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Blog Por Trás do Octógono, por Marcelo Alonso

02 de Fevereiro de 2018


MMA NA SAPUCAÍ - 15/2/2018

Uma pergunta em tom de brincadeira que a colega Ana Hissa fez a mim na última edição do “Revista Combate”, em plena terça-feira de carnaval, me fez matutar: por que a história do MMA nunca virou enredo do carnaval? Difícil imaginar enredo mais rico para ser explorado do que os 104 anos de história de um esporte criado por um brasileiro e que hoje é um dos mais populares do mundo.

Lembro que em meados dos anos 90, logo após as primeiras vitórias de Royce no UFC, um carnavalesco de uma escola de samba do grupo de acesso chegou a pensar em levar a história da família Gracie para a avenida, mas acabou sendo demovido da ideia quando foi apresentado ao mestre Carlson Gracie. “Tá ficando louco, bichão? Se botar um monte de cascas-grossas de quimono todo duro na avenida, você só vai levar zero! É derrota na certa!”, disse o mestre com a “delicadeza” que lhe era peculiar. Após o banho de água fria, o carnavalesco certamente decidiu mudar de enredo.

O fato é que de lá pra cá muitas águas rolaram e a história, que já era riquíssima, acabou sendo consagrada com a explosão mundial do MMA, carreada pelo sucesso do UFC e de vários campeões brasileiros que surgiram depois de Royce. E graças a esta popularização, o esporte passou a ser entendido como algo produzido no Brasil e que gera enorme impacto global.

Se muitas vezes os carnavalescos têm a capacidade de transformar histórias sobre outras culturas e países distintos em enredos fantásticos, imaginem trabalhando com um assunto rico e genuinamente nacional como este.

Até eu que não sou do ramo já consigo imaginar os carnavalescos deitando e rolando: Conde Koma se despedindo de seu mestre Jigoro Kano no Japão e fazendo desafios pelo mundo; o encontro do japonês com Gastão e seu filho Carlos em Belém; a chegada da família Gracie no Rio de Janeiro em 1925; os desafios dos irmãos Gracie e a luta de Kimura e Hélio no Maracanã; Carlson Gracie vingando o tio da derrota para Valdemar Santana; Rorion chegando aos EUA como imigrante fritando hambúrgueres e fazendo desafios em sua garagem; o primeiro UFC e a consagração de Royce e do Jiu-Jitsu brasileiro; a transformação do esporte promovida por Dana White e os irmão Fertitta; a inclusão social propiciada pelo esporte no Brasil e no mundo no carro “Mais Forte que o Mundo” (com José Aldo de destaque); terminando em grande estilo com um carro com os maiores ídolos de várias gerações do esporte: Marco Ruas, Anderson, Minotauro, Wanderlei, Belfort e tantos outros gênios que escreveram a história deste esporte.

O grande mestre Carlson Gracie que me perdoe, mas com uma história riquíssima como essa, o samba no pé dos nossos “destaques cascas-grossas” não seria motivo para dependermos de decisão de jurados. Aposto em vitória, e por nocaute.
Alô, Alô, Paulo Barros, Rosa Magalhães e outros gênios do carnaval, pensem com carinho na ideia antes que algum diretor de Hollywood chegue na frente e conte a história nos cinemas por um enfoque “mais contemporâneo”, talvez enfatizando a genialidade de três americanos que deram uma nova roupagem ao Vale-Tudo brasileiro, comprando por 2 milhões de dólares em 2000 como um evento que promovia o desafio entre modalidades e vendendo por 4.2 bilhões em 2016 como a franquia mais cara da história. Sem dúvida, outro belo enredo real que teria tudo para brigar pelo Oscar. O fato é que seja no Carnaval ou na tela dos cinemas, os 104 anos de história entre o Vale-Tudo e o MMA são um tema riquíssimo e ainda muito pouco explorado.



CARLSON GRACIE E SEUS "CREONTES" - 8/2/2018

O primeiro dia do mês de fevereiro marcou o 12º aniversário da morte de um dos maiores ícones da história das lutas, o mestre Carlson Gracie. Filho mais velho dos 21 feitos por Carlos Gracie, Carlson passou a ser o representante da família assim que seu tio Hélio se aposentou, em 1955. Desde que entrou em cena vingando a derrota do tio para o roupeiro da academia Gracie e seu parceiro de treinos Valdemar Santana, até se aposentar, Carlson foi o número 1 da família por 19 anos.

Apesar de toda a competência como lutador, foi como treinador que Carlson descobriu sua maior vocação: produzir campeões. Durante mais de duas décadas sua equipe dominou os principais campeonatos de Jiu-Jitsu em quase todas as categorias. E quando o Vale-Tudo foi levado ao mundo por Rorion Gracie, foi a equipe de Carlson que mais exportou profissionais para o UFC, Pride e outros shows.

Tive a honra e a sorte de começar a cobrir o esporte exatamente nessa época, e por viajar muito para cobrir os maiores nomes do Brasil, acabei me aproximando muito do mestre. Indiscutivelmente, a figura mais carismática que já conheci. Sua total falta de preocupação com dinheiro, a maneira como tratava a todos de maneira igual e a capacidade de criar gírias e expressões (imediatamente incorporadas ao mundo da luta) faziam de Carlson um personagem único.

Muitas de suas expressões vinham do mundo das rinhas de galo (corrido, esgana-galo), outras do dia a dia da academia (poderoso) e outras surgiam de uma outra grande paixão do mestre, as novelas.

E foi inspirado no vilão “Creonte”, interpretado por Gracindo Jr. na novela “Mandala” (de Dias Gomes, dirigida por Ricardo Waddington, exibida pela Globo em 1987) que Carlson criou um dos termos mais populares, que passou a designar lutadores traidores, ou seja, que trocavam uma equipe por outra.

Um dos primeiros a receber o “carinhoso” apelido foi seu faixa preta André Pederneiras, que logo após a explosão do UFC, em 1993, percebeu que não havia como esconder o Jiu-Jitsu dos estrangeiros e decidiu ensinar a arte ao americano John Lewis, despertando a ira de Carlson. Para azar de André, Lewis acabaria lutando anos depois contra Carlson Jr., filho do mestre. Pederneiras seria o primeiro de centenas de “creontes” apontados pelo mestre.

Curiosamente, no meu primeiro encontro com Carlson, tive a “honra” de receber uma derivação semântica do termo. Fui apresentado ao mestre por Wallid Ismail em um desafio de lutas casadas de Jiu-Jitsu em 1993. Sentado ao lado de Carlson, Wallid pediu para ver as imagens que eu havia feito de sua luta com Renzo Gracie, mas antes me apresentou ao mestre. Confesso que fiquei até nervoso quando apertei a mão daquele senhor de quem meu pai sempre falava lembrando da histórica luta que lotou o Maracanãzinho.

Querendo ser simpático, enquanto Wallid escolhia suas fotos, fui fazer a burrada de oferecer ao mestre o meu book com algumas das melhores imagens que havia feito de alguns campeonatos de Jiu-Jitsu. Basicamente, uma coletânea de fotos dos atletas da Gracie Barra e da academia onde eu treinava, a Clube Barra. Como ainda estava me ambientando ao mundo do Jiu-Jitsu, não tinha a menor ideia do nível da rivalidade entre as academias naqueles tempos. Por isso, inicialmente, não entendi a reação de Carlson ao fechar o álbum e me devolver vociferando: “Que fotógrafo creontão da pesada é você, hein, bicho! Só tem foto da Barra! Que isso?!”. Não sabia se ria ou se me retirava diante da grosseria gratuita daquele cara que meu pai tinha como ídolo. Mas resolvi tentar argumentar dizendo que seria uma honra tirar foto dos seus atletas também.

Percebendo que tinha errado na dose, Carlson respondeu fazendo um convite que mudaria os rumos da minha carreira, abrindo o caminho para uma grande amizade. “Você tira fotos boas, pode aparecer lá na academia que será muito bem recebido”. Wallid aproveitou a deixa do mestre e barganhou um "pacote especial" para quando fosse a academia, o que acabou sendo um importante passo na minha carreira, uma vez que, após esta primeira visita ao Carlson, passei a visitar a academia com frequência, fazendo diversas reportagens para a revista KIAI e, posteriormente, para a TATAME.

Aos poucos o Vale-Tudo se transformou em MMA e as principais equipes passaram a perceber a importância da atualização de treinadores e técnicas. E foi exatamente esta abertura do mercado que gerou milhares de empregos para os faixas pretas brasileiros nos quatros cantos do mundo. Hoje é cada vez mais natural que atletas profissionais busquem os chamados camps de treinamento para cada luta. Esta nova mentalidade acabou transformando a creontagem num termo cada vez menos utilizado, que nos remete ao início do esporte e nos faz lembrar do maior criador de gírias, grandes campeões e grandes treinadores da história do esporte, o mestre Carlson Gracie.




EMPURRÃO DA VELHA GUARDA - 5/2/2018


Se algum roteirista escrevesse a estreia perfeita para o UFC em Belém, talvez não tivesse sido tão competente. Além da vitória do maior ídolo local na luta principal, os mais de 10 mil paraenses que quase lotaram a arena Mangueirinho assistiram à maior goleada brasileira das 31 edições do UFC já realizadas no país: foram 9 vitórias em 11 lutas contra lutadores estrangeiros, descontando a surra de 9 a 1 que havíamos levado em Janeiro e encostando no placar, que agora está 11 a 10 para os gringos.

Como era esperado, Lyoto Machida fez uma luta tensa com Eryk Anders, e mesmo com toda a pressão por vir de quatro derrotas nas últimas cinco lutas e ter que fazer bonito em casa, superou as expectativas contra o favorito da nova geração. É bem verdade que, assim como na luta entre Anderson Silva e Derek Brunson, o respeito do novato pela lenda acabou fazendo a diferença.

Mesmo estando sem o timing e a rapidez que fez seu jogo tão temido na chamada era Machida (período entre 2003 e 2009, no qual Lyoto esteve invicto), o ídolo local conseguiu escapar do perigoso ground'n'pound do americano, usando sua movimentação e seu jogo de contragolpes para confundi-lo, garantindo uma vitória na decisão dividida.

Apesar da boa exibição do ex-campeão, ficou claro mais uma vez que o fator tempo precisa ser respeitado. E este bom senso tem que partir não só dos matchmakers, mas principalmente dos treinadores e managers, pois se depender dos lutadores (ainda mais se tratando de ex-campeões como Anderson, Belfort e Lyoto), estes sempre estarão prontos para aceitar desafios contra as maiores pedreiras da nova geração. Mas se existem outros veteranos ex-campeões que podem protagonizar grandes clássicos, como Rashad Evans e Michael Bisping, por que não buscar confrontos que façam mais sentido?

Num momento em que Cris Cyborg refuta uma disputa de cinturão com a compatriota Amanda Nunes valendo como luta principal do UFC Rio 9, talvez uma boa alternativa fosse casar Vitor Belfort e Lyoto Machida como coringa deste card. Certamente a disputa entre o Leão e o Dragão, dois ídolos mundiais da modalidade, teria tudo para ser um tempero a mais e alavancar as vendas de pay-per-view do UFC 224, já agendado para o dia 12 de maio na Jeunesse Arena.

Ambos já declararam que a amizade entre eles não seria nenhum empecilho para protagonizarem este clássico histórico. Se para Belfort fazer sua última luta em um UFC numerado seria uma despedida à altura por toda sua história com o evento; para Lyoto, este combate seria uma ótima maneira de se manter ativo e ainda carimbar sua participação na despedida de outro campeão veterano, Michael Bisping, a quem ele pediu na saída do octógono em Belém.

O fato é que o MMA se encontra num período de renovação, e enquanto novos ídolos começam a se estabelecer, os grandes ícones da velha guarda ainda podem ter um importante papel para continuar alavancando o esporte que ajudaram a construir.


Charge: David Carvalho  

Salve, amigos da luta e fãs do UFC! É com muito prazer que, a partir de hoje, dividirei este espaço com vocês. Aqui, no Blog Por Trás do Octógono, pretendo debater assuntos polêmicos, analisar eventos já ocorridos e também os que ainda estão por vir, falar de novos talentos e, principalmente, valorizar a história do nosso esporte.    

Semanalmente trarei imagens e causos curiosos de momentos que marcaram os bastidores destes 26 anos que venho cobrindo MMA, além de relembrar personagens importantes - muitas vezes esquecidos -, que tiveram participação fundamental nos tempos em que o MMA ainda se chamava Vale-Tudo.

Fiquem à vontade para criticar, debater, deixar sugestões e opiniões para que possamos transformar este espaço em mais uma praça de debates democráticos que tanto engrandecem o nosso esporte. 

VOLTA ÀS ORIGENS - 2/2/-2018

E por falar em história, não poderia haver data melhor para estrearmos este espaço. No ano em que completa 25 anos, o UFC chega neste sábado a Belém do Pará, cidade onde tudo começou, há 104 anos, no encontro entre Gastão Gracie e o japonês Mitsuyo Maeda. 

Definitivamente, se existe um marco zero do MMA mundial, este lugar é a praça da República, em Belém, onde hoje está localizado o hotel Princesa Louçã (antigo Hotel Hilton). Era lá que ficava localizado o American Circus, empresariado por Gastão, pai de Carlos e Hélio Gracie. Segundo apurou o historiador amazonense Rildo Heros, em 1914 Maeda teria desafiado e vencido o lutador Alfredo Leconte, que na época era o Hércules, principal lutador do circo. 

Depois disso, o japonês passou a fazer desafios no American Circus, além de dar aulas de Jiu-Jitsu no Cine Teatro Moderno (onde está hoje a praça do Cam), localizada em frente a Basílica de Nazaré, onde Gastão matriculou seu filho mais velho, Carlos. 

O resto da história todo mundo conhece. Carlos, Hélio e seus irmãos passaram a fazer no Brasil o que o mestre Mitsuyo Maeda fizera desde que abandonou a Kodokan em 1906: desafios para comprovar a superioridade do Jiu-Jitsu sobre outros estilos de luta.

Após consagrar o nome Gracie vencendo desafios contra as mais diversas modalidades por três gerações, a família levaria, por intermédio de Rorion (filho mais velho de Hélio) a concepção de desafios sem regras para o mundo com a criação do UFC, em novembro de 1993. 

Curiosamente, Belém voltava à cena em dezembro de 1994, mês em que Royce Gracie consagrava o Gracie Jiu-Jitsu vencendo seu terceiro torneio, enfileirando um total de 13 oponentes (em três torneios).Uma chuva torrencial derrubaria o túmulo do Japonês Mitsuyo Maeda em Belém.

Ao ser informado do ocorrido com os restos mortais do homem que trouxe o Jiu-Jitsu para o Brasil, Yoshizo Machida, pai de Lyoto, na época com 15 anos, fez questão de ir ao cemitério, juntar os ossos do compatriota e levá-los para sua casa enquanto buscava apoio para reconstrução da sepultura.

“Limpei com bombril, e com a ajuda da associação Nipo Brasileira e da Universidade Kokushikan conseguimos doações para remontar o túmulo alguns meses depois”, me revelou Seu Yoshizo em 2009, quando estive em sua casa para fazer uma matéria sobre Lyoto, que acabara de nocautear Rashad Evans, se consagrando campeão meio-pesado do UFC.

Neste final de semana, o ciclo se completará e o povo paraense finalmente terá a oportunidade de usufruir do esporte que lá foi gerado e hoje é, sem dúvida, um dos que mais cresce no planeta, propiciando uma vida digna para milhares de treinadores, lutadores e profissionais de várias áreas no mundo todo.