o que acabou deixando Carlson ainda mais seguro com relação ao futuro do pupilo. “Está aprendendo chão comigo e treinando boxe todo dia na LA Boxing. Este garoto é talhado para ser campeão. Estou lançando ele aqui nos EUA como Vitor Belfort Gracie, porque o nome Gracie é muito forte. Te garanto que ele já está em condições de vencer qualquer um. Pode botar o Hugo Duarte, Marco Ruas ou Ken Shamrock que ele vence”, me disse a época o polêmico Carlson.

Quatro meses após aquela reportagem publicada na Tatame, Vitinho faria sua estréia no evento havaiano Superbrawl, atropelando o grandalhão Jon Hess em 12 segundos e sendo imediatamente convidado a estrear no torneio do UFC 12 em fevereiro de 1997. Algo me dizia que este evento seria histórico e, lembrando das palavras premunitórias de Carlson, resolvi investir minhas economias e voei, em pleno carnaval carioca, para Nova York. O evento acabaria sendo transferido de última hora para o Alabama, graças à proibição do UFC em Nova York, mas a ordem dos fatores não alterou o produto. “O Fenômeno” atropelou Tra Telligman e Scott Ferrozzo, vencendo o torneio absoluto do UFC aos 19 anos e apresentando ao mundo o nome do mestre Carlson Gracie.

Desde então passei a acompanhar de perto os momentos mais marcantes da carreira do Fenômeno. Estava a beira do octógono em seu primeiro tombo, a derrota para Randy Couture, no UFC 15 (1997), que acabou sendo um importante aprendizado. Tanto que um ano depois Belfort chegou desacreditado no UFC 17.5 em São Paulo contra o temido campeão do IVC Wanderlei Silva, mas saiu consagrado após um nocaute em 44 segundos.

Cinco meses após a vitória em São Paulo, Belfort passaria por mais um momento traumático em sua carreira. A briga com o mestre após a derrota para Sakuraba no Pride 5. Mas com a ajuda dos colegas da BTT, Belfort deu a volta por cima e conseguiu mais uma virada na carreira com as quatro vitórias seguidas no Pride, vencendo pesos-pesados como Gilbert Yvel e Heath Herring (2000 e 2001).

Empurrão de Silvio Santos

Em 2001 a vida de Belfort se transformaria num verdadeiro roteiro de filme. Convidado por Silvio Santos ele participou do reality show “Casa dos Artistas”, de onde saiu casado com sua esposa, Joana Prado. Graças à popularidade nacional do casal, o Homem do Baú resolveu acatar um pedido do lutador e transmitiu no SBT sua luta com Chuck Liddell no UFC 37.5 (2002). E lá fui para a minha primeira de tantas coberturas em Las Vegas. Belfort perdeu na decisão, mas garantiu um recorde de audiência para o SBT na madrugada, com 11 pontos. Seria a primeira vez que o esporte mostraria seu potencial de audiência na TV aberta.

Mas infelizmente uma armadilha do destino transformou o roteiro do casal mais popular do Brasil em drama nacional. No fim de 2003, logo após nocautear Marvin Eastman, quando já se preparava para lutar pelo cinturão contra o campeão Randy Couture, Belfort recebeu a notícia do desaparecimento de sua irmã. Obviamente o brasileiro não tinha a menor condição psicológica para lutar a revanche naquele momento. Vencer parecia algo absolutamente fora de questão, mas Belfort decidiu lutar. De alguma maneira, os deuses do MMA resolveram interferir, talvez comovidos com o drama por que passava aquele guerreiro que tanto contribuiu para a história do esporte. Um cruzado aos 49 segundos do 1º round abriu um corte no supercílio de Couture e obrigou Big John a parar o combate. Paradoxalmente, Belfort conquistava seu principal título no momento mais triste de sua vida.

Obviamente o desaparecimento da irmã impactou diretamente na vida do lutador, que passou os momentos mais difíceis da sua carreira entre 2004 e 2006 (quatro derrotas em seis lutas). Mas a paternidade e o apoio da esposa, Joana, foram fundamentais. Com o nascimento dos três filhos (Davi, Vitória e Kyara), Belfort recuperou a motivação e conseguiu uma nova guinada na carreira. Entre 2007 e 2009 engatou uma sequência de cinco vitórias (duas no Cage Rage, duas no Affliction) e voltou ao UFC nocauteando Rich Franklin e conquistando o direito de disputar o cinturão contra Anderson Silva.

O confronto entre o mais popular lutador do Brasil, único que conseguira atingir o chamado mainstream, e o campeão Anderson Silva permitiu um alinhamento perfeito de planetas. Catorze anos depois da estréia no UFC 12, tive o prazer e a honra de dividir a beira do octógono com 42 colegas da imprensa brasileira naquele UFC 126 em Las Vegas. Nesta que foi a primeira noite em que o MMA teve status de futebol e o Brasil parou para ver o campeão aplicar o primeiro nocaute na carreira do “Fenômeno”, decretando a grande virada do esporte no Brasil.

Depois da derrota para Anderson, Belfort venceu Akiyama e Anthony Johnson no 1º round e foi chamado em cima da hora para substituir Chael Sonnen numa luta com Jon Jones valendo o cinturão dos meio-pesados. Aceitou e quase surpreendeu o campeão com um armlock no 1º round. Acabou sendo finalizado com uma chave kimura no 4º round, mas saiu da luta com a moral elevada junto aos fãs e organização.

Com a liberação do tratamento de reposição de testosterona em 2012, Belfort passou a viver o melhor momento de sua carreira. Em 2013 nocauteou Michael Bisping, Dan Henderson e Luke Rockhold, conquistando a chance de lutar pelo cinturão dos médios novamente, agora contra Chris Weidman, em maio de 2015. No final de 2014, porém, as regras seriam modificadas novamente. Como sua produção natural de testosterona era muito abaixo do padrão normal, por conta do hipogonadismo desenvolvido em decorrência do uso de testosterona nos tempos em que não havia exame antidoping, Belfort passou a se apresentar muito abaixo do seu potencial e, desde a derrota para Weidman, teve uma queda acentuada de rendimento, sendo nocauteado na sequência por Mousasi, Jacaré e Kelvin Gastelum. Graças a seu histórico, mesmo com todas estas derrotas, Belfort continuou figurando entre os 10 melhores do ranking.

Em sua última luta, em junho de 2017 contra o também veterano Nate Marquardt, Belfort voltou a vencer na decisão, mas percebeu que não há razões para continuar lutando tão aquém do que pode. E aproveitando o fim do contrato com o UFC, anunciou sua última luta em casa, no Rio de Janeiro.

Independentemente do resultado, Belfort deixa para o esporte um legado de grandes lutas e muitos nocautes. Por tudo que fez por este esporte nos últimos 22 anos, O Fenômeno deveria ser automaticamente levado ao Hall da Fama do UFC. Mas como ele mesmo disse, o que mais importa não é o reconhecimento dos dirigentes e sim de seus fãs. E estes sem dúvida sabem o que este grande ícone representou na construção da história do esporte e por isso, independente do resultado da luta no sábado, devem lhe presentear com a maior honraria que um grande campeão pode merecer em sua última luta: aplausos de pé.

UFC 9: QUANDO OS SOCOS FORAM PROIBIDOS - 02/05/2018

Você sabia que já houve uma edição do UFC onde os socos de mão fechada foram proibidos a poucas horas do evento começar? Pois é. Se me contassem eu diria que é mentira, mas coincidentemente esta confusão ocorreu na primeira edição que cobri do UFC, no dia 17 de maio de 1996.

Aliás, a 9ª edição do evento, realizada em Detroit, Michigan, foi histórica e pioneira em diversos aspectos: foi a primeira a tentar abolir os torneios, adotando o formato de superlutas, que perdura até hoje; foi a primeira a lotar uma arena com 10 mil pessoas; e também foi a primeira realizada com regras especiais, acordadas em cima da hora para que o evento pudesse ocorrer e aplacar a ira dos políticos republicanos que tentavam a todo custo proibir os eventos de vale-tudo. O show seria marcado ainda pela derrota de Amaury Bitetti, o fenômeno da academia Carlson, para Don Frye e pela estreia vitoriosa de Rafael Carino, faixa-marrom de André Pederneiras e, até então, desconhecido no Brasil.

Jeitinho brasileiro no UFC

Motor City Madness, este era o nome dado pelos promotores à 9º edição do UFC, mas o nome correto deveria ser UFC 9: o jeitinho brasileiro. Afinal, nunca ele foi tão presente numa edição do UFC. Devido à campanha do senador republicano John McCain (em 2008 perderia a eleição presidencial para Barack Obama), que escreveu uma carta contra o "espetáculo brutal" publicada em diversos veículos americanos, iniciou-se uma batalha legal nos tribunais de Detroit que terminou às 16h30 do dia do evento com uma grande derrota jurídica do esporte, na época chamado de NHB (No Holds Barred). Na realidade, o UFC 9 só ocorreu graças ao jogo de cintura e uma boa dose de jeitinho brasileiro do árbitro Big John McCarthy, que conseguiu, de última hora, negociar regras especiais com a comissão local, proibindo cabeçadas e socos de mão fechada. Ficou acordado inclusive que o lutador que infringisse as regras poderia sair do evento preso.

Na prática, só os protagonistas da luta principal da noite, Dan Severn e Ken Shamrock, seguiram as regras. Aliás, trocando tapas de mão aberta por 30 minutos, os dois fizeram uma das piores lutas da história do evento. Nas outras cinco lutas do evento, os socos de mão fechada comeram solto e ninguém foi preso.

Uma outra ode ao jeitinho brasileiro ocorreu nos bastidores do hotel, numa substituição de última hora digna daqueles pequenos eventos nacionais que recorrem a lutadores da plateia. O detalhe é que o substituto de última hora era o bicampeão olímpico de wrestling, Mark Schultz. Descoberto circulando no hotel com seu professor de jiu-jítsu, o brasileiro Pedro Sauer, Schultz foi convidado para substituir Dave Beneteau, que deveria enfrentar o vice-campeão do UFC 8, Gary Goodridge, e se machucou um dia antes da competição. A fama de Schultz nos EUA lhe rendeu uma irrecusável proposta da empresa que organizava o evento na época, a SEG (Semaphore Entertainment Group): 50 mil dólares para fazer uma única luta. Na época, Schultz passava por um drama familiar. Quatro meses antes do UFC 9, seu irmão e mentor Dave Schultz, também campeão olímpico, havia sido assassinado pelo treinador John DuPont. Uma história amplamente noticiada pela imprensa que, certamente, impulsionou ainda mais a venda de pay-per-views, tanto que viria a se transformar em filme em 2014 (Foxcatcher), concorrendo e ganhando vários prêmios.

Naqueles tempos, quando “tamanho não era documento”, os 20kg de diferença entre Schultz e Beneteau eram uma “besteira”, afinal de contas, no mesmo card, Mark Hall (86kg) venceria Koji Kitao (170kg) em 40 segundos.

Nos bastidores, o mestre de Schultz, Pedro Sauer, me confessou: “Aposto contigo que ele vai dar um pau neste Goodridge. O cara é tão duro que o Rickson só conseguiu finalizá-lo três vezes em trinta minutos de treino, isso sempre por baixo”, me confidenciou o faixa-preta de Rickson. Dito e feito. Mesmo sendo mais leve, Schultz derrubou Goodridge três vezes, dominando a luta toda e terminando montado e batendo. Graças à excelente atuação e a mãozinha que deu para catapultar as vendas de 141 mil pacotes de Pay-Per-View, Mark acabou embolsando o dobro do combinado: US$ 100 mil.

Bitetti x Frye: a 2ª derrota do Brasil em 17 lutas no UFC

Com a saída de Rorion e Royce, na 5ª edição, o show, inicialmente concebido para comprovar a superioridade de uma modalidade sobre outras, foi comprado pela SEG, que passou a ter como principal foco as vendas de Pay-Per-View. Ou seja, não havia mais como fazer lutas sem limite de tempo. As vitórias de Royce Gracie em três torneios (UFC 1, 2 e 4) e a vitória de Marco Ruas no UFC 7 deram aos lutadores brasileiros uma pecha de oponentes a serem batidos. Na realidade, até então, Ruas e Royce tinham feito 17 lutas no UFC, só tendo perdido uma (Ruas perdeu na decisão para Taktarov). Anunciado como melhor e mais completo faixa-preta de Carlson Gracie e com muito mais credenciais no jiu-jítsu do que Royce, o campeão brasileiro absoluto de jiu-jítsu Amaury Bitetti chegou a Detroit como uma das grandes atrações da noite, enfrentando o vencedor do UFC 8, Don Frye, que havia vencido as 3 lutas do torneio num total de pouco mais de três minutos.

Foi curiosa a experiência de vir do Japão, um mês antes, onde cobri a participação de seis brasileiros no UVF 1, frente a uma lotada, porém silenciosa Budokan Arena, e ter a experiência de assistir na sequência a ensurdecedora Cobo Arena lotada gritando “USA! USA!” sem parar durante a luta entre Amaury e Don Frye. Ali, entendi o tamanho da rivalidade entre Brasil e Estados Unidos no esporte, que certamente ajudou a alavancar a venda de Pay-Per-Views do show.

Em tempos onde não havia categorias de peso, Amaury Bitetti, com apenas 1,73m e 85kg, que hoje certamente lutaria entre os meio-médios, teve dificuldades para levar Don Frye (1,85m/95kg) para o solo e acabou levando a pior, obrigando o juiz a interromper a luta a 9 minutos 22 segundos devido a um forte sangramento.

Quando foram colocadas categorias de peso, Amaury Bitetti teve nova oportunidade no UFC e mostrou seu valor vencendo Maurice Travis, Alex Andrade e Dennis Hallman.

Mas se Amaury decepcionou no UFC 9, o faixa-marrom de André Pederneiras Rafael Carino (1,97m/113kg), que na época só tinha 23 anos de idade, fez uma estreia de gala. Seguindo os conselhos do mestre que fazia seu córner ao lado de Vitor Shaolin, Carino só precisou de 5 minutos e 32 segundos para derrubar, montar e obrigar Matt Anderson (1,89m/105kg) a desistir com socos na guarda. A foto de Carino montado seria estampada na capa da primeira “Tatame” em formato revista (até então era produzida em formato tabloide).

Severn x Shamrock: a luta mais chata da história

Depois de conseguir empatar com Royce no UFC 5 numa luta de 36 minutos (até hoje a luta mais longa da história do evento), Ken Shamrock acabou se beneficiando com a saída do Gracie do show logo após esta edição (Rorion não aceitou a limitação de tempo imposta pela TV e decidiu vender sua parte). Mesmo nunca tendo vencido um torneio do UFC, Ken ficou como detentor do cinturão de superfighter, botando o título em jogo em quatro oportunidades e vencendo todas elas. Primeiro Severn (UFC 6), depois Taktarov (UFC 7) e Kimo (UFC 8). Mas com a vitória de Severn no primeiro Ultimate Ultimate, quando passou por Paul Varelans, Tank Abbott e Taktarov na mesma noite, lhe foi concedida a revanche. E ela ocorreu como superluta do UFC 9.

Ao contrário da primeira luta, quando Shamrock só precisou de 2 minutos para finalizar “A Besta” com uma guilhotina, desta vez a luta transcorreu 30 longos e monótonos minutos de “taparia”. No finalzinho, Dan Severn levou Shamrock para o chão, mas este conseguiu raspar e caiu montado e assim permaneceu por alguns minutos. Severn conseguiu sair e caiu novamente por cima, passando o último minuto da luta socando de dentro da guarda de Shamrock, que foi salvo pelo gongo. Na prorrogação, mais 3 minutos de troca de tapas e os juízes resolveram dar a vitória a Severn.

Apesar das excelentes vendas Pay-Per-View, o formato de lutas casadas não agradou o público, e na edição seguinte a SEG se veria obrigada a retornar ao formato torneio, consagrando Mark Coleman como novo campeão ao vencer Don Frye na final do UFC 10.

O ETERNO CALCANHAR DE AQUILES DO MMA BRASILEIRO - 27/04/2018

A derrota de Edson Barboza para Kevin Lee no UFC do último sábado expôs mais uma vez a causa mais recorrente das derrotas brasileiras no UFC: o wrestling. Ou melhor, a falta dele. Em pleno 2018, ano em que o UFC completa 25 anos de existência e o nível do esporte está cada vez mais elevado, não deveria ser tão comum que tantos lutadores brasileiros continuassem entrando no octógono com um alvo na testa, seja pela incapacidade de levar a luta no chão (wrestling ofensivo), no caso dos lutadores que têm como base o jiu-jítsu, ou pela impossibilidade de manter a luta em pé (wrestling defensivo), caso de strikers como Edson Barboza.

O fato é que, ao contrário dos americanos, que nas últimas duas décadas tiveram a preocupação de importar os mais capacitados mestres de jiu-jítsu brasileiro para suas equipes de MMA, aqui no Brasil não se fez o mesmo com a farta mão de obra qualificada do wrestling americano. O resultado começa a aparecer com clareza na terceira geração do esporte. As “fábricas” de lá cada vez mais produzem atletas com os três assessórios (preparados em pé, no chão e na parte de quedas). Já aqui, salvo raras exceções, a maioria dos atletas ainda tem sido apresentada ao mercado com dois assessórios. Via de regras, o lutador de MMA brasileiro chega a faixa preta de jiu-jítsu e depois aprende muay thai (ou boxe). Ou vice-versa.

A parte de quedas e grade, normalmente só entra no treinamento quando o atleta começa a planejar sua estréia no MMA.

O Mestre João Alberto Barreto, árbitro do UFC 1 e faixa-coral considerado por Hélio Gracie como melhor lutador de Vale-Tudo e instrutor (não Gracie) formado por ele, lembra que a realidade do esporte hoje é totalmente distinta dos primórdios do UFC. “Não há como negar que o wrestling é a modalidade mais importante no MMA. Hoje quem tem a possibilidade de definir onde a luta vai acontecer, no solo ou em pé, já começa em vantagem”.

UM RANÇO HISTÓRICO

Curiosamente, esta carência do Wrestling no MMA nacional tem raízes históricas. Não da geração de Carlson, Robson e João Alberto (anos 50 e 60), mas da geração dos anos 80.

Tudo começou com a rivalidade entre Muay Thai e Jiu-Jitsu, que teve seu primeiro capítulo oficial no Vale-Tudo do Maracanãzinho, em 1983. Para enfrentar os representantes do Jiu-Jitsu (Fernando Pinduka, Renan Pintanguy e Marcelo Behring), Flávio Molina e seus alunos (Marco Ruas e Eugênio Tadeu) se aliaram ao pessoal da Luta-Livre (Brunocilla e João Ricardo) e da Luta Olímpica (Mestre Roberto Leitão). O confronto terminou empatado, levando a consagração de Marco Ruas e Eugênio Tadeu. Desde então, o Jiu-Jitsu passou a encarar Wrestling e Muay Thai como aliados da Luta-Livre. Um ranço que perduraria por muito tempo.

Com a explosão do UFC, onde os wrestlers passaram a ser os principais rivais do Jiu-Jitsu, a disputa entra a guarda do Jiu-Jitsu contra o Ground N' Pound se exacerbou. Buscar uma aliança com a modalidade dos principais rivais passou a ser visto como sinal de fraqueza pelas principais lideranças da Arte Suave, mas as vitórias de membros da Chute Boxe (Wanderlei) e Boxe Thai (Pedro Rizzo) sobre wrestlers, em eventos como IVC e UFC, acabaram levando Mario Sperry a buscar uma improvável parceria com Luiz Alves (aluno de Flávio Molina e líder da Boxe Thai). Os resultados da aliança entre Muay Thai e Jiu-Jitsu não tardaram a aparecer nas vitórias de Minotauro e Sperry no Pride.

Mas o crescimento no cenário mundial de rivais diretos do Wrestling como Randy Couture, Dan Henderson e Mark Kerr, todos já com treinadores de Jiu-Jitsu, levou aos lideres da BTT a entenderem que seria essencial entender os estilo dos wrestlers. Como o Wrestling brasileiro ainda era muito ligado a Luta-Livre; até mesmo pelo fato de a primeira geração da modalidade ser composta por membros do Ruas Vale-Tudo Antoine Jaoude e Renato Babalú, decidiu-se importar a solução.

Com a ajuda de Marco Vinícius de Lucia (dono da Beverly Hills Jiu-Jitsu Club), a BTT trouxe o condecorado wrestler americano Darrel Gohlar. O homem que havia vencido Randy Couture em seis oportunidades em competições de luta greco romana literalmente revolucionou a maneira de lutar dos representantes do Jiu-Jitsu da equipe formada basicamente por faixas pretas de Carlson Gracie.

Os resultados apareceram rápido em vitórias de Murilo Bustamante, Vitor Belfort e Rodrigo Minotauro contra wrestlers no UFC e Pride. Com o tempo, Gohlar passou a dar aulas também na Nova União e Gracie Tijuca. Em quase seis anos trabalhando no Brasil pode-se dizer que Gohlar teve uma influencia marcante no estilo de grandes nomes do Jiu-Jitsu. Infelizmente, com o fim da era Pride, o americano passou a depender de bicos e, mesmo apaixonado pelo Brasil, foi obrigado a voltar.

Nos últimos 10 anos, a rivalidade entre Jiu-Jitsu e Luta-Livre acabou e muita coisa mudou pra melhor no Wrestling brasileiro. Com o apoio do COB, as seleções brasileiras de luta olímpica passaram a fazer intercâmbios nas maiores potências e também participar das principais competições mundiais da modalidade. O conhecimento técnico adquirido por esta segunda geração do Wrestling brasileiro hoje já é compartilhada no MMA nacional por intermédio de nomes como Antoine Jaoude (KS), Piratiev (Nova União), Marcelo Zulu (Cm System) e William Naim (Chute Boxe Diego Lima).

Ex-lutador de MMA e maior nome da história da luta olimpica no Brasil, Antoine Jaoude tem ajudado a atletas brasileiros de diversas equipes. “Não adianta a gente ensinar todas as técnicas de Wrestling para o cara que objetiva o resultado imediato no MMA, por isso eu usei a experiência que tive nos ringues para fazer uma adaptação e ensinar as técnicas que se aplicam melhor ao MMA, principalmente na luta de grade. O ideal seria que a nova geração já começasse a praticar desde a base porque, além da bagagem técnica, o Wrestling te traz uma bagagem de treinamento que dificilmente você vai encontrar em outros esportes. Isso sem contar o fato de a modalidade ser a terceira que disputa mais medalhas nas Olimpíadas (54), só ficando atrás do Atletismo (115) e Natação (92)”, opina Antoine, que já treinou mais de 20 brasileiros e hoje ajuda Warlley Alves.

Outro ex- membro da seleção brasileira de Greco-Romana que passou a se dedicar ao MMA é Marcelo Zulu, hoje treinador oficial da modalidade na equipe curitibana CM System. “Pela seleção tive a oportunidade de viajar por mais de 30 países, conhecer biotipos e técnicas diferentes. Mas não adianta ensinar técnicas específicas de competição, nossa função é trazer esta experiência para a realidade do MMA. Nada contra quem importe treinadores de fora, mas hoje existem pelo menos 10 competidores da minha geração que têm condições de fazer um bom trabalho como treinadores de Wrestling para o MMA. Na minha opinião toda equipe de MMA deveria ter um coach de Wrestling”, opina Zulú.

Outro americano importado por uma equipe brasileira de MMA foi Eric Albarracin, mentor do campeão olímpico Henry Cejudo, atualmente o mais condecorado wrestler em atuação no UFC. Eric passou três anos treinando atletas da Team Nogueira e revela que a rotina como professor de Wrestling no Brasil não era fácil. “O treinamento de Wrestling é duríssimo, tem que vir da base. Aqui as pessoas não estão acostumadas e a grande maioria acabava não treinando como deveria. Mas quem se dedicou como os irmãos (Patricky e Patrício) Pitbull colheu frutos”, garante Albarracin.

GSP e Canto apontam o Judô como alternativa

Mas vale lembrar que as técnicas do wrestling não são as únicas eficientes para levar o oponente ao solo. Mês passado, um dos maiores campeões da história do UFC, o canadense Georges St-Pierre, carateca que conseguiu desenvolver seu jogo de quedas a ponto de ser considerado um dos melhores da história na aplicação do wrestling para o MMA, colocou em seu instagram um vídeo onde demonstrava uma “queda nova” com um parceiro de treinos com o comentário: “Treinando com o meu amigo uma opção nova tendo o oponente contra a grade, o ouchi gari. Como seria bom se tivesse aprendido isso antes”.

Um dos grande nomes da história do judô brasileiro, Flávio Canto bate nesta tecla há muito tempo. “O judô é subestimado e pouco treinado no MMA. O Brasil é uma potência no esporte. Os EUA têm uma tradição extraordinária no wrestling, mas tem um judô pobre historicamente. Acho fundamental os atletas de MMA brasileiros treinarem o wrestling, mas sem dúvida o judô de alto nível que temos aqui pode ser um diferencial para o estilo brasileiro de derrubar”.

Canto dá como exemplo prático a luta entre Leonardo Leite (ex-judoca da seleção) e o wrestler Phil Davis, na qual o brasileiro não foi derrubado em nenhuma oportunidade. Outro diferencial interessante lembrado por Canto é que as quedas no judô usam mais os pés, enquanto as de wrestling, em sua maioria, são aplicadas com as mãos. “Quedas como osoto gari, ouchi gari e kochi gari funcionam muito bem na grade. Lutadores como Demian e o próprio Khabib Nurmagomedov fazem isso muito bem ”, analisa Canto, ressaltando que o intercâmbio entre judô, jiu-jítsu e MMA seria um enorme diferencial para as três modalidades. “A maioria dos judocas tem um chão fraco, assim como a maioria dos lutadores de jiu-jítsu e MMA tem um em pé fraco. Somos potências mundiais nestas áreas. O Brasil precisa abrir a cabeça”.

A exposição de Flávio Canto, no mínimo, chama a reflexão. Muitas vezes, o que a gente procura está ao nosso lado, mas não conseguimos ver. Talvez um laboratório entre grandes nomes do judô e wrestling brasileiro, junto com lideranças do MMA, pudesse ser um primeiro passo para traçar novas bases para treinamentos de queda para a geração que já está em atuação.

Para aqueles que começam agora sonhando um dia chegar ao maior evento do mundo, vale não cometer os mesmos erros das gerações passadas. Não deixe para adicionar o wrestling ou o judô por último.

PRODUZINDO SUPLEMENTOS E DESTRUINDO REPUTAÇÕES - 23/04/2018

Após mais de um ano de inferno astral, os brasileiros Marcos Rogério “Pezão” de Lima, Rogério “Minotouro” Nogueira e Junior “Cigano” dos Santos foram enfim liberados pela USADA a voltarem a competir no UFC. A agência antidopagem identificou duas farmácias de manipulação responsáveis pela venda dos suplementos contaminados com hidroclorotiazida (no caso de Minotouro e Cigano) e anastrozol e hidroclorotiazida (no caso de Pezão).

Após terem os resultados dos testes revelados pela USADA e por toda imprensa marcial em 2017, os três decidiram pagar do próprio bolso (uma média de US$ 500 por suplemento) para analisar cada produto que tomavam em um laboratório certificado pela WADA em Salt Lake City. Lá, conseguiram provar a contaminação cruzada das amostras. E o que é pior, os testes mostraram que os suplementos continham muitas outras substâncias totalmente proibidas na lista da USADA.

“Cigano”, “Minotouro” e “Pezão” se juntam a Josh Barnett, Yoel Romero, Jim Wallhead e vários outros atletas que, nos últimos meses, ficaram impedidos de trabalhar e tiveram suas reputações manchadas por culpa da incompetência de empresas que deveriam zelar pela saúde dos atletas. E vale lembrar que isso não tem ocorrido só no MMA. Há alguns meses uma reportagem veiculada no Esporte Espetacular mostrou uma pesquisa conduzida pelo próprio Comitê Olímpico Internacional em 2004. Ao todo, 634 marcas de suplementos foram avaliadas. Mais de 18% continham drogas que não estavam listadas nos rótulos.

Obviamente, com as farmácias de manipulação sendo cada vez mais solicitadas e sem uma entidade que a regulamente, estes números cresceram ainda mais. No Brasil, nos últimos dois anos, foram ao menos 13 casos comprovados de contaminação cruzada, em um total de 48 testes positivos. Ou seja, cerca de 25%. Estão nesta lista atletas consagrados como Thomas Bellucci (tênis), Murilo (vôlei), Ana Claudia Lemos (atletismo), André Santos (futebol) e César Ciello (natação). Uns perderam patrocínios, outros decepcionaram fãs e familiares e todos tiveram seus nomes veiculados em reportagens sobre doping e trapaças nos esportes.

No comunicado, a USADA deixou claro que passará a trabalhar com agências reguladoras no Brasil para investigar mais a fundo os casos de contaminação nestas farmácias de manipulação e outras espalhadas pelo Brasil. Que assim seja. Absurdos como este têm que ser tratados com rigor. Se os responsáveis não sentirem no bolso e passarem a ter punições graves, continuarão atuando da mesma maneira. Além de responder processos por danos morais por todo prejuízo que causaram às carreira destes atletas, estas empresas têm que sofrer sanções governamentais duras.

Não cabe às entidades reguladoras jogarem a responsabilidade nos atletas, até porque na maioria dos esportes a suplementação é vista como uma ferramenta que tem a função de ajudar na recuperação do atleta. Não é o caso do MMA, e isso precisa ser compreendido pela USADA.

Um esporte onde o atleta leva o seu corpo ao limite diariamente, muitas vezes treinando mais de uma modalidade de combate por dia, a suplementação é absolutamente essencial para que o atleta consiga se recuperar para o dia seguinte e chegar ao fim do camp de treinamento apenas com lesões leves e em condições de lutar. É essencial que a USADA entenda a especificidade do treinamento de MMA e passe a agir ao lado dos lutadores, pressionando órgãos governamentais a punirem os mais perigosos trapaceadores: os produtores de suplementos contaminados.

REFLEXÕES SOBRE O UFC GLENDALE - 16/04/2018

Mais uma vez o UFC mostrou aos fãs que lutas bem casadas são o segredo de um grande evento, e mesmo sem um card recheado de estrelas, entregou mais um show que superou as expectativas, trazendo duas das melhores lutas de 2018

Gaethje: show x tática

Quem esperava que Justin Gaethje aprenderia a partir da sua primeira derrota para Eddie Alvarez que a estratégia kamikaze nem sempre é o melhor caminho, se enganou. Melhor para os fãs que puderam ver mais uma guerra protagonizada pelo violento atleta local, mas pior para Gaethje, que sofreu sua segunda derrota e, provavelmente, diminuiu em mais alguns anos sua longevidade no esporte.

Desde o início do combate, Dustin Poirier tomou a iniciativa conectando os melhores golpes e se antecipando às perigosas combinações do oponente, que sempre terminavam com um duríssimo low kick na perna da frente.

Assim como nas lutas contra Michael Johnson e Eddie Alvarez, Gaethje defendia a maioria dos golpes na guarda, outros tantos no rosto. E continuava andando pra frente sem parar.

Depois de perder os rounds iniciais, Gaethje, incentivado pela torcida, deu a impressão de que venceria o terceiro, iniciando mais uma impressionante reação, até que acertou uma dedada no olho do oponente pela segunda vez e foi punido por Herb Dean com um ponto. Com dois rounds perdidos e um empatado (9x9), só havia um caminho para Gaethje: buscar definir a luta.

A leitura corporal de Poirier dava a impressão de que a virada era questão de tempo, principalmente por apresentar um sangramento no supercílio esquerdo que já afetava sua visão. Sendo um wrestler da 1ª divisão dos EUA, certamente a queda e um ground and pound poderiam ser um excelente caminho, mas QI de luta  definitivamente não é o forte de Justin, que ligou o turbo e, mais uma vez, foi para a loteria. Com um boxe mais alinhado, Poirier não desperdiçou a oportunidade e, conectando uma série de golpes, obrigou Herb Dean a terminar a luta, decretando o nocaute técnico a 33 segundos do quarto round.

Se a partir desta segunda derrota os treinadores conseguirem mostrar a Gaethje que ele já tem a ferramenta mais importante no MMA atual, um wrestling de altíssimo nível, que pode definir onde a luta vai transcorrer dependendo da característica técnica do oponente, e que, se passar a usá-la, pode vir a ser um dos lutadores mais complicados para Khabib na divisão, certamente ele tem tudo para continuar subindo no ranking. Para isso, precisa apenas aprender a ler os oponentes e usar as armas que tem, o que é essencial não só para vencer, mas para se manter saudável, pois da maneira que vem lutando, o corpo de Gaethje certamente não aguentará mais cinco anos, quando deveria estar no ápice de sua carreira (35 anos).

Após esta bela vitória, Dustin Poirier deverá chegar à 5ª posição no ranking. Como sua última luta com Eddie Alvarez (3º) terminou sem resultado e Alvarez também venceu Gaethje, seria justo uma revanche para definir o próximo oponente do campeão. Uma outra opção seria um dos dois enfrentar o vencedor de Edson Barboza (4º) e Kevin Lee (7º), que lutam sábado que vem. Como nem Barboza e nem Lee lutaram com Poirier ou Alvarez, as possibilidade são muitas.

Levando em conta obviamente que Tony Ferguson (2º) e Conor McGregor (1º), que seriam os oponentes naturais para a primeira defesa de Khabib, estão “virtualmente” impossibilitados de lutar até o fim do ano. Tony acabou de operar o joelho e só volta em 2019. Já Conor, ninguém sabe ao certo se terá problemas com a justiça americana ou se lutará mesmo com Mayweather (nas tais regras híbridas). Cabe a nós aguardarmos o desenrolar dos próximos capítulos, já no próximo sábado no UFC Barboza x Lee em Atlantic City.       

Alex Cowboy: mais um show do bombeiro padrão

Num esporte onde surpresas e contusões podem surgir até a hora da pesagem, atletas como Khabib Nurmagomedov e Alex Cowboy não têm preço para um evento como o UFC. Chamado para substituir Matt Brown contra Carlos Condit, Alex Cowboy não pensou duas vezes, pegou o avião para Glendale e, pela quarta vez, partiu para apagar um incêndio, desta vez enfrentando um dos seus ídolos no evento, que inclusive já havia sido campeão interino dos meio-médios.

Vindo de uma derrota por nocaute para Yancy Medeiros, o aluno de André Tadeu, Tatá Duarte e Phillip Lima mostrou mais uma vez que não é mais apenas um brigador que proporciona lutas emocionantes. Sem abrir mão da sua característica de trocador, Oliveira tem se mostrado cada vez mais tático. Assim como fez contra Tim Means e Ryan LaFlare, Cowboy começou trocando e aproveitou o ímpeto de Condit para mudar de nível, mostrando boas transições na luta de solo. Depois de garantir a vitória no primeiro round, usou a mesma tática no segundo, surpreendendo Condit com uma guilhotina a 3 minutos 17 segundos e ainda garantindo um merecido bônus de 50 mil dólares por sua impressionante performance.       

Cara de Sapato já merece ser o sexto brasileiro no ranking dos médios?

Gilbert “Durinho” Burns e Antônio Cara de Sapato, dois grandes nomes do jiu-jítsu brasileiro mostraram nesta edição do UFC que estão andando a passos largos rumo ao ranking de suas divisões. Curiosamente, ambos vivem na Flórida hoje, onde buscam complementar a arte suave nas equipes Combat Club e American Top Team, respectivamente.

Durinho mostrou mais uma vez o resultado do trabalho do excelente holandês Henri Rooft, que o fez confiar no peso de sua mão conquistando o segundo nocaute seguido de sua carreira, agora sobre o estreante Dan Moret. Com o inglês já fluente, o niteroiense mostrou, na saída da luta, que já sabe jogar o jogo do UFC e pediu uma luta com o canadense Olivier Aubin-Mercier, que deveria enfrentá-lo há um mês, quando o brasileiro teve problemas com a balança. Aliás, tomara que Durinho dê uma atenção especial para esta questão, contratando um bom nutricionista.  Mercier tem o jogo perfeito para Durinho emplacar sua sétima vitória no UFC, e quem sabe começar a cavar um lugarzinho no mais disputado ranking do UFC.

Por falar em nutricionista, Cara de Sapato, que venceu o TUF Brasil 3 na categoria peso-pesado, baixou duas categorias com tranquilidade e continua andando a passos largos rumo ao ranking da divisão dos médios. No último sábado o paraibano conseguiu sua 5ª vitória consecutiva fazendo o duríssimo Tim Boetsch parecer um iniciante, batendo com um mata-leão ainda no primeiro round.  Se conseguir mais uma vitória, certamente Sapato se juntará a Ronaldo Jacaré (2º), Vitor Belfort (9º), Thiago Marreta (11º), Lyoto Machida (12º) e Paulo Borrachinha (14º) na elite de uma das mais disputadas categorias do UFC.

Arbitragem: dois pesos e duas medidas

Só pra não perder o hábito, os juízes pisaram na bola em duas lutas deste UFC Glendale, usando dois pesos e duas medidas. Na luta entre Wilson Reis e John Moraga não deram o devido valor às quedas do brasileiro e seu grappling efetivo que claramente o levaram dominar dois dos três rounds da luta. Já na luta entre Michelle Waterson e Cortney Casey, valorizaram excessivamente as quedas de Michelle em detrimento ao chão extremamente ofensivo da Cortney.

Assim como o knockdown é pontuado em 5 graus de contundência diferentes, as quedas também têm que ser avaliadas de acordo com um grau, assim como são pontuadas no judô, por exemplo. Avaliação parecida deve ser levada em consideração no jogo de chão. Nas regras atuais, tenho a impressão de que transições importantes como uma pegada pelas costas ou uma tentativa de armlock ou triângulo, que expõe o atacante a ser golpeado, não têm sido valorizadas como devem.

Até alguns anos, dada a popularidade de modalidades como boxe e wrestling nos EUA, era compreensível que as comissões reaproveitassem juízes com maior experiência e entendimento nestas modalidades. Não é mais o caso. Este ano o UFC completa 25 anos. Já existe uma geração de profissionais do MMA aposentada e ansiosa por conseguir continuar vivendo da modalidade a qual dedicou sua vida. Não faz mais sentido que um juiz do boxe, que pontua mais um jab do que um armlock quase encaixado da guarda, continue arbitrando um UFC.    

Ainda longe de Jon Jones

A ausência de grande ídolos do esporte, como Jon Jones, McGregor, Ronda e Anderson Silva, tem aumentado a ansiedade de nós fãs pela renovação e o surgimento de novos ídolos. Quando digo nós, me refiro a todo fã do esporte, inclusive o patrão Dana White, que só faltava roer as unhas sem esconder a ansiedade quando Israel Adesanya, apelidado de “novo Jon Jones” adentrou o octógono para enfrentar Marvin Vettori.

Em sua segunda luta no UFC, o nigeriano mais uma vez mostrou personalidade e criatividade, mas, pelo menos por enquanto, nada além disso. Depois de dar um bom show para os fãs nos dois primeiros rounds, Israel cortou um dobrado para evitar as quedas do italiano e terminou a luta com meio palmo de língua de fora, deixando claro que ainda tem muito que melhorar seu wrestling defensivo e também o chão. Caso se dedique aos treinos nestas duas áreas e continue merecendo um carinho especial do UFC na escolha dos próximos oponentes, poderá continuar evoluindo para um dia, quem sabe, ser comparado a Jon Jones ou Anderson Silva.

Não faltam bons strikers nesta divisão para que o UFC continue a investir em seu talento. Mas a esta altura do campeonato, Vettori mostrou que grapplers como Thales Leites, Derek Brunson, ou mesmo Erik Anders poderiam ser apostas altas demais para o ainda cru Adesanya.

QUEM PODERÁ VENCER KHABIB NURMAGOMEDOV? - 10/04/2018

Após mais uma atuação absolutamente dominante de Khabib Nurmagomedov, que finalmente conquistou o cinturão dos leves, esta foi uma pergunta recorrentes nas mídias sociais nas horas subsequentes a este que já entrou pra história como o mais “zicado” UFC que se tem notícia. Afinal de contas, após quase 10 anos de domínio absoluto, sem perder um round sequer em 26 lutas, será que existe algum lutador que consiga neutralizar seu jogo?

A total superioridade com que venceu oponentes do nível de Rafael dos Anjos, Edson Barboza, Al Iaquinta e Michael Johnson deixa claro que Khabib está, sim, um patamar acima da concorrência, e tudo indica que ainda consiga manter sua invencibilidade por um bom tempo. Só não acredito que consiga bater os recordes de GSP (nove defesas de cinturão consecutivas), Anderson Silva (10) e Demetrious Johnson (11), e explico o porquê.

Dado o alto grau de competitividade do esporte hoje em dia, ser o alvo é uma tarefa cada dia mais complicada.

Obviamente, quando o treinador tem em mãos um atleta completo em todas as áreas, como Jon Jones e Demetrious Johnson, as dificuldades táticas aumentam para o treinador adversário no xadrez do MMA, mas quando o lutador é um fora de série, mas apresenta uma brecha em seu jogo, a história nos mostra que, em algum momento, esta fraqueza acaba sendo explorada. Basta analisarmos as diversas eras que marcaram a história do esporte.

Royce, Coleman, Ortiz, Liddell, BJ, Lyoto, Couture, Anderson, Aldo. Foram muitos os ícones que contribuíram trazendo novos elementos técnicos nestes 25 anos de história do UFC, mas que de tanto serem estudados em algum momento tiveram uma fraqueza em seu jogo explorada pelo campeão da geração subsequente.

Quando imaginamos que não há mais onde inovar, eis que surge, Khabib Nurmagomedov com seu ground and pound repaginado. Ele não se limita a derrubar com double ou single leg e bater de dentro da guarda, como faziam os precursores Coleman, Erikson e Kerr. Além de trazer um vasto arsenal de quedas que vão do wrestling, sambo e judô, Khabib impressiona pela pressão e variação técnica que acabam levando o oponente a sucumbir. Uma vez no chão, ele distribui seu peso de maneira perfeita, usando quadril e cabeça, e fica sempre um passo à frente do oponente, neutralizando suas possibilidades de defesa com pegadas cruzadas, combinadas com socos e joelhadas. A superioridade logo se traduz em dano e consequente quebra do espírito do oponente.    

Mas se no solo Khabib tem se mostrado uma equação difícil de ser desvendada pelos treinadores adversários, em pé, onde todo combate de MMA se inicia, o atleta da AKA tem brechas claras, que a partir de agora, passarão a ser estudadas pelos maiores treinadores do esporte. Com o alto nível de atletas de elite na divisão e com excelentes técnicos que cada vez mais ajudam a transformar o esporte num xadrez da luta, é difícil não imaginar algum lutador que traga o pacote completo, ou seja, consiga frustrar as quedas do russo, como fez o Al Iaquinta a partir do terceiro round, e que o obrigue a se expor, usando combos que o façam andar para trás, finalizados com low kicks na parte interna de sua perna direita (essencial para impor seu jogo de quedas).

Obviamente, testá-lo de costas no chão seria uma outra possibilidade, mas certamente seria uma tarefa bem mais complicada e difícil de ser alcançada, se não por intermédio de um knockdown. Todos sabemos que existem dezenas de outros fatores em jogo e que no papel tudo parece mais fácil, mas a história nos mostra que a partir da conquista do cinturão, mais treinadores estarão procurando brechas e caminhos a serem explorados. Se alguém vai conseguir botá-las em prática, aí são outros quinhentos.   

GSP, McGregor ou Ferguson?

Entre as três possibilidades apresentadas como primeira defesa de cinturão do campeão: Conor McGregor, GSP e Tony Ferguson, o norte-americano ainda me parece trazer o pacote mais complicado para o jogo do russo.

Começando pelo irlandês. Os dois pontos fracos de McGregor (defesas de queda e chão) são exatamente os mais fortes do russo. As chances de Conor seriam acertar seu cruzado no queixo do russo ainda no primeiro round. Como vimos na luta com Edson Barboza, a tarefa não é das mais simples.

Além do mais, há de se levar em conta os problemas causados por McGregor nos bastidores do UFC 223. Sem contar esta notícia revelada ontem pelo "The Sports Journal" dando conta de que uma luta com regras híbridas com Mayweather (sem valer chão, chutes ou joelhadas... ou seja 90% de boxe e 10% de MMA) já estaria em fase adiantada de negociações.  Posto isso, é difícil imaginar que o irlandês consiga pensar em lutar pelo cinturão dos leves antes de 2019.

Considerado um dos lutadores mais completos da história, talvez GSP pudesse trazer o pacote completo para complicar o russo: boa defesa de quedas complementada com uma ótima técnica em pé. A questão é o estado físico que o canadense, que completa 37 anos em maio, chegaria para enfrentá-lo numa categoria onde nunca se arriscou. Depois de subir de 77kg para conquistar o cinturão dos médios (até 84kg), não me parece razoável que GSP arrisque seu legado correndo o risco de chegar fraco numa luta onde a força e a velocidade seriam seus maiores aliados para neutralizar o jogo de Nurmagomedov. Ontem o próprio GSP já veio a público dizer que não tem o menor interesse em lutar com o russo entre os leves. Muito educado, GSP agradeceu o convite, mas certamente pensou: Construa seu legado primeiro e depois, se tiver interesse, venha se arriscar aqui em cima.

Independente das agendas e decisões pessoais de GSP e Conor, ainda aposto que Tony Ferguson é aquele que traz a caixa de ferramentas mais perigosa para o russo. Envergadura privilegiada e um bom boxe, complementado por uma defesa de quedas razoável, mas que traz uma ameaça perigosa ao jogo de Khabib: guilhotinas e triângulos de mãos muito afiados.

Levando em conta a possibilidade real de cair por baixo, “El Cucuy” é o representante da divisão que tem trazido a guarda mais ofensiva e perigosa para aqueles que gostam de jogar por cima. Usando muito bem suas pernas longas para aplicar um “jogo de berimbolo” extremamente ofensivo, Ferguson pode quebrar a estabilidade que marca o jogo do russo no chão e surpreender.  

Na hipótese de Khabib passar pelos três, obviamente, sofrerá pressões para encarar superlutas entre os meio-médios, onde as dificuldades aumentariam contra lutadores como Tyron Woodley e Kamaru Usman. O fato é que a Era Khabib está só começando e, independentemente do tempo de duração, já cumpriu um papel importante na história do esporte, trazendo novas peças para esta enorme caixa de ferramentas chamada MMA.

SAI FERGUSON, ENTRA HOLLOWAY; O QUE MUDA PARA KHABIB? - 03/04/2018

Noite de domingo, 1º de abril. Mídias sociais e grupos de whatsapp bombando diante de uma notícia que tinha todos os ingredientes de piada pronta, pelo dia da mentira. Depois de quase dois anos esperando a chance de lutar pelo cinturão de Conor McGregor, a seis dias da tão sonhada disputa do título linear na luta principal do UFC 223 em Nova York, Tony Ferguson lesiona o joelho, ao escorregar no estúdio, numa sessão de fotos para o evento.

Não poderia ser verdade! Tanto que nem mesmo as declarações de Dana White garantindo que o campeão dos penas Max Holloway salvaria o evento, deixaram os colegas da imprensa seguros para cravar a notícia.

Escolados após o clássico caso de Wanderlei Silva em 1º de abril de 2013, quando o brasileiro inventou no Twitter que substituiria Gustafsson a seis dias da luta com Mousasi, os jornalistas decidiram não arriscar outra “barriga” histórica, esperando a confirmação oficial do site do UFC, que não tardou a chegar juntamente com o Tweet de um devastado Ferguson confirmando o quarto cancelamento seguido de um confronto com Khabib.

Diante de uma crise tão grave a poucos dias do evento, sem dúvida a entrada de Holloway foi a melhor solução que poderia ser encontrada pelo UFC. Não só pela interessante possibilidade do cruzamento de categorias, mas também pelo fato de o havaiano poder, em caso de vitória, ser o segundo lutador na história a acumular títulos em duas categorias, como fizera McGregor, que aliás, foi o último oponente a conseguir vencê-lo em 2013.

Invicto há 12 lutas e vindo de três vitórias por nocaute técnico sobre duas lendas do esporte: José Aldo (2x) e Anthony Pettis (ex-campeão dos leves), Holloway certamente seria um oponente a altura de Khabib se estivesse em plena forma. Não é o caso. O havaiano vinha se recuperando de uma contusão no pé que o tirou de uma defesa de cinturão contra Frankie Edgar no dia 3 de março no UFC 222 (Edgar acabou perdendo para Ortega, que substituiu o campeão). Teoricamente só estaria pronto para voltar aos treinos em junho, mas certamente a oferta para salvar o UFC 223 a seis dias da luta foi tentadora.

“Ele é um animal. Mas você sabe o que dizem: para ser o melhor, você precisa vencer o melhor, e o melhor é o ‘Blessed’. Eu mal posso esperar. Ele é humano, eu sou humano. Vamos lá dentro descobrir quem é melhor”, disse Max Holloway a uma TV havaiana assim que embarcava para Nova York.

A macheza de Holloway me fez lembrar a atitude de Anderson Silva, que em julho de 2016, aos 40 anos de idade, e recém saído de uma cirurgia de apendicite, aceitou salvar o UFC 200 enfrentando o parceiro de treinos de Khabib, Daniel Cormier, na categoria de cima (meio-pesado). Ou a de Vitor Belfort ao aceitar salvar o UFC 152 lutando com Jon Jones em 2012 entre os meio-pesados. Teve também Wanderlei Silva, que em 2004, diante da contusão de um oponente japonês a duas semanas da luta recebeu quatro ofertas de oponentes (sendo três na mesma categoria e Mark Hunt, 30kg mais pesado que acabara de estrear no MMA). Escolheu Hunt. Os três brasileiros perderam, mas carimbaram seus nomes entre os mais cascas-grossas da história do esporte.

E é neste hall que Max Holloway entrará, independente do resultado de sábado.         

Apesar de ser a zebra absoluta para o combate, há de se considerar que Holloway é um dos melhores lutadores do UFC na atualidade. Além de ser um kickboxer de alto nível, tem como principal parceiro de treinos o peso meio-médio do UFC, Yancy Medeiros. Ou seja, está plenamente adaptado a lutar com oponentes maiores.

Mesmo apresentando um nível similar a Ferguson na luta em pé e também no quesito wrestling defensivo, na luta de solo o havaiano não traz tantas ameaças ao jogo do russo, como o norte-americano, que com seu chão ofensivo certamente obrigaria Khabib a evitar algumas de suas melhores técnicas.

O estilo do havaiano, que dificilmente anda para trás, também favorece as quedas do russo. Max até costuma defender ataques de double leg contra atacando com guilhotinas, como fez com Cub Swanson e Andre Fili (finalizou ambos), também contra Jeremy Stephens e Ricardo Lamas (não finalizou, mas conseguiu defender as quedas), mas não acredito que consiga parar o trator Khabib com este expediente.

Há de se levar em conta também que o jogo de Holloway é baseado em volume de golpes e controle de distância, o que requer um ótimo condicionamento. Como sabemos, não é o caso atualmente.

Um animal diferente

Próximo de chegar a impressionante marca de 10 anos de invencibilidade sem perder nenhum round contra seus 25 oponentes, Khabib foi apelidado de “animal diferente” pelos parceiros de treino da AKA. E esta afirmação não surgiu por conta de seu vídeo no Youtube ainda garoto, treinando com um urso, mas principalmente pelo nível de treinos que proporciona aos bem mais pesados Luke Rockhold (duas categorias acima) e Daniel Cormier (vai disputar o cinturão dos pesados com Miocic, quatro categorias acima).

Em dezembro, o apelido recebeu a chancela de Frankie Edgar e Eddie Alvarez. Dois wrestlers respeitadíssimos no MMA que costumam ter dificuldade para derrubar Edson Barboza nos treinos e ficaram absolutamente impressionados com a dominância de Khabib nos três rounds da luta com o brasileiro no UFC 219.

Se contra Ferguson, Khabib teria que ser mais tático para evitar seu triângulo de mão e, principalmente, derrubá-lo longe da grade, para evitar seu perigoso scramble no solo, contra Holloway as ameaças são menores. Se até Andre Fili o derrubou três vezes e Jeremy Stephens duas, tudo indica que o russo não terá problemas para levar a luta para seu habitat natural.

Mas é sempre bom lembrar que em caso de derrota, Holloway não tem nada a perder. Ganhou uma boa grana, moral com o evento e certamente terá o tempo que precisa para se preparar e lutar em suas melhores condições contra o duro Brian Ortega, que após a finalização sobre Edgar está faminto para roubar seu cinturão de campeão dos penas. Na hipótese remota da vitória, Holloway se consagra como segundo campeão a ter, simultaneamente, cinturões de duas categorias e, de quebra, garante a primeira defesa numa revanche milionária com seu último algoz, Conor McGregor.

Para Khabib, o caminho é fazer seu trabalho, conquistar a tão sonhada cinta e torcer para que Dana consiga pôr em prática a promessa de estrear o UFC na Rússia com um mega evento colocando seu cinturão em jogo contra o antigo dono, Conor McGregor. Ou quem sabe uma disputa contra seu ídolo no esporte, GSP.

Possibilidades não faltam, mas após uma semana tão cheia de percalços, vale lembrar que antes da luta, Khabib tem o desafio da balança, que já o tirou de uma luta com Ferguson. Comentários de bastidores dão conta também de que Holloway chegou bem acima do peso e terá um corte mais duro do que de costume.
 
Se cachorro mordido por cobra tem medo de linguiça, o UFC certamente já deve ter pedido para Brian Ortega embarcar em Los Angeles trazendo o protetor na mala. Afinal de contas, o aluno de Rener Gracie (Nº 1 do ranking dos penas) seria um coringa na medida para salvar o evento, caso qualquer um dos dois venha a ter problemas com a balança.

Silvas x OV´s: os russos já são a segunda potência do MMA Mundial?

Sobrenome vence luta? Obviamente não, mas sem dúvida impõe respeito, como mostra a história recente do nosso esporte. Após as finalizações de Royce Gracie nas primeiras edições do UFC e de Rickson Gracie nas primeiras edições do Japan Open nos anos 90, quantos oponentes não tremeram diante do sobrenome da família precursora do esporte? No início de 2000, foi a vez de Wanderlei, depois Anderson, orgulharem o mais brasileiro dos sobrenomes atropelando oponentes de todos os cantos do globo. Graças a esta dupla, o sobrenome Silva se manteve como o mais temido em ringues e octógonos por quase uma década. 

De alguns anos para cá, porém, quem tem merecido um respeito especial dos oponentes não são exatamente sobrenomes, mas duas letras que costumam ser uma espécie de “sufixo” de muitos nomes russos: OV. Diante da alta incidência de cascas-grossas da “família OV” o lutador Fábio Maldonado chegou a sugerir uma tradução para as duas letras no idioma de Putin: “pedreira”. Brincadeiras à parte, o fato é que lutadores como Khabib Nurmagomedov, Zabit Magomedsharipov, Alexander Volkov e tantos outros russos contratados pelo UFC têm mostrado que não chegaram para brincar. E mais do que isso, têm chamado a atenção do mundo da luta para um mercado até então adormecido, e que hoje já considerado o maior concorrente do Brasil no posto de segunda potência no cenário mundial.       

Se durante 20 anos o Brasil disputou ombro a ombro a hegemonia do esporte com os americanos, hoje eles nadam de braçada à nossa frente e, se não houver alguma mudança radical no MMA nacional, os russos devem nos ultrapassar em médio prazo. Levando em conta apenas os números do maior evento do mundo, pelo menos por enquanto, o posto de segunda potência parece confortável para nós. Das 12 categorias existente no UFC, os EUA detém 8 cinturões, o Brasil 2, Austrália 1 e a Irlanda também 1. Pelo menos até sábado que vem, quando a Rússia é favorita para conquistar seu primeiro cinturão, com Khabib Nurmagomedov. Diante do plantel de lutadores do UFC, esta proporção também se confirma, afinal temos em torno de 80 brasileiros e 20 russos contratados. Mas vale atentar que uma possível vitória de Khabib no próximo sábado pode alavancar a tão aguardada chegada do UFC na Rússia até o fim de 2018. Neste caso, obviamente, a quantidade de russos no plantel aumentará proporcionalmente a resposta financeira do mercado russo.

Mas esta é uma possibilidade para ser considerada a médio prazo. Hoje o MMA brasileiro se mantém, até com uma certa tranquilidade, na segunda colocação. Não só pelas campeãs (Amanda e Cyborg), mas também pela tradição da velha guarda. Lendas do esporte como Anderson Silva, Vitor Belfort, Lyoto Machida e José Aldo, mesmo não estando na briga direta pelo cinturão, ainda fazem do Brasil uma potência do esporte. A pergunta que todo fã se faz é: e quando eles se aposentarem?  

O Brasil continua sendo um enorme celeiro de talentos, a questão é que a crise financeira por que passa o país impactou diretamente no mercado do MMA, escasseando as plataformas de lançamento. Já pararam para pensar onde estaria Wanderlei Silva se não existisse o IVC; Anderson Silva sem o Meca; José Aldo sem o Shooto; e Lyoto sem o Jungle? Certamente muitos deles teriam desistido ou seriam obrigados a negligenciar seus talentos para buscarem um sustento para suas famílias. Foi graças à força e competitividade do MMA nacional que chegaram aonde chegaram. Infelizmente hoje o Shooto é o único evento nacional que mantém periodicidade, o que é pouco para dar vazão à enorme quantidade de talentos que surgem de norte a sul do país.  

É aí que os russos mostram potencial para virar o jogo em médio prazo. Hoje eles têm pelo menos 4 eventos de altíssimo nível - ACB, M-1, FNG e WCFA -, que além de periodicidade, pagam bem aos lutadores e têm um alto nível de competitividade. O resultado pode ser visto em algumas contratações feitas pelo UFC nos últimos anos. Com atuações impressionantes, nomes como Rashid Magomedsharipov, Gadzhimurad Antigulov e Alexander Volkov têm mostrado que a seleção dos OV´s veio para brigar por cinturões.         

RUSSIA AJUDANDO A LEVANTAR O MMA BRASILEIRO?  

O curioso é que se por um lado os russos são hoje nossos maiores concorrentes no mercado mundial, por outro são os eventos de lá que têm dado um novo fôlego ao combalido MMA brasileiro. Não só contratando ex-UFC´s e novatos desempregados de norte a sul do país, como realizando eventos em solo nacional, inclusive com transmissão ao vivo no canal Combate com cards recheados de lutadores brasileiros.  

Este interesse pelo mercado brasileiro ocorre exatamente porque só aqui eles podem encontrar atletas em condições de competir em igualdade de condições com seus lutadores. Afinal de contas, os americanos, com dezenas de eventos em seu território, sabem que a alta competitividade do mercado russo acaba sendo um caminho arriscado e bem mais tortuoso para alcançarem o objetivo final de qualquer lutador: chegar ao UFC.  

E os números comprovam que o mercado russo tem sido uma excelente opção profissional para lutadores brasileiros. Para se ter uma ideia, nos dois primeiros meses de 2018 o UFC tinha feito seis eventos com a participação de 26 lutadores brasileiros (12 vitórias e 14 derrotas). No mesmo período, os russos também tinham realizado seis eventos (três edições do ACB, duas do M-1 e uma do FNG) com a participação de 28 lutadores brasileiros (23 derrotas e 5 vitórias).  

Diante da falta de perspectiva por aqui, sem dúvida o mercado russo tem sido uma senhora tábua de salvação. Pelo menos até a nossa economia voltar aos trilhos e o país finalmente sair da maior crise financeira de sua história. Após as eleições de outubro, a esperança é que nossa economia reaqueça e o mercado do MMA brasileiro volte a ter suas próprias plataformas, voltando a assumir com folgas o posto de segundo maior celeiro de campeões do mundo. 




Nurmagomedov x Ferguson, a luta do ano

Finalmente Dana White botou em prática a atitude que a maioria dos fãs esperavam: retirou o cinturão linear de Conor Mcgregor e permitiu que a meritocracia voltasse a dar as cartas, em grande estilo, entre os pesos leves.   Há muito tempo não fico tão ansioso para assistir a uma luta como este combate principal do UFC 223, entre Tony Ferguson e Khabib Nurmagomedov. De um lado o ground and pound mais dominante da história do evento, de outro, um dos lutadores mais criativos e completos que já lutaram na organização.

Apesar do amplo favoritismo do invicto russo, alavancado principalmente pela performance dominante que teve sobre o nosso Edson Barboza em dezembro último, o fato é que se existe algum lutador que tenha armas para neutralizá-lo, este é Tony Ferguson. Aos 34 anos, o descendente de mexicanos que foi descoberto no TUF 13, onde se sagrou campeão nocauteando seus quatro oponentes, já soma 14 lutas no UFC e apenas uma derrota (por decisão para Michael Johnson em 2012, logo após sua estreia). Desde então, enfileirou alguns dos mais duros nomes da divisão em performances incríveis que lhe valeram cinco bônus nas ultimas seis lutas.

Mostrando um jogo pouco ortodoxo e imprevisível em pé, Tony se sai bem em todas as distâncias. Da média para a longa, costuma usar sua envergadura privilegiada (1,94m) para atingir os oponentes combinando jabs, cruzados e chutes. Da média para a curta, usando seu excelente footwork para cortar ângulos e surpreender o oponente com golpes rodados e cotovelada de encontro. No solo, o aluno de Eddie Bravo costuma ter um dos jogos mais ofensivos e imprevisíveis do MMA na atualidade, alternando cotoveladas da guarda, com raspagens de omoplata e triângulos (de mão e de perna).

Já Nurmagomedov, com apenas 29 anos, pode ser considerado um exemplar em extinção na atual conjuntura do MMA. Não só por ser um dos poucos invictos (25 vitórias em 25 lutas), mas principalmente por ser o único a trazer para o esporte um jogo de ground n´pound que tem se mostrado indefensável. Usando seu boxe rudimentar para encurtar, derrubar e levar os oponentes para a grade, Khabib fez tops da divisão, como Edson Barbosa, Michael Johnson e Rafael dos Anjos, parecerem iniciantes. Sempre um passo à frente dos oponentes, o russo distribui seu peso de maneira perfeita e dá a impressão, para quem assiste suas lutas, de que tem mais de dois braços, tamanha a situação de superioridade que se coloca e que logo se traduz em dano e, consequentemente, quebra do espírito do oponente. 

Sem perder um round desde que chegou ao UFC, Khabib tem tido a balança como seu oponente mais duro. Graças a ela já deixou cards em duas oportunidades e irritou o patrão. Em sua última luta contra Edson Barboza (UFC 219,  em dezembro do ano passado), porém, cumpriu o prometido e, após mudar de nutricionista, bateu o peso sem problemas, tendo uma das atuações mais dominantes de sua carreira.

Como o confronto principal do UFC 223 será de 5 rounds, Ferguson, que também é conhecido pelo seu excelente gás, resolveu fazer seu camp na altitude (montanhas de Big Bear) e também deverá chegar em suas melhores condições.

Na luta em pé, além de uma vantagem de 17cm na envergadura, Ferguson tem clara superioridade técnica. Mas lutando contra o perigo eminente de cair, deverá evitar chutes, além de implementar sua movimentação ofensiva buscando o centro do cage, como fez Michael Johnson na primeira metade do 1º round com Khabib.  

O “X” deste combate não está somente na capacidade de Ferguson de resistir às quedas e ao ground n’pound de Khabib, algo que nenhum outro lutador da divisão conseguiu até então, mas principalmente em não ser derrubado próximo à grade, onde o jogo de Khabib é mortal. Se conseguir usar sua envergadura e excelente footwork para buscar sempre o centro do cage, evitando ser encurralado, mesmo que seja derrubado, Tony pode surpreender o russo. Afinal de contas, um de seus pontos fortes é seu perigoso jogo de “berimbolo” altamente ofensivo, alternando cotoveladas da guarda, com raspagens de omoplatas e triângulos. Fora da grade, “El Cucuy”, mesmo por baixo, pode surpreender. Mas se cair próximo à grade, tende a ser mais uma presa do ground n’ pound do russo.

De sua parte, Khabib deverá atacar menos com quedas de Wrestling (double e single leg), pois Tony Ferguson transita rapidamente do sprawl para uma de suas especialidades: o triângulo de mão. Foi desta maneira que finalizou Lando Vannata e Edson Barboza no 2º round (depois de perder claramente o 1º round). Este é certamente deve ser um ponto de atenção para o treinador da AKA Javier Mendez. Se quiser evitar riscos desnecessários, o russo deverá optar mais pelas quedas de Judô (Ouchi Gari e Uchi Mata), que também aplica muito bem (como vimos contra Rafael dos Anjos e Michael Johnson).  

No papel, Tony Ferguson é indiscutivelmente um lutador mais completo em quase todas as áreas do MMA, mas pela eficiência e superioridade que tem mostrado em suas últimas lutas, Khabib é o favorito para sair da arena de Nova York com sua 26º vitória e o cinturão de Conor Mcgregor.

E pensar que este card ainda tem a revanche entre Joanna Jedrzejczyk e Rose Namajunas; Renato Moicano enfrentando Calvin Kattar; Anthony Pettis contra Michael Chiesa; e o genial Zabit Magomedsharipov fazendo sua terceira apresentação no UFC, desta vez contra Kyle Bochniak. Absolutamente imperdível!  


FABRICIO WERDUM COMEMORA RECONHECIMENTO DOS FÃS E PLANEJA RETORNO PARA JULHO - 19/03/2018


Os momentos de derrota normalmente são lembrados como os mais tristes na vida de qualquer lutador. Mas por incrível que pareça, graças a milhares de mensagens de apoio dos fãs e até da mídia, o revés no último sábado para o russo Alexander Volkov acabou tendo um gosto bem menos amargo para Fabrício Werdum. “Saí da luta muito triste, como em qualquer derrota, mas as mensagens nas mídias sociais levantaram meu astral. A impressão que tive é que finalmente os fãs e a mídia passaram a reconhecer minha história”, me disse emocionado o gaúcho no domingo, menos de 24 horas depois da luta.

Minutos depois de assistir à luta pela primeira vez, já em casa ao lado da esposa e das filhas, “Vai Cavalo” revelou que tomou 12 pontos nos dois cortes e fez questão de falar se seus acertos e erros, sem deixar de reconhecer os méritos do oponente. “Mostrei que meu wrestling melhorou, derrubei ele com 10 segundos de combate. Lutei bem os dois primeiros rounds, mas o Volkov teve todo mérito de acertar aqueles golpes que prejudicaram minha visão. O sangue no meu olho realmente me atrapalhou no lance final, pois não percebi a mão dele vindo”, disse Werdum, visivelmente inconformado por não ter conseguido ajustar o armlock após raspar de meia e pegar as costas do oponente no 2º round. “Agora, vendo em casa, que entendi o meu erro. Minha perna esquerda ficou trancada embaixo dele, por isso o armlock ficou sem pressão. O Volkov tem todos os méritos, mas com um pouquinho mais de paciência eu teria vencido esta luta”, lamentou o gaúcho, garantindo que já pediu ao UFC para voltar o quanto antes. “Tenho consciência de que o cinturão se afastou, mas eu não desisti dele, sei que com mais duas ou três vitórias terei minha oportunidade. Não estou nada desmotivado, muito pelo contrário. No máximo em julho eu quero estar de volta”.

Quatro revanches no horizonte

Com a categoria dos pesados rasa como está, não faltam opções para Werdum entre os Top 10 da divisão. Uma das possibilidades para Sean Shelby seria uma revanche com Andrei Arlovski (9º), que acaba de derrotar Stefan Struve. Sem dúvida teria apelo por ser uma luta entre dois ex-campeões se enfrentando, 11 anos depois da vitória do bielorrusso por decisão no Strikeforce.

Um outro casamento possível seria contra o super samoano Mark Hunt (5º). Não é segredo pra ninguém que o campeão do K-1 não engoliu o nocaute sofrido para o faixa preta de Jiu-Jitsu brasileiro com uma joelhada na Cidade do México em 2014. Tanto que Hunt já pediu a revanche diversas vezes.

Uma terceira opção seria um confronto brasileiro recheado de rivalidade contra Junior Cigano, que estreou no UFC nocauteando o gaúcho (UFC 90, 2008). Mas para acontecer, esta luta dependeria de uma definição da USADA, uma vez que o brasileiro foi notificado por possível violação quando lutaria com Francis Ngannou no UFC 215 (novembro de 2017). A advogada de Cigano recorreu, mas ainda não obteve uma decisão definitiva da USADA. Enquanto isso, Cigano ainda não tem uma data definida para seu retorno.

E por falar em retorno, afastado desde sua vitória contra Travis Browne (julho de 2016), Cain Velásquez também deve voltar ao octógono ainda no primeiro semestre e, depois de adiar a revanche algumas vezes por conta de contusões, nada mais justo que ter sua chance de vingar a guilhotina de Werdum, que lhe tirou o cinturão em junho de 2015.

Opções interessantes não faltam. Agora é aguardar a escolha de Sean Shelby. O fato é que, mesmo estando com quase 41 anos e próximo da aposentadoria, Fabrício Werdum continua sendo um dos mais técnicos lutadores da divisão dos pesados e com condições de lutar em igualdade de condições com qualquer Top 5.

Para completar, o gaúcho finalmente passou a ser entendido pelos fãs e pelo próprio UFC como um produto diferenciado. Um atleta que peitou a ditadura do trash talking, trazida pelos geniais Chael Sonnen e Conor McGregor, e mostrou a classe que não adianta ser ator para tentar se transformar em bom vendedor de luta. O mais importante é ser genuíno.

É curioso notar que apesar de seu extenso currículo com finalizações sobre três dos maiores pesos pesados da história (Fedor, Minotauro e Velásquez), sendo o único campeão do UFC a vencer o Mundial de Jiu-Jitsu e o ADCC, Werdum caiu nas graças dos fãs e, finalmente, passou a ser respeitado como ídolo mundial do esporte por mostrar que o riso também pode ser uma boa forma de vender lutas.

JON JONES, BARÃO E ALDO: A SOLUÇÃO PODE ESTAR NA PSICOLOGIA? - 15/03/2018

No início de 2014, ao ser perguntado sobre quem seria o maior lutador peso por peso do mundo, Dana White não soube cravar sua preferência. Sua única certeza era que a disputa estava entre dois campeões, Renan Barão e Jon Jones. Para muitos colegas da imprensa, nem Jones nem Barão, o maior nome do esporte seria José Aldo, que acabara de solidificar seu reinado de maior peso-pena da história ao vencer Ricardo Lamas na quinta defesa de título. Passados quatro anos, a situação destas três lendas do esporte mudou da água para o vinho. Hoje, mesmo tendo coincidentemente apenas 31 anos, no que poderia ser o ápice físico de suas carreiras, estes três grandes ícones vivem uma espécie de inferno astral. Obviamente, cada qual tem motivos distintos para estarem passando por este momento de crise e incertezas profissionais, mas fica patente nos três casos a importância do trabalho de um profissional que vem sendo negligenciado no MMA, o psicólogo esportivo.

“Infelizmente no mundo da luta buscar ajuda de um psicólogo é uma atitude vista por muitos como sinal de fraqueza. Não é coisa de casca-grossa”. A afirmação vem de um dos maiores nocauteadores da história dos pesos-pesados do UFC, Pedro Rizzo. Hoje à frente da equipe Ruas RVT e iniciando uma nova fase em sua carreira, o discípulo de Marco Ruas quer usar suas experiências pessoais como atalho para seus lutadores. “O MMA é um esporte que exige física e psicologicamente do atleta como nenhum outro. O lutador precisa entender que o cérebro é um órgão como qualquer outro, e como tal, também pode adoecer e precisar de tratamento. Não adianta o cara estar 100% física e tecnicamente se o maestro que rege a orquestra tem algum problema”, analisa Rizzo.

Primeiro brasileiro a disputar o cinturão dos pesos-pesados do UFC (contra Randy Couture em 2001), Pedro não tem dúvida em apontar a causa do momento complicado das carreiras de quatro ex-campeões brasileiros do UFC Aldo, Barão, Cigano e Anderson. “Quando um lutador que ganha tudo sofre uma derrota traumática, degringola um mecanismo onde ele passa a lutar para não perder, para não frustrar os fãs. Este conservadorismo muda suas características. Passei exatamente pelo mesmo processo que eles estão agora, após a minha derrota para Randy Couture”, explica hoje o discípulo de Ruas, reconhecendo que demorou a procurar ajuda com João Alberto Barreto, mestre em psicologia esportiva e faixa vermelha do grande mestre Hélio Gracie. “Ele me fez entender minha cabeça e com técnicas e exercícios diários afastou os chamados pensamentos intrusos. Se tivesse começado o trabalho com ele logo após o trauma da primeira derrota, talvez minha carreira tivesse seguido outro rumo. Mas o trabalho que fiz foi essencial para que eu prolongasse minha carreira”, atesta Rizzo.

Mas infelizmente a grande maioria dos lutadores reluta a reconhecer que a psicologia pode ser um bom caminho para uma virada num momento crítico na carreira. Renan Barão é um bom exemplo. Vindo de 4 derrotas em 5 lutas, o potiguar nunca mais foi o mesmo desde que foi nocauteado pelo atual campeão, TJ Dillashaw, em maio de 2014 no UFC 173. Mudou de categoria, de equipe, treinadores, nutricionistas, continuou se dedicando com afinco aos treinos, mas em nenhum momento cogitou a possibilidade de buscar a ajuda de um psicólogo esportivo. O resultado pode ser visto em sua última luta em fevereiro de 2018, quando foi salvo pelo gongo do que estava caminhando para ser uma derrota por nocaute para o mediano Brian Kelleher no 3º round. Após a luta, o potiguar comentou com parceiros de treino que o problema de sua queda de performance havia sido novamente a dieta, ou seja, nem cogitou a possibilidade de buscar ajuda de um psicólogo que talvez pudesse ajudá-lo a entender o que se passa em sua cabeça, tentando trazer de volta aquele campeão que impressionou Dana White e chegou a emplacar uma sequência de 33 vitórias, ficando invicto por 9 anos.

Tendo passado por um momento bem parecido com o de Barão, Rizzo lembra de uma das frases mais importantes que aprendeu nas consultas com o mestre João Alberto Barreto. “Ele sempre me dizia que, para um atleta de alto rendimento, cérebro bom não é aquele que pensa, mas aquele que age automaticamente. Existem dezenas de exercícios mentais que o psicólogo te ensina e, se você treina aquilo com disciplina, os resultados aparecem como em qualquer outra área do treinamento”, conta Rizzo.  

O caso de José Aldo é bem diferente do parceiro de treinos da Nova União. Para ele, a derrota em apenas 13 segundos para o maior rival, Conor McGregor, no UFC 198, não gerou um bloqueio psíquico, seu trauma veio em decorrência da frustração de não conseguir a revanche imediata, mesmo sendo reconhecidamente o maior peso-pena da história.

Diante da impossibilidade da sonhada revanche, Aldo perdeu a motivação para continuar no esporte, passando a dizer publicamente que gostaria de fazer logo as últimas lutas do contrato, com vistas a migrar para o Boxe. O resultado desta falta de foco nos treinamentos ficaram patentes nas duas derrotas (ambas por nocaute técnico no 3º round) para o novo campeão da categoria, Max Holloway.

No caso de Aldo, talvez um profissional de psicologia o ajudasse a encontrar de fato seus caminhos. Ao contrário de Barão, Aldo já conquistou sua independência financeira e não precisa mais provar nada a ninguém. Seja migrando para o Boxe, voltando ao MMA ou se aposentando, o importante é que o homem, cuja história inspirou o filme “Mais Forte Que o Mundo”, encontre o quanto antes seu melhor caminho.

Jon Jones e o processo de auto sabotagem 

Se no caso de Aldo e Barão o trauma causado pela decepção de um nocaute inesperado iniciou a mudança de suas carreira, para Jon Jones, cuja única derrota em 24 lutas ocorreu por desclassificação, devido a uma cotovelada ilegal, o motivo da crise parece ser outro. É o que explica o psicólogo com especialização em esportes de combate Jorge Luiz Marujo: “O caso de Jones me parece um clássico de auto sabotagem. Ele é aquele indivíduo que não convive bem por muito tempo com o êxito e a estabilidade profissional, e a uma certa altura acaba melando tudo. Freud já falava de casos como este há muito tempo”, esclarece Marujo, que inclusive já trabalhou com diversos atletas da extinta X-Gym, como Ronaldo Jacaré e Rafael Feijão, e também do Jiu-Jitsu, como André Galvão e Ronys Torres.

A explicação do profissional faz todo sentido levando em conta o histórico recente de Jon Jones. Entre o acidente de trânsito sem socorro que o levou à prisão, diversas confusões nos bastidores e dois casos de doping flagrados pela USADA, Jones perdeu seu cinturão duas vezes e passou de maior lutador da história do esporte a uma espécie de “Adriano Imperador” do MMA.

Como é reincidente, Jones tem tudo para pegar um gancho de 4 anos e só voltar ao UFC aos 34 anos. Um desperdício absurdo de talento e uma grande perda para o esporte num momento em que grandes ícones fazem falta.

Segundo Marujo, o caso de Jones, apesar de parecer mais simples de ser revertido, também tem um componente complexo e recorrente que aparece também nos casos de Aldo e Barão. “Hoje existem várias técnicas para uma abordagem comportamental desconstruindo a prática de pensamentos catastróficos, mas é essencial que o atleta e o seu treinador acreditem no nosso trabalho. O Jones entender que precisa de ajuda é o primeiro passo para que ele volte diferente”, explica o psicólogo, revelando a enorme resistência que encontra no mundo da luta. “Investi muito fazendo uma pós-graduação e estudando atletas de Jiu-Jitsu e MMA, mas infelizmente não encontrei interesse por parte de lutadores e treinadores”, conta, explicando que em sua opinião um dos maiores problemas do MMA nacional reside na dificuldade que a maioria dos treinadores tem em formar uma equipe multidisciplinar. “Parecem que têm ciúme e receio de que os atletas sejam influenciados por outros mestres. O fato é que ninguém consegue comer um bolo ou uma pizza sem fatiar. Os head coaches precisam entender que o MMA é hoje um esporte extremamente profissional e multidisciplinar”.

Felizmente, nem todos treinadores pensam assim. Exatamente por já ter sentido na pele a importância da psicologia nos 19 anos em que enfrentou alguns maiores pesos-pesados do esporte, Pedro Rizzo já começou o “treinamento mental” com o primeiro contratado do UFC de sua equipe, Raoni Barcelos. “Antes de começarem as pressões quero que o Raoni esteja preparado e sabendo como enfrentá-las. Estou começando um trabalho de formiguinha com muitos talentos aqui na Rizzo RVT e quero meus futuros campeões bem preparados em todas as áreas”.

Que o exemplo da Rizzo RVT seja seguido por outras equipes de MMA pelo mundo e, quem sabe, pelo próprio centro de alta performance do UFC em Las Vegas, que tem investido em pesquisas científicas em diversas áreas. Afinal de contas, é difícil mensurar quantos grandes eventos seriam possíveis e quantos milhões de dólares poderiam estar em jogo se estes três gênios do esporte (Barão, Aldo e Jones) com apenas 31 anos de idade, estivessem explorando ao máximo seus potenciais nos últimos anos de suas carreiras.

NAGAO, O GÊNIO DAS IMAGENS DE LUTA - 09/03/2018

Este final de semana não haverá UFC no sábado, mas se você curte boas reportagens sobre ícones do esporte, vale ficar antenado no Sensei Sportv (meia-noite de sábado para domingo). Nesta edição Flávio Canto vai iniciar uma série de reportagens especiais que fez no Japão apresentando um personagem que, apesar de nunca ter subido no ringue, é de absoluta importância para a história do MMA: o fotógrafo japonês Susumu Nagao.

Único fotógrafo a registrar todas as 50 primeiras edições do UFC e estar à beira do ringue em todas as edições do extinto Pride, Nagao é o autor de algumas das imagens mais emblemáticas da história do esporte, como o armlock de Royce Gracie em Jason de Lucia (UFC 2); o Trenzinho Gracie (UFC 1); o chute de Ruas em Varelans na final do UFC 7; O armlock de Minotauro em Bob Sapp (Pride Shockwave); a joelhada voadora de Anderson Silva em Carlos Newton (Pride 25); o soco de Minotouro deformando o rosto de Shogun (Pride Critical Countdown); entre tantas outras.

Para quem começou a fotografar na era digital, onde as máquinas se encarregam de equilibrar a luz e encontrar o foco, fica até difícil mensurar a qualidade das fotos de Nagao.

Eu passei admirá-lo ainda mais por sentir na pela o grau de dificuldade de registrar imagens em meu primeiro UFC (9), quando levei uma verdadeira “surra fotográfica”. Lembro que quase chorei ao chegar no laboratório e ver Amaury Bitetti e Don Frye lutando nas profundezas do inferno (de tão vermelhas que estavam as imagens). Fiquei ainda mais desesperado ao receber a revista japonesa com as fotos do Susumu absolutamente equilibradas.

Mas aquela experiência traumática em 1997 me fez entender que fotografar um UFC na era analógica não era para principiantes. A iluminação, além de fraquíssima, não era uniforme em todo octógono e puxava absurdamente para o vermelho. Como os filmes negativos para condições adversas de iluminação (acima de ISO 800) deixavam a imagem muito granulada, a única maneira de fotografar lutas pelas grades do octógono era importar os caríssimos Slides 320 da Kodak (para luz de tungstênio), que tinham que ser “puxados” na revelação para ISO 1600 ou 3200 (trabalho que só era feito, com qualidade, por um laboratório profissional no Rio de Janeiro).

Infelizmente o Nagao só me ensinou tudo isso depois desta primeira surra, que aliás salvaria minhas fotos na estreia de Vitor Belfort e Wallid Ismail no UFC 12. Desde então passei a aproveitar cada edição do UFC, Pride ou Shooto, que conseguia ir, para sugar um pouco do conhecimento técnico deste gênio das imagens de luta.

A partir do ano 2001, porém, quando a Nikon e Canon passaram a dominar a tecnologia digital, finalmente, conseguindo fazer máquinas profissionais melhores que as analógicas, a fotografia se democratizou e as perdas fotográficas passaram a ser mínimas.

Uma amizade iniciada graças à violência no Rio    

Minha amizade com Susumu Nagao se iniciou de maneira curiosa, em janeiro de 1995. Pode-se dizer que graças à violência no Rio de Janeiro.

Eu estava entrando no Maracanãzinho para cobrir o Vale-Tudo Brasil Open para a revista KIAI, naquela histórica noite em que o mestre Hulk venceu Amaury Bitetti, quando percebi alguns japoneses barrados do lado de fora.

Eram quatro profissionais enviados pela revista Kakutougi Tsushin para cobrir o torneio de três lutas numa noite, cujo vencedor faria, dali a seis meses, uma superluta com Rickson Gracie, que já era um grande ídolo no Japão, após vencer dois torneios Japan Open.

Com o Rio de Janeiro vivendo uma escalada de violência, bem semelhante a atual, era questão de tempo, naquele local escuro, que aquela mina de ouro em equipamentos fotográficos fosse descoberta por meliantes. Como não consegui convencer os seguranças a deixarem os orientais entrarem, cedi meu crachá para um deles (depois viria e descobrir que era o Susumu), que logo voltou com organizador do evento, o Grande Mestre João Alberto Barreto.

Gratos pela minha atitude, os japoneses me convidaram para um jantar no dia seguinte. Na conversa, expliquei um pouco sobre as artes marciais no Brasil, a rivalidade entre Jiu-Jitsu e Luta-Livre, as brigas entre Hugo e Rickson, e a força do Jiu-Jitsu e Muay Thai brasileiros. O papo acabou se transformando numa reportagem de quatro páginas na Kakutougi Tsushin, que na sequência me convidaria para ser seu correspondente no Brasil, enviando fotos e reportagens de todos os eventos que cobrisse por aqui. A partir de então, Nagao e eu passamos a nos encontrar com maior frequência e viramos grandes amigos. E as dicas do mestre, aliás, foram essenciais para eu melhorar a qualidade das minhas imagens, registrando eventos de Vale-Tudo, Jiu-Jitsu, Muay Thai e Luta-Livre no Brasil.

Na primeira edição do UFC No Rio, em 2011, Nagao veio ao Brasil cobrir o evento e nos demos conta de que começamos a trabalhar com artes marciais no mesmo ano (1993) e que a história do Vale-Tudo havia começado há 100 anos com outro encontro entre um japonês (Mitsuyo Maeda Koma) e um brasileiro (Carlos Gracie). Daí veio a idéia de fazermos uma exposição juntando nossos principais cliques da era atual com ao de outros fotógrafos que registraram os ídolos do passado. O Canal Combate apoiou a idéia. Nascia assim a exposição “Do Vale-Tudo ao MMA - 100 anos de Luta”, que em 2013 seria transformado no livro de mesmo nome.

Confira outras imagens históricas de Susumu Nagao:

UFC 222: PERGUNTAS, RESPOSTAS E POLÊMICAS - 06/03/2018

Ótimas lutas, surpresas, revelações e grandes reviravoltas. O UFC 222 fez as redes sociais ferverem assim que o evento terminou na madrugada do último sábado (3). Separei as perguntas mais freqüentes relacionadas aos protagonistas da noite e deixei os meus pitacos com relação ao futuro de cada um.

Existe alguma mulher capaz de vencer Cyborg?

Esta é a pergunta que todo fã de luta se fez após assistir Cris Cyborg atropelar a russa Yana Kunitskaya em apenas 3min25s, conquistando sua 20ª vitória (17ª por nocaute) e se aproximando dos 13 anos de invencibilidade no MMA. Marca que, por sinal, nunca foi atingida por nenhum campeão da história do esporte (Fedor e José Aldo chegaram perto dos 10 anos de invencibilidade).

Diante dos fatos a resposta à pergunta acima parece simples, ou seja, por enquanto não existem ameaças claras ao reinado da curitibana.

Cabe ao UFC então buscar meninas competitivas. E é nesta toada que Cyborg tem pressionado a organização a fortalecer sua divisão, contratando meninas peso pena, mas a realidade do mercado não tem ajudado mundo. A australiana Megan Anderson (campeã do Invicta), que vem de uma seqüência de 4 vitórias, ainda está às voltas com problemas pessoais.
Diante destas condições do mercado na categoria pena feminino, sou obrigado a concordar com a decisão de Dana White: a oponente mais competitiva para Cris Cyborg no momento é Amanda Nunes.

Além de ser uma das maiores lutadoras da divisão, Amanda tem poder de nocaute e é faixa preta de Judô e Jiu-Jitsu. Se conseguir derrubar e manter a curitibana no chão, coisa que nenhuma das suas 22 oponentes conseguiu até então, a atleta da ATT pode surpreender.

No papel a baiana é uma oponente mais dura que Holly Holm, que mal ou bem, conseguiu proporcionar 5 rounds competitivos com a campeã.

Cyborg, como sempre, entraria como favorita, mas se a atual campeã peso galo do UFC conseguir destronar a maior lutadora de todos os tempos, escreverá seu nome na história do esporte como a primeira campeã a unificar o cinturão em duas categorias do UFC. Feito até hoje só alcançado por Conor McGregor.

Ketlen Vieira já merece disputar o cinturão?

Depois de vencer quatro lutas, com destaque para as duas últimas, contra as veteranas Sara Mcmann e Cat Zingano, Ketlen conquistou merecidamente o 4º lugar no ranking e praticamente carimbou o direito ao title shot.
A questão é o timing e a agenda da campeã Amanda Nunes que, além de uma possível luta contra Cyborg, ainda tem Raquel Pennington na frente da fila.

Neste caso a brasileira, provavelmente, teria que fazer mais uma luta, que poderia ser contra Germaine de Randamie (5º) ou, Julianna Pena (3º), que deu à luz em janeiro e deixou claro que ficaria afastada por período indeterminado para cuidar do bebê. Em caso de uma 5ª vitória, Ketlen teria chances de estar disputando o cinturão antes do final do ano, ou seja, antes de completar 2 anos de UFC.

O fato é que ao anotar a quarta vitória em pouco mais de um ano e meio, Ketlen fez sua parte chegando a 4ª no ranking. O mais importante agora é se manter concentrada e não cair na cantilena de exigir cinturão e achar que está sendo prejudicada pelo evento, caso tenha que fazer mais uma luta.

Brian Ortega será páreo para Max Holloway?

briaConfesso que apesar de reconhecer a impressionante evolução de Brian Ortega, principalmente depois das finalizações sobre Moicano e Swanson em 2017, acreditava que o garoto de 27 anos ainda não tinha armas suficientes para bater de frente com uma lenda como Frankie Edgar, que já havia despachado outro talento novato em maio (Yair Rodriguez).

Curioso é que, assim como na luta entre Romero e Rockhold há 3 semanas no UFC 221, pairava no ar neste co-main event do UFC 222 um certo clima de roteiro pré-escrito.

Se na Austrália tudo levava a crer que o substituto, Romero, chamado em cima da hora, seria um mero coadjuvante para o anteriormente planejado title shot entre Rockhold e Whittaker; no evento de Vegas, Brian Ortega, chamado para substituir o campeão contundido a 4 semanas do UFC 222, também chegou como zebra, e assim como Romero, Ortega saiu como grande vencedor da noite, vencendo ainda no 1º round a lenda Edgar, apontado por muitos como a última ameaça a era Holloway.

Ortega deu uma aula de Boxe em Edgar, controlou a distância inteiramente e ao encaixar uma cotovelada de encontro seguida de um upper, que tirou Frankie Edgar do chão (numa versão peso pena do nocaute de Ngannou sobre Overeem) escreveu seu nome na história do esporte como primeiro homem a conseguir nocautear o ex-campeão dos leves que destronou BJ Penn.

De volta a pergunta no topo do texto: Ortega será páreo para Holloway? Pela evolução que tem mostrado na luta em pé e as impressionantes finalizações que tem conseguido, definitivamente o faixa preta de Rener Gracie merece todo respeito por parte do campeão, curiosamente um ano mais novo que ele.

Mas pelas vitórias impressionantes sobre José Aldo e Anthony Pettis, ainda continuo achando que o cinturão permanecerá com o campeão. Independente de qualquer coisa, Dana White já garantiu que o confronto será realizado o quanto antes. Mais uma luta de tirar o fôlego para abrilhantar o calendário do UFC 2018.

A estreia de Mackenzie decepcionou?

De maneira alguma. A competitividade no maior evento do mundo é muito maior que no Invicta, então seria natural que com todo marketing em cima de Dern ela passasse a ter seu jogo estudado. Trabalho aliás muito bem executado pelos treinadores de Ashley Yoder, os brasileiros Ricardo Feliciano e Gustavo Pugliese.

A americana, faixa marrom de Jiu-Jitsu, seguiu à risca o plano tático dos mestres e fugiu inteiramente ao seu jogo tradicional de buscar as lutas de solo. Além de usar bem sua envergadura pontuando com jabs, Yoder fez um anti-jogo perfeito para bloquear as tentativas de queda e o boxe ainda rudimentar da filha de Megaton Dias.

Certamente as muitas horas de competição no Jiu-Jitsu foram um diferencial para que Dern mantivesse o ímpeto até o final conseguindo a queda salvadora que a permitiu chegar às costas de Yoder no último minuto, virando a luta na opinião de 2 dos 3 juízes.

Outro ponto positivo foi a motivação de Mackenzie que, após entregar tudo o que tinha numa guerra de 15 minutos, já saiu do Octógono pedindo uma vaga no UFC Rio. Na entrevista a equipe do Combate na saída do octógono deixou no ar, inclusive, uma possível pré negociação para enfrentar a australiana Alex Chambers, que vem de duas derrotas e em sua penúltima luta foi finalizada por Paige Vanzant.

Mais uma oponente na medida para a faixa-preta, que chegou a ser chamada pela imprensa americana de nova Ronda, só que do JJ.

Ronda aliás é um ótimo exemplo para Mackenzie e seus treinadores traçarem sua carreira, levando em conta o alto nível de competitividade das categorias femininas.

Para começar a pensar em cinturão, a longo prazo, Mackenzie precisa afiar bastante sua trocação e Wrestling com o headcoach Ben Henderson na MMA Lab.

Tendo em vista a dificuldade de derrubar na grade, umas aulas particulares com o papai Megaton, faixa preta de Judô, também podem ser uma ótima pedida. Se conseguir surpreender as adversárias alternando seu poderoso ataque de single leg, com quedas “de varrida” como Ouchi Gari e Couchi Gari, Mackenzie certamente terá menos dificuldade de levar as oponentes para seu hábitat natural.

É justo já colocar o estreante Alexander Hernandez entre os top 13 dos leves?

Apesar de todo o mérito por ser chamado a 10 dias do evento (para substituir o contundido Bobby Green) e conseguir nocautear em apenas 42 segundos o 12º do ranking Beneil Dariush, discordo da votação dos colegas da imprensa que já o colocaram na 13º posição do ranking dos leves após o UFC 222.

Uma injustiça com atletas como Gregor Gillespie (invicto no MMA e com 4 vitórias no UFC), James Vick (4 vitórias consecutivas no UFC) e Leonardo Santos (há 6 lutas sem perder, invicto no UFC).

Penso que na hora de formularem seus rankings, os jornalistas devam levar em conta o grau de competitividade de cada divisão. Se o critério for meramente substituição de números (12º venceu 5º, passa a ser 5º?), não é necessário colocar profissionais que respiram e entendem o esporte para votar no ranking.

Bons exemplos de que a objetividade e o bom senso podem evitar bizarrices são Colby Covington em 3º nos meio médios (não estava nem ranqueado até vencer Demian Maia e tomar seu lugar) e Josh Emmett (que pulou de fora do ranking para o 4º lugar após nocautear Ricardo Lamas). Emmett já na primeira luta após Lamas foi nocauteado por Jeremy Stephens; Já Colby, passou a exigir lutas com o campeão Woodley, evitando qualquer oferta que venha “de baixo”.
Não estou aqui dizendo que Hernandez não possa ser um fenômeno que vá enfileirar toda divisão e um dia se tornar campeão, apenas acho que uma exibição de 42 segundos não é suficiente para colocá-lo na elite da divisão mais disputada do maior evento do mundo.

Foi justa a desclassificação de Hector Lombard?

Como falei comentando na transmissão do Combate ao lado do meu parceiro Prota: o jab aplicado por Lombard milésimos de segundos depois da buzina soar seria plenamente justificável, agora o direto que veio na seqüência enquanto o juiz gritava "stop" pela segunda vez em cima do lance foi a pá de Cal. Para completar o cubano ainda virou de costas e não demonstrou nenhuma surpresa ou arrependimento, deixando claro que ele sabia bem o que tinha acabado de fazer.
De qualquer maneira vale comentário a maneira como CB Dollaway “valorizou” o golpe numa malandragem excessiva.

Para efeito de contagem de pontos ao final do round, as comissões atléticas adotam um grau para estipular os níveis crescentes de abalo pelo knock down. No Knock down grau 1, por exemplo, o lutador cai sentado com as duas mão protegendo a queda, ou seja lúcido; no KD grau 2, o lutador cai pra trás sem a proteção das mãos e recobra a consciência na queda; No KD grau 3, cai para o lado sem os braços protegendo e recobra a consciência na queda; no KD grau 4 ele cai para frente e recobra a consciência na queda. Já no KD grau 5, o lutador “implode” caindo no eixo do próprio corpo e recobra a consciência na queda. Obviamente o Knock Down do CB foi grau 1, só que ele se comportou como se tivesse perdido totalmente a consciência, como num knock out. Outro sintoma de simulação foi a “progressão do estado de inconsciência”. Ele começou sem saber contar os dois dedos do médico e em poucos minutos não conseguia ficar de pé, tendo que ser retirado do Octógono de maca.

Uma atitude que me lembrou bastante a de Chris Weidman na luta com Gegard Mousasi no UFC 210, quando o americano simulou estar tonto (sem lembrar o dia da semana) após uma possível joelhada ilegal, mas acabou se dando mal quando o juiz Dan Miragliota usou o recurso de vídeo, confirmou que o golpe foi legal e decretou sua derrota por TKO.

Desta vez Dollaway acabou beneficiado por conta da clara intenção e ilegalidade do golpe do cubano, mas seria interessante que as comissões atléticas estejam de olho neste tipo de malandragem que pode vir a causar muitas polêmicas no esporte. Se no futebol o excesso de malandragem é coibido com cartões amarelos, há de haver no MMA alguma maneira de coibir este tipo de atitude que pode causar sérias injustiças.

Sean O'Malley: um novo fenômeno?

Pelo que exibiu em suas duas vitórias por decisão no UFC contra oponentes medianos, o garoto de 23 anos que caiu nas graças de Snoop Dogg e Dana White após aplicar um belo nocaute sobre o irregular Alfred Khashakyan no Tuesday Night Contender Series, ainda tem muito a evoluir para entrar no nível técnico dos tops de uma divisão encabeçada por TJ Dillashaw (campeão), e quem tem logo abaixo atiradores de elite como Cody Garbrandt (1), Dominick Cruz (2), Raphael Assunção(3), Jimmie Rivera(4), Marlon Moraes (5), e os Johns, Lineker (6) e Dodson (7).

Mas o tempo joga a seu favor. Se estiver cercado de bons managers e contar com a boa vontade dos matchmakers do UFC, Sean pode construir sua carreira sem pressa. O momento é de treinar e adicionar, luta a luta, mais armas a seu arsenal.

O fato é que "Sugar" O'Malley agradou ao patrão não só pelo “estilão irmãos Diaz” de ser, mas principalmente pelo estilo versátil e espírito guerreiro de lutar até o final da luta com Soukhamthath mesmo tendo machucado o tornozelo. No final recebeu o anúncio da vitória deitado no Octógono, numa cena que me remeteu a famosa vitória de Ronaldo Jacaré sobre Roger Gracie, com o braço quebrado, na final do mundial de 2008.

Muito aplaudido pelos fãs o garoto levou pra casa um bônus de US$ 50 mil por sua exibição. O novo talento terá tempo de sobra para curtir o presente, afinal de contas após o evento, a NSAC lhe deu uma suspensão de quase 5 meses em decorrência de sua contusão.

Mas voltando à pergunta, só o tempo dirá se O'Malley está mais para Sage Northcutt, irmãos Diaz ou Max Holloway.

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BRASIL, O PAÍS DO MMA FEMININO - 01/03/2018

“Quer fazer esporte radical, vai criar dois filhos sem babá em casa para ver se é mole”. Frases de cunho machista como a do líder da BTT Bebeo Duarte eram comuns em meados dos anos 90, quando as primeiras mulheres começavam a se arriscar em eventos de Vale-Tudo.

Confesso que eu era um dos que não nutria lá muita simpatia pelo MMA feminino. Não por ser contra mulheres lutando, mas principalmente pela minha traumática experiência com lutas femininas nestas primeiras tentativas nos anos 90, quando os promotores claramente casavam lutas entre meninas para trazer um componente “freak” ao show e incendiar a torcida.

A primeira vez que vi duas mulheres num ringue foi no 3º FreeStyle, em São Paulo, em 1995. Na mesma noite em que Jorge Patino (até 80kg) e Jorge Pereira (até 90kg) consagravam o Jiu-Jitsu vencendo três lutas em uma noite, fotografei Alcimara Linger vencendo Adriana Miranda ainda no primeiro round numa verdadeira briga de bar, com direito a puxão de cabelo, pisão e socos da montada. Para completar o árbitro ainda demorou e interromper.

Em 1996 tive outra experiência negativa, desta vez no torneio FreeStyle, em Belém, onde Carmem Casca-Grossa, que começava a praticar Jiu-Jitsu, atropelou uma boxer local sem nenhuma resistência.

Mas a terceira foi ainda mais traumática. Tinha ido ao Japão para cobrir o Pride 4 em 1998 e resolvi acompanhar o colega Susumu Nagao num evento pequeno de Vale-Tudo na companhia dos mestres Carlson Gracie e Oswaldo Paquetá. Vale contextualizar que aquele era um momento em que o Vale-Tudo começava a ganhar espaço no Japão, mas nada que se aproximasse do consagrado Pro-Wrestling. A diferença é que lá, ao contrário de Brasil (telecatch) e EUA (WWE), os fãs não tinham a clareza de que as lutas eram combinadas, o que acabou levando muitos promotores a misturarem as estações, ou seja, trazer grandes ícones do “fake” para popularizar o Vale-Tudo fazendo lutas combinadas.

Nunca entendi como as pessoas não percebiam a diferença entre uma luta real e uma combinada até ir com Carlson neste pequeno evento, o qual não me recordo o nome.
Na única luta feminina da noite, lembro que me impressionei com a atuação de uma japonesa de pouco mais de 60kg que, após apanhar muito, conseguiu aplicar um armlock na oponente de quase 100kg. Confesso que fui levado pela empolgação do público nesta que seria minha primeira “experiência positiva” no MMA feminino. Mas Carlson tratou de me trazer a realidade. “Tú é ingênuo, hein, bichão. Acreditou que a Japinha virou a luta. Aquilo foi um marmelo indecoroso”. Minha ingenuidade ainda rendeu um bullying pesado por parte do mestre até o fim da viagem.

Finalmente, depois desta terceira tentativa, passei a ter uma opinião consolidada com relação ao MMA feminino: era inviável.

Lição da “Cyborguinha”

Mas jornalistas não podem ter certezas inabaláveis, e eu demorei quase sete anos para aprender a lição. Em 2005, no auge da era Pride, em uma das minhas visitas bimestrais à Chute Boxe, vi uma menina fazendo um sparring duro com um peso pena da equipe. Ao perceber meu interesse, o mestre Rudimar Fedrigo, orgulhoso, me apresentou a “Cyborguinha” (ganhara o apelido não só por ser namorada do Evangelista Cyborg, mas por ter características semelhantes a ele) e logo após o treino, me revelou em primeira mão que, mesmo com apenas três meses de academia, decidira testar a agressividade e o talento da moça colocando-a para estrear no Vale-Tudo contra uma atleta da BTT (Erica Paes) na segunda edição do Showfight, de Oscar Marone, em Maio de 2005.

Apesar de só ter durado 1 minuto e 46 segundos, a versão feminina do maior clássico do MMA mundial na época foi uma das melhores lutas do evento e levantou a galera. A “Cyborguinha”, que aprendi pelo cartaz do evento que se chamava Cristiane, começou aplicando um knock down na oponente, mas deslocou o braço ao ser raspada e acabou desistindo quando tentou fugir o quadril para defender um leglock aplicado pela atleta da BTT, e contundiu ainda mais o braço.

Na seqüência Cris voltaria ao ringue com o braço na tipóia para explicar ao publico o ocorrido e pedir uma revanche imediata. Que acabaria nunca ocorrendo.

Seis meses depois da estréia, Cris me ajudaria a mudar em definitivo minha visão sobre o MMA feminino fazendo, em sua segunda luta, outro confronto histórico contra a mais experiente Vanessa Porto no Storm Samurai 9, em Curitiba.

Vanessa, que hoje luta na categoria mosca, vinha de três vitórias consecutivas no 1º round e trocou 15 minutos com Cyborg, levantando o publico curitibano e, pela primeira vez, fazendo uma luta feminina ser considerada a melhor da noite.

Com esta luta histórica, as duas mostraram a todos aqueles que, como eu, se opunham ao MMA feminino que o sexo não era uma questão naquele esporte, bastavam oponentes à altura, ou seja, competitividade, e elas seriam capazes de fazer lutas tão ou mais emocionantes que os homens.

Aos poucos, outros talentos femininos foram entrando em cena proporcionando mais grandes clássicos nacionais como: Carina Damm x Michele Tavares; Ana Maria Índia x Vanessa Porto; Amanda Nunes x Ediane Gomes e tantos outros.

Na esteira do sucesso das meninas do Brasil, os americanos começaram a colocar divisões femininas em eventos como o Strikeforce, que em 2009 contratou Cris Cyborg. A curitibana se tornaria campeã ao nocautear no 1º round a bela Gina Carano, a mais popular lutadora americana da época.

Em 2007, surgiria o primeiro evento exclusivamente feminino, o Fatal Femmes Fighting (FFF), que serviria de inspiração para a criação do Invicta em 2012, até hoje o principal evento exclusivamente feminino do mundo.

Mesmo com o aumento da competitividade e a explosão de popularidade do MMA feminino, muitos dirigentes ainda se mostravam reticentes com relação à capacidade feminina no esporte. Dentre eles, Dana White, que se mantinha irredutível até assistir à finalização de uma tal Ronda Rousey sobre Sarah Kaufman em apenas 54 segundos em agosto de 2012 e decidir mudar de ideia, fazendo em fevereiro de 2013 no UFC 157 a primeira luta feminina da história do UFC. A finalização de Ronda sobre Liz Carmouche no card principal do evento iniciou uma das maiores revoluções da história do esporte.

Hoje o MMA feminino conta com 4 categorias no maior evento do mundo, no qual o Brasil é considerado a maior potência do esporte com dois cinturões (Cris Cyborg e Amanda Nunes) e tem a chance real de disputar um terceiro (com Jéssica Andrade) em curtíssimo prazo.

Se no passado se discutia se mulheres deviam lutar MMA, hoje nos perguntamos o que seria do MMA nacional sem as mulheres?

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MMA NA SAPUCAÍ - 15/2/2018

Uma pergunta em tom de brincadeira que a colega Ana Hissa fez a mim na última edição do “Revista Combate”, em plena terça-feira de carnaval, me fez matutar: por que a história do MMA nunca virou enredo do carnaval? Difícil imaginar enredo mais rico para ser explorado do que os 104 anos de história de um esporte criado por um brasileiro e que hoje é um dos mais populares do mundo.

Lembro que em meados dos anos 90, logo após as primeiras vitórias de Royce no UFC, um carnavalesco de uma escola de samba do grupo de acesso chegou a pensar em levar a história da família Gracie para a avenida, mas acabou sendo demovido da ideia quando foi apresentado ao mestre Carlson Gracie. “Tá ficando louco, bichão? Se botar um monte de cascas-grossas de quimono todo duro na avenida, você só vai levar zero! É derrota na certa!”, disse o mestre com a “delicadeza” que lhe era peculiar. Após o banho de água fria, o carnavalesco certamente decidiu mudar de enredo.

O fato é que de lá pra cá muitas águas rolaram e a história, que já era riquíssima, acabou sendo consagrada com a explosão mundial do MMA, carreada pelo sucesso do UFC e de vários campeões brasileiros que surgiram depois de Royce. E graças a esta popularização, o esporte passou a ser entendido como algo produzido no Brasil e que gera enorme impacto global.

Se muitas vezes os carnavalescos têm a capacidade de transformar histórias sobre outras culturas e países distintos em enredos fantásticos, imaginem trabalhando com um assunto rico e genuinamente nacional como este.

Até eu que não sou do ramo já consigo imaginar os carnavalescos deitando e rolando: Conde Koma se despedindo de seu mestre Jigoro Kano no Japão e fazendo desafios pelo mundo; o encontro do japonês com Gastão e seu filho Carlos em Belém; a chegada da família Gracie no Rio de Janeiro em 1925; os desafios dos irmãos Gracie e a luta de Kimura e Hélio no Maracanã; Carlson Gracie vingando o tio da derrota para Valdemar Santana; Rorion chegando aos EUA como imigrante fritando hambúrgueres e fazendo desafios em sua garagem; o primeiro UFC e a consagração de Royce e do Jiu-Jitsu brasileiro; a transformação do esporte promovida por Dana White e os irmão Fertitta; a inclusão social propiciada pelo esporte no Brasil e no mundo no carro “Mais Forte que o Mundo” (com José Aldo de destaque); terminando em grande estilo com um carro com os maiores ídolos de várias gerações do esporte: Marco Ruas, Anderson, Minotauro, Wanderlei, Belfort e tantos outros gênios que escreveram a história deste esporte.

O grande mestre Carlson Gracie que me perdoe, mas com uma história riquíssima como essa, o samba no pé dos nossos “destaques cascas-grossas” não seria motivo para dependermos de decisão de jurados. Aposto em vitória, e por nocaute.
Alô, Alô, Paulo Barros, Rosa Magalhães e outros gênios do carnaval, pensem com carinho na ideia antes que algum diretor de Hollywood chegue na frente e conte a história nos cinemas por um enfoque “mais contemporâneo”, talvez enfatizando a genialidade de três americanos que deram uma nova roupagem ao Vale-Tudo brasileiro, comprando por 2 milhões de dólares em 2000 como um evento que promovia o desafio entre modalidades e vendendo por 4.2 bilhões em 2016 como a franquia mais cara da história. Sem dúvida, outro belo enredo real que teria tudo para brigar pelo Oscar. O fato é que seja no Carnaval ou na tela dos cinemas, os 104 anos de história entre o Vale-Tudo e o MMA são um tema riquíssimo e ainda muito pouco explorado.

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CARLSON GRACIE E SEUS "CREONTES" - 8/2/2018

O primeiro dia do mês de fevereiro marcou o 12º aniversário da morte de um dos maiores ícones da história das lutas, o mestre Carlson Gracie. Filho mais velho dos 21 feitos por Carlos Gracie, Carlson passou a ser o representante da família assim que seu tio Hélio se aposentou, em 1955. Desde que entrou em cena vingando a derrota do tio para o roupeiro da academia Gracie e seu parceiro de treinos Valdemar Santana, até se aposentar, Carlson foi o número 1 da família por 19 anos.

Apesar de toda a competência como lutador, foi como treinador que Carlson descobriu sua maior vocação: produzir campeões. Durante mais de duas décadas sua equipe dominou os principais campeonatos de Jiu-Jitsu em quase todas as categorias. E quando o Vale-Tudo foi levado ao mundo por Rorion Gracie, foi a equipe de Carlson que mais exportou profissionais para o UFC, Pride e outros shows.

Tive a honra e a sorte de começar a cobrir o esporte exatamente nessa época, e por viajar muito para cobrir os maiores nomes do Brasil, acabei me aproximando muito do mestre. Indiscutivelmente, a figura mais carismática que já conheci. Sua total falta de preocupação com dinheiro, a maneira como tratava a todos de maneira igual e a capacidade de criar gírias e expressões (imediatamente incorporadas ao mundo da luta) faziam de Carlson um personagem único.

Muitas de suas expressões vinham do mundo das rinhas de galo (corrido, esgana-galo), outras do dia a dia da academia (poderoso) e outras surgiam de uma outra grande paixão do mestre, as novelas.

E foi inspirado no vilão “Creonte”, interpretado por Gracindo Jr. na novela “Mandala” (de Dias Gomes, dirigida por Ricardo Waddington, exibida pela Globo em 1987) que Carlson criou um dos termos mais populares, que passou a designar lutadores traidores, ou seja, que trocavam uma equipe por outra.

Um dos primeiros a receber o “carinhoso” apelido foi seu faixa preta André Pederneiras, que logo após a explosão do UFC, em 1993, percebeu que não havia como esconder o Jiu-Jitsu dos estrangeiros e decidiu ensinar a arte ao americano John Lewis, despertando a ira de Carlson. Para azar de André, Lewis acabaria lutando anos depois contra Carlson Jr., filho do mestre. Pederneiras seria o primeiro de centenas de “creontes” apontados pelo mestre.

Curiosamente, no meu primeiro encontro com Carlson, tive a “honra” de receber uma derivação semântica do termo. Fui apresentado ao mestre por Wallid Ismail em um desafio de lutas casadas de Jiu-Jitsu em 1993. Sentado ao lado de Carlson, Wallid pediu para ver as imagens que eu havia feito de sua luta com Renzo Gracie, mas antes me apresentou ao mestre. Confesso que fiquei até nervoso quando apertei a mão daquele senhor de quem meu pai sempre falava lembrando da histórica luta que lotou o Maracanãzinho.

Querendo ser simpático, enquanto Wallid escolhia suas fotos, fui fazer a burrada de oferecer ao mestre o meu book com algumas das melhores imagens que havia feito de alguns campeonatos de Jiu-Jitsu. Basicamente, uma coletânea de fotos dos atletas da Gracie Barra e da academia onde eu treinava, a Clube Barra. Como ainda estava me ambientando ao mundo do Jiu-Jitsu, não tinha a menor ideia do nível da rivalidade entre as academias naqueles tempos. Por isso, inicialmente, não entendi a reação de Carlson ao fechar o álbum e me devolver vociferando: “Que fotógrafo creontão da pesada é você, hein, bicho! Só tem foto da Barra! Que isso?!”. Não sabia se ria ou se me retirava diante da grosseria gratuita daquele cara que meu pai tinha como ídolo. Mas resolvi tentar argumentar dizendo que seria uma honra tirar foto dos seus atletas também.

Percebendo que tinha errado na dose, Carlson respondeu fazendo um convite que mudaria os rumos da minha carreira, abrindo o caminho para uma grande amizade. “Você tira fotos boas, pode aparecer lá na academia que será muito bem recebido”. Wallid aproveitou a deixa do mestre e barganhou um "pacote especial" para quando fosse a academia, o que acabou sendo um importante passo na minha carreira, uma vez que, após esta primeira visita ao Carlson, passei a visitar a academia com frequência, fazendo diversas reportagens para a revista KIAI e, posteriormente, para a TATAME.

Aos poucos o Vale-Tudo se transformou em MMA e as principais equipes passaram a perceber a importância da atualização de treinadores e técnicas. E foi exatamente esta abertura do mercado que gerou milhares de empregos para os faixas pretas brasileiros nos quatros cantos do mundo. Hoje é cada vez mais natural que atletas profissionais busquem os chamados camps de treinamento para cada luta. Esta nova mentalidade acabou transformando a creontagem num termo cada vez menos utilizado, que nos remete ao início do esporte e nos faz lembrar do maior criador de gírias, grandes campeões e grandes treinadores da história do esporte, o mestre Carlson Gracie.

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EMPURRÃO DA VELHA GUARDA - 5/2/2018


Se algum roteirista escrevesse a estreia perfeita para o UFC em Belém, talvez não tivesse sido tão competente. Além da vitória do maior ídolo local na luta principal, os mais de 10 mil paraenses que quase lotaram a arena Mangueirinho assistiram à maior goleada brasileira das 31 edições do UFC já realizadas no país: foram 9 vitórias em 11 lutas contra lutadores estrangeiros, descontando a surra de 9 a 1 que havíamos levado em Janeiro e encostando no placar, que agora está 11 a 10 para os gringos.

Como era esperado, Lyoto Machida fez uma luta tensa com Eryk Anders, e mesmo com toda a pressão por vir de quatro derrotas nas últimas cinco lutas e ter que fazer bonito em casa, superou as expectativas contra o favorito da nova geração. É bem verdade que, assim como na luta entre Anderson Silva e Derek Brunson, o respeito do novato pela lenda acabou fazendo a diferença.

Mesmo estando sem o timing e a rapidez que fez seu jogo tão temido na chamada era Machida (período entre 2003 e 2009, no qual Lyoto esteve invicto), o ídolo local conseguiu escapar do perigoso ground'n'pound do americano, usando sua movimentação e seu jogo de contragolpes para confundi-lo, garantindo uma vitória na decisão dividida.

Apesar da boa exibição do ex-campeão, ficou claro mais uma vez que o fator tempo precisa ser respeitado. E este bom senso tem que partir não só dos matchmakers, mas principalmente dos treinadores e managers, pois se depender dos lutadores (ainda mais se tratando de ex-campeões como Anderson, Belfort e Lyoto), estes sempre estarão prontos para aceitar desafios contra as maiores pedreiras da nova geração. Mas se existem outros veteranos ex-campeões que podem protagonizar grandes clássicos, como Rashad Evans e Michael Bisping, por que não buscar confrontos que façam mais sentido?

Num momento em que Cris Cyborg refuta uma disputa de cinturão com a compatriota Amanda Nunes valendo como luta principal do UFC Rio 9, talvez uma boa alternativa fosse casar Vitor Belfort e Lyoto Machida como coringa deste card. Certamente a disputa entre o Leão e o Dragão, dois ídolos mundiais da modalidade, teria tudo para ser um tempero a mais e alavancar as vendas de pay-per-view do UFC 224, já agendado para o dia 12 de maio na Jeunesse Arena.

Ambos já declararam que a amizade entre eles não seria nenhum empecilho para protagonizarem este clássico histórico. Se para Belfort fazer sua última luta em um UFC numerado seria uma despedida à altura por toda sua história com o evento; para Lyoto, este combate seria uma ótima maneira de se manter ativo e ainda carimbar sua participação na despedida de outro campeão veterano, Michael Bisping, a quem ele pediu na saída do octógono em Belém.

O fato é que o MMA se encontra num período de renovação, e enquanto novos ídolos começam a se estabelecer, os grandes ícones da velha guarda ainda podem ter um importante papel para continuar alavancando o esporte que ajudaram a construir.

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Charge: David Carvalho  

Salve, amigos da luta e fãs do UFC! É com muito prazer que, a partir de hoje, dividirei este espaço com vocês. Aqui, no Blog Por Trás do Octógono, pretendo debater assuntos polêmicos, analisar eventos já ocorridos e também os que ainda estão por vir, falar de novos talentos e, principalmente, valorizar a história do nosso esporte.    

Semanalmente trarei imagens e causos curiosos de momentos que marcaram os bastidores destes 26 anos que venho cobrindo MMA, além de relembrar personagens importantes - muitas vezes esquecidos -, que tiveram participação fundamental nos tempos em que o MMA ainda se chamava Vale-Tudo.

Fiquem à vontade para criticar, debater, deixar sugestões e opiniões para que possamos transformar este espaço em mais uma praça de debates democráticos que tanto engrandecem o nosso esporte. 

VOLTA ÀS ORIGENS - 2/2/-2018

E por falar em história, não poderia haver data melhor para estrearmos este espaço. No ano em que completa 25 anos, o UFC chega neste sábado a Belém do Pará, cidade onde tudo começou, há 104 anos, no encontro entre Gastão Gracie e o japonês Mitsuyo Maeda. 

Definitivamente, se existe um marco zero do MMA mundial, este lugar é a praça da República, em Belém, onde hoje está localizado o hotel Princesa Louçã (antigo Hotel Hilton). Era lá que ficava localizado o American Circus, empresariado por Gastão, pai de Carlos e Hélio Gracie. Segundo apurou o historiador amazonense Rildo Heros, em 1914 Maeda teria desafiado e vencido o lutador Alfredo Leconte, que na época era o Hércules, principal lutador do circo. 

Depois disso, o japonês passou a fazer desafios no American Circus, além de dar aulas de Jiu-Jitsu no Cine Teatro Moderno (onde está hoje a praça do Cam), localizada em frente a Basílica de Nazaré, onde Gastão matriculou seu filho mais velho, Carlos. 

O resto da história todo mundo conhece. Carlos, Hélio e seus irmãos passaram a fazer no Brasil o que o mestre Mitsuyo Maeda fizera desde que abandonou a Kodokan em 1906: desafios para comprovar a superioridade do Jiu-Jitsu sobre outros estilos de luta.

Após consagrar o nome Gracie vencendo desafios contra as mais diversas modalidades por três gerações, a família levaria, por intermédio de Rorion (filho mais velho de Hélio) a concepção de desafios sem regras para o mundo com a criação do UFC, em novembro de 1993. 

Curiosamente, Belém voltava à cena em dezembro de 1994, mês em que Royce Gracie consagrava o Gracie Jiu-Jitsu vencendo seu terceiro torneio, enfileirando um total de 13 oponentes (em três torneios).Uma chuva torrencial derrubaria o túmulo do Japonês Mitsuyo Maeda em Belém.

Ao ser informado do ocorrido com os restos mortais do homem que trouxe o Jiu-Jitsu para o Brasil, Yoshizo Machida, pai de Lyoto, na época com 15 anos, fez questão de ir ao cemitério, juntar os ossos do compatriota e levá-los para sua casa enquanto buscava apoio para reconstrução da sepultura.

“Limpei com bombril, e com a ajuda da associação Nipo Brasileira e da Universidade Kokushikan conseguimos doações para remontar o túmulo alguns meses depois”, me revelou Seu Yoshizo em 2009, quando estive em sua casa para fazer uma matéria sobre Lyoto, que acabara de nocautear Rashad Evans, se consagrando campeão meio-pesado do UFC.

Neste final de semana, o ciclo se completará e o povo paraense finalmente terá a oportunidade de usufruir do esporte que lá foi gerado e hoje é, sem dúvida, um dos que mais cresce no planeta, propiciando uma vida digna para milhares de treinadores, lutadores e profissionais de várias áreas no mundo todo.